Futebol Feminino

‘Moderna, ofensiva e diferente': como será a seleção sob comando de Emily

*Por Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso
Créditos fotográficos: Kin Saito e Lucas Figueiredo/CBF 

A pergunta inicial da primeira entrevista coletiva da primeira mulher a assumir o cargo de técnica de uma seleção principal da CBF não poderia ser outra. Como será o time sob o comando de Emily Lima?

É bem possível que se a mesma pergunta fosse feita aos técnicos da Série A do Campeonato Brasileiro atual, as respostas de 90% deles seriam algo como “vamos estudar as melhores opções para o time”, “futebol não é uma ciência exata”, “vamos conversar para adaptar o melhor esquema”, bla bla bla.

Mas a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto do futebol feminino no país não chegou lá por acaso, com o mesmo bla bla bla de tantos outros por aí. E a resposta deu o tom de como será a nova seleção sob o comando dela: MODERNA.

Venho com uma missão de fazer tudo diferente do que eu vivi durante 25 anos no futebol. Então eu vou trazer o de melhor e mais moderno para a CBF.” Essas foram as primeiras frases públicas de Emily como técnica da seleção. Pensando que seu antecessor era Vadão – que, de moderno, tinha tanto quanto um patins de 1994 -, dá para prever que grandes mudanças virão por aí.

emily_cbf2Ela prosseguiu: “Claro que tenho que pensar muito bem o modelo de jogo que vou utilizar, porque no clube eu tenho algumas peças que eu precisava me adaptar. Aqui eu posso convocar as melhores atletas da atualidade.” Ponto.

É essa a primeira premissa que qualquer técnico de seleção deve ter. Trabalhar com AS MELHORES OPÇÕES com as quais você pode sonhar. No clube, você está limitado por tantas coisas – orçamento, elenco escasso, que por consequência limitam as variações táticas, etc, etc. Um técnico de seleção – especialmente de seleção brasileira que já naturalmente conta com muito talento disponível – tem que ter a consciência de que tem em suas mãos O MELHOR e que, portanto, sua responsabilidade é fazer as (os) melhores jogadoras (es) renderem o máximo que puderem.  E a treinadora já chegou mostrando seus conhecimentos táticos, pra quem duvida que mulher pode entender disso:

Dentro disso que vou procurar fazer um jogo muito ofensivo, a princípio com duas linhas de 4, para não inventar muita coisa e fugir do padrão, e depois um 4-3-3. Espero modernizar o máximo que eu conseguir dentro das peças que nós convocarmos. Gosto muito do jogo apoiado, com aproximação”.

Em uma única resposta, duas coisas que não víamos há tempos na seleção feminina: variação tática e jogo moderno. Marcação desde a saída de bola, toques mais curtos e rápidos para chegar lá na frente – sem ficar só no chuverinho na área, tão utilizado por Vadão -, o tal jogo apoiado, aproximado.

Para finalizar, a grande diferença entre Emily e Vadão – e a imensa maioria dos treinadores por aí, até mesmo os melhores do masculino: a busca por estudar e se atualizar sempre. “Temos que nos atualizar. Estudo muito o futebol da Europa, que é o futebol mais vistoso que eu vejo hoje”.

“O próprio Tite campeão de tudo com o Corinthians em 2012 melhorou demais com seus estudos na Europa e isso ficou muito claro na sua segunda passagem pelo clube, quando ele foi o responsável por transformar taticamente um time que estava perdido após o hexacampeonato brasileiro. E que ficou ainda mais lúcida com as últimas atuações da seleção brasileira sob seu comando. Um time que era apático que não conseguia se impor nem mesmo sobre o Paraguai virou uma equipe organizada e ofensiva, com cara de seleção brasileira.

Desde que passou a ser técnica, Emily não parou um segundo de estudar. Fez cursos por aqui e estagiou com Cuca, no Palmeiras (time que está prestes a ser campeão brasileiro). Recentemente, finalizou o curso de licença B promovido pela CBF, afirmando ter sido o melhor até agora. Estuda os padrões de jogos da Europa e assumiu a seleção e, já dizendo que quer trabalhar com Tite para aprender com o melhor – porque ele é, sim, atualmente o melhor técnico brasileiro em atividade. Coisa que Emily tem muito potencial – e agora finalmente está tendo oportunidade para mostrar isso – para se tornar.

“Uma das perguntas foi se eu poderia trocar ideias com o Tite. Eu já vinha pensando isso. Comentei com a Valeska que trabalha aqui, quando ele estava no clube, que eu gostaria de estagiar com ele. Hoje mais próximo, espero que aconteça. Vai engrandecer muito o meu trabalho”, afirmou.

A nova treinadora da seleção feminina também mostrou preocupação com outras mulheres que desejam se capacitar e, assim como ela, ter acesso ao curso de treinadores oferecidos pela CBF (e que custa em torno de R$ 7 mil reais). Emily endossou o coro feito pelos membros do Comitê de Reformas da CBF para melhorias no futebol feminino sobre a importância de se conceder uma bolsa-auxílio para que mais profissionais possam se preparar para exercer o cargo de treinadoras dentro do futebol – espaço ainda restrito ao gênero.

O curso é caro, vale a pena pagar, mas nós que trabalhamos no futebol feminino, ganhando pouco e vivendo com incertezas, não temos condições de arcar com o custo da capacitação. Eu fiz, e quero poder ajudá-las de alguma forma. Já conversei sobre isso (a bolsa auxílio) com o presidente” – completou.

Foram 20 ou 30 minutos de coletiva que nos deram a certeza de que podemos ser muito otimistas sobre o futuro daqui para frente. Ver uma mulher se sentar ali no lugar central de uma coletiva de imprensa da CBF como técnica de uma seleção principal já arrepia. Mas ver uma mulher inteligente como Emily Lima mostrando com respostas simples e diretas por que foi escolhida para estar ali dá um orgulho danado.

emily_cbf - Lucas FigueiredoA própria Emily declarou que seu maior sonho era chegar lá, comandando a seleção feminina principal, e o que vem na sequência disso, não é nada pessoal. “Quero ver a modalidade ser reconhecida e valorizada no nosso país. Para mim, o meu maior sonho é ver a modalidade onde ela merece estar. Acho que a cultura do nosso país é machista, mas a gente está quebrando essa barreira. Vou valorizar muito o que o presidente está fazendo, de ter muita coragem de colocar uma mulher à frente da Seleção principal”, afirmou.

Talvez Emily ainda não tenha percebido a dimensão do que está fazendo. A partir de hoje, milhões de meninas poderão se inspirar nela e sonhar em um dia virar técnicas de futebol – da seleção brasileira, até. A partir de hoje, milhões de mulheres poderão responder quando forem questionadas sobre seu “entendimento” de futebol – “você acha que mulher não entende? Olha lá a técnica da seleção feminina”.

A partir de hoje, um novo futuro se abre para o futebol feminino – e para àquelas que, por tantas décadas, foram excluídas do universo da bola. E com certeza, as novas gerações de treinadoras poderão responder facilmente à pergunta sobre quem as inspirou a trabalhar com futebol:” Foi Emily Lima, a pioneira que nos abriu espaço dentro de uma comissão técnica”

Destaque na mídia?

Nesta quinta-feira, a primeira mulher a assumir o comando de uma seleção principal do país falou à imprensa pela primeira vez. Mas apenas um dos principais programas esportivos de TV deu espaço a isso ao vivo na programação, após a coletiva, Emily entrou concedeu entrevista exclusiva ao Redação SporTV. Na ESPN, nada. Achei que fosse ver no Globoesporte – afinal, havia um repórter cobrindo a coletiva, ele até fez pergunta. Mas também nada. Eles falaram da filha de Renato Gaúcho no campo comemorando a classificação do Grêmio para a final da Copa do Brasil, mas não dedicaram um segundo de programa às falas da primeira mulher técnica da seleção. Alguns sites também ignoraram.

Engraçado. A última pergunta da coletiva de Emily foi sobre “a falta de interesse do público com o futebol feminino”. Será que a falta de interesse é do público ou da mídia que não se importa em cobrir nem mesmo um acontecimento histórico como esse? Como poderia o público se interessar por algo sobre o qual ele nunca ouve falar?  Fica o questionamento.

3 Comments

  1. Parabéns pelo texto. A parte final dele “Achei que fosse ver no Globoesporte – afinal, havia um repórter cobrindo a coletiva, ele até fez pergunta. Mas também nada. Eles falaram da filha de Renato Gaúcho no campo comemorando a classificação do Grêmio para a final da Copa do Brasil, mas não dedicaram um segundo de programa às falas da primeira mulher técnica da seleção.” foi elucidativa. Merece um quadro ou um post com maior destaque.

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