Futebol Feminino

Minha primeira vez no estádio, aos 57 anos: por que eu demorei tanto para descobrir isso?

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Pode parecer clichê – e até é, de certa forma -, mas nesse caso não tem como fugir: a primeira vez no estádio, a gente nunca esquece.

Não importa a idade, parece que a memória vai sempre ter um lugar reservado para aquele primeiro encontro com a arquibancada. E ali, é inevitável – no momento em que os olhos se abrem para ela, eles teimam em percorrer o estádio todo em alguns segundos de êxtase. Não dá pra explicar o que é aquilo, o que se sente quando se entra num estádio pulsante pela primeira vez.

Eu confesso que minha sorte foi ter tido a chance de conhecer tudo isso na infância -tive minha primeira experiência no estádio por volta dos 12 ou 13 anos. Foram inúmeras desde então. Mas são poucas as mulheres, como eu, que tiveram a chance de conhecer isso tão cedo.

No meu caso, foi por teimosia. A gente morava em Sorocaba, cidade do interior de São Paulo, e meu pai não costumava ir tanto ao estádio. Mas uma vez ele foi e levou meu irmão – e não me levou. Sequer perguntou se eu queria ir.

Não foi por mal, ele me explicou depois que eu fiz um escarcéu por ele não ter me convidado: “Só achei que você não iria gostar”. Mal sabia ele que eu não só iria gostar, como iria me apaixonar mais por isso do que ele e meu irmão juntos. Daquele dia em diante, meu pai nunca mais deixou de me chamar pra ver um jogo, fosse no estádio ou na televisão.

Só que existem outros milhões de pais por aí que partem desse mesmo pressuposto: “ela não vai gostar”. Outros, em casos mais extremos, que simplesmente não deixam as filhas gostarem, porque “futebol não é coisa pra menina”. E, por conta disso, tantas milhares e milhões de meninas e mulheres perdem a chance de conhecer o universo apaixonante do futebol – e de ter aquela inesquecível primeira vez no estádio.

Há alguns meses, tive a oportunidade de acompanhar um grande amigo que levava sua mãe pela primeira vez ao Morumbi. Como não poderia deixar de ser, ela ficou arrepiada com a experiência. Arregalou os olhos no momento que subiu na arquibancada e avistou o estádio inteiro aos seus pés. E uma das primeiras coisas que ela me disse foi: “por que eu demorei tanto tempo para viver isso?”.

Primeira vez no estádio aos 57 anos

Maria das Graças dos Santos tem 57 anos e é são-paulina por causa do filho, Jean. “Na verdade, eu comecei a ver jogos depois que o Jean tinha nascido. Eu sentava no sofá e assistia com ele. Meu marido acompanhava, eu via que ele (Jean) gostava, aí eu incentivava, era uma maneira de participar também”, contou.

Mas ela poderia ter se interessado por futebol muito antes disso. Maria das Graças cresceu em uma família grande na Paraíba e tinha sete irmãos e cinco irmãs. Entre os homens, todos gostavam de futebol. Mas para as meninas, aquele era um território “proibido”.

“Eles não deixavam nem a gente ir aos jogos de futebol deles. Falavam que não era coisa para mulher. Naquela época, as coisas eram mais difíceis, né, as pessoas tinham um pensamento mais fechado”.

Foi então que somente aos 57 anos de idade, ela teve a chande de ir pela primeira vez ao estádio ver um jogo do time que acompanhava há 30 anos por causa do filho. O Jean teve a iniciativa de levá-la – mas tomou cuidado para escolher um jogo mais tranquilo. “Jogo de Libertadores fica muito cheio, é uma confusão na entrada, aí é mais complicado para trazê-la.”

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Era São Paulo x Vitória, um jogo numa quarta-feira, às 19h30 – horário quase impossível de se chegar ao Morumbi. O estádio realmente não estava nem perto do que pode ser considerado cheio, mas pulsava no ritmo de “OOO toca no Calleri que é gol”, a famosa música que embalou o Morumbi nos tempos felizes em que o atacante argentino vestiu a camisa tricolor.

Com o gol demorando a sair, a torcida foi ficando apreensiva e começaram a pipocar os palavrões – se tem um lugar no mundo onde eles são liberados sem qualquer censura, é no estádio. “Eu fiquei um pouco impressionada com a quantidade de palavrões, não achava que era tanto”, diz dona Maria, aos risos. Logo, ela também começou a entrar na “brincadeira”.

“Xingar o juiz é muito divertido”, ela ria. Mas o momento ápice de felicidade, como não poderia deixar de ser, foi o gol. Foram dois naquela noite, um de Calleri e outro do ídolo Lugano. O abraço de dona Maria com o filho não poderia ser mais sincero.

“Eu quero muito ir de novo. Quando ele for a outros jogos, já falei pra ele me chamar. Quero aprender mais. Eu não sabia de nada.” Durante a partida, Jean explicou alguns detalhes sobre as regras do impedimento e sobre a organização tática da equipe.

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Ao final, para ter a experiência completa, dona Maria experimentou o pernil na saída do estádio e voltou para casa com um sorriso de orelha a orelha. “É muito bom, eu aconselho as mulheres a participarem mais. Eu queria ter 10 anos a menos pra poder aproveitar mais isso. Você se sente mais jovem, tava me achando com uns 30 anos lá. Você sente seu lado criança aflorar de novo.”

“Fiquei pensando depois…tanta coisa que eu deixei passar…por que eu não vivi isso antes?”

O mais importante é que, agora, ela não vai mais deixar passar nada. E a lição que fica é que nunca é tarde para viver momentos como esse – nem para se libertar dos preconceitos que possam um dia ter limitado suas experiências.  

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