Futebol Feminino

#MeToo Os assédios ocultos no mundo do esporte

Desde que casos de assédio sexual e estupro do poderoso empresário de Hollywood, Harvey Weinstein, vieram à tona, um movimento de mulheres surgiu na internet para denunciar outros casos similares nas mais diversas áreas do mercado. A hashtag #MeToo dominou as redes sociais no último mês e expôs milhares de crimes desse tipo, mostrando que, apesar de ainda serem pouco denunciados, eles são muito mais comuns do que se pode imaginar.

No esporte, uma área ainda dominada por homens – e onde as mulheres enfrentam bastante preconceito para atuar -, a história se repete. Os “assédios nossos de cada dia” são constantes e acabam subnotificados (ou nada notificados) pelo medo de represálias – afinal, as mulheres raramente ocupam cargos de chefia no universo esportivo e acabam sendo “o lado mais fraco” para a corda arrebentar.

Entre as atletas, Breanna Stewart, medalhista de ouro dos Estados Unidos no basquete na Olimpíada do Rio de Janeiro, chegou a falar abertamente sobre abusos que sofreu quando ainda era criança. Em um texto publicado no site The Players Tribune, ela contou que foi molestada por anos – a primeira vez aconteceu quando tinha 9 e dormia na casa de parentes e foi tocada por um amigo da família.

“Falar sobre o que eu passei, explicando tudo, acaba comigo. Eu sou forçada a reviver isso.  Eu queria jogar. O basquete tornou-se uma espécie de espaço seguro para mim. Mas nenhum espaço parecia completamente seguro. Eu sabia o que ia acontecer quando eu fosse para aquela casa. Mas como você diz a seus pais que você não quer fazer uma visita – nunca – sem explicar o porquê? Eu sentia como se eu não pudesse contar a ninguém”, afirmou a atleta na carta.

(Crédito da foto: TIM CLAYTON, The Players Tribune)

“O que aconteceu foi real. Não foi apenas um pesadelo terrível. Não foi uma outra vida que eu vivi em outro tempo. Tenho raiva por ele ter se aproveitado pelo fato de eu ser criança. Nunca vou conseguir ter esse tempo de volta. E as memórias que eu ainda tenho, nunca serei capaz de apagar. Às vezes, eu desejo ter mais alguns buracos negros. Mesmo que eu jogue em frente a milhares de pessoas ou fale com repórteres, tenho momentos silenciosos todos os dias que ninguém vê.

Aqui no Brasil, a nadadora Joanna Maranhão também denunciou um caso de abuso sexual que sofreu aos 9 anos pelo técnico do clube onde nadava.  O caso teve grande repercussão e até hoje ela ouve comentários maldosos na internet de pessoas dizendo que ela inventou a história do abuso “para se promover”.

A situação vivida por Breanna e Joanna foi extrema, mas muitas mulheres que atuam no esporte já viveram episódios de assédio – que muitas vezes podem levar a casos de abuso. Nós, do ~dibradoras, já passamos por situações assim e resolvemos, com esta matéria, reunir relatos do que já sofremos e do que já ouvimos de outras mulheres que estão no universo esportivo para fazer coro a esse movimento. E, acima de tudo, para encorajar mais mulheres a falarem sobre o assunto.

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[Os nomes das autoras dos depoimentos foram preservados por segurança]

‘Com quem você transou para estar aí?’

Essa frase é uma típica ouvida – ou lida – pelas mulheres que atuam no jornalismo esportivo. Na era das redes sociais, onde as pessoas podem se esconder e se resguardar em perfis falsos, afirmações assim se multiplicam e são recebidas todos os dias por aquelas que “ousam” ocupar um espaço numa área ainda tão masculina.

“Com quem você transou pra conseguir esse trabalho?”

“Seu marido não liga de você viver cercada de homem?”

“Por que não esquece o futebol e vai lavar uma louça?”

“Já que você não entende de futebol, vai comentar revista de fofoca, que combina mais.”

“Até quando teremos que aguentar feiosas como você na TV?”

Outras vezes, os comentários passam pelo cunho sexual. “Só de ouvir sua voz, eu já fico excitado.”

E nesse aspecto, há também relatos de mulheres que passaram por situações assim até mesmo com chefes no local de trabalho.

“Na redação, ele abriu a porta para me dar passagem e disse: ‘pode ir na frente que eu prefiro ver você indo’”, foi uma das histórias que ouvimos de uma jornalista que atua em redação esportiva.

Os olhares ousados e comentários sobre roupas também são comuns vindos dos superiores. “Um deles viu que minha blusa tinha um zíper nas costas e soltou: ‘esse zíper é providencial, hein?’”

‘Uma blusa mais apertada’

Situações assim ainda são tão aceitas que acontecem até mesmo ao vivo, em rede nacional, sem pudores. Alguns anos atrás, o famoso ex-jogador Neto usava seu tom de irreverência para constranger uma repórter no ar.

Ela estava em um treino pronta para passar as informações sobre o clube que cobria, mas o apresentador passou alguns longos minutos falando sobre sua roupa de trabalho.

“Essa camisa está muito larga. Ô produção, arruma uma camisa mais justinha para ela. Você é ótima, mas precisa usar uma roupinha mais justa”, dizia Neto para o país todo ouvir, enquanto a repórter, constrangida, esperava para poder fazer seu trabalho.

Toques, insinuações e mais constrangimento

Há casos em que os homens aproveitam do prestígio que têm no meio esportivo e acabam indo além dos comentários assediosos.

“Estava fazendo um estágio numa rádio, e um narrador esportivo famoso tinha abordagens extremamente abusivas comigo. Chegou a me chamar pro estúdio quando estava no ar, pediu para eu sentar do lado dele, acariciou minhas mãos, meu cabelo e me lançava um olhar extremamente constrangedor. Eu fiquei petrificada, não sabia como agir, como sair daquela situação sem colocar meu emprego – e até a carreira – em risco”.

Há também relatos sobre dirigentes de clubes.

“Dentre muitas histórias que vivemos diariamente como mulheres no jornalismo esportivo, tem uma que eu destaco, por ter provocado um desconforto muito grande – e um grande medo de que fosse comprometer meu futuro como repórter em algumas situações.

Em uma viagem internacional de cobertura de Libertadores pelo veículo em que trabalho, passamos por uma situação extremamente comum nas andanças sul-americanas: existe uma propina a ser paga em muitos estádios, cobradas totalmente à parte, para que os “administradores” dos estádios forneçam as cabines e as condições de transmissão para a partida. Nessa ocasião, houve algum desentendimento de acordo entre um dos “responsáveis” pelas cabines e o operador da nossa rádio.

Para não nos prejudicar em futuras viagens e transmissões no local, a pessoa pediu, em troca de sua boa vontade, uma camiseta do time brasileiro que lá jogava. Diante da situação, e para evitar futuros problemas, engoli o orgulho e até a “ética” de não pedir camisas pros times que cobria, e solicitei ao assessor daquela equipe uma camisa, caso ele pudesse me ajudar, explicando a história.

Ele conseguiu resolver o problema, me deu uma camisa, que foi entregue ao chantagista local e pensei que tudo seguiria em paz. No entanto, quando fui agradecer ao assessor pela boa vontade, o vi apontar para um diretor do tal time, que eu já havia entrevistado em algumas ocasiões. “Não agradeça a mim, agradeça a ele. Ele que te arrumou a camisa”. Ao longe, o diretor me acenou, lançando um olhar que poderia muito bem ser interpretado como “eu te ajudei, agora aguardo algo em troca”.

As palavras não foram ditas, mas os gestos e olhares velaram as frases que ficaram subentendidas, nas entrelinhas. Eu, que sempre mantive a maior distância possível  das fontes, quase que em um desespero de não ser mal interpretada, me senti acuada e colocada numa situação que nunca havia esperado. Felizmente o caso não teve nenhum desdobramento, mas eu sempre tive medo que recebesse uma abordagem inapropriada.”

E situações de constrangimento provocadas pelos próprios entrevistados.

“Uma vez, após uma entrevista, o entrevistado veio agradecer pelo whatsapp. Ele disse que tinha sido um grande prazer ser entrevistado por uma mulher tão bonita. Agradeci e dei boa noite, meio pra encerrar. Ele mandou: ‘Você já jantou? Se não, posso passar na sua casa e a gente sai pra comer alguma coisa…’”.

Em outro caso, nem a presença de mais pessoas intimidou a ousadia dele.

“Há alguns anos, um famoso ex-jogador e técnico brasileiro me assediou. Estávamos numa mesa com outras três pessoas para uma entrevista e ele começou a tentar passar o pé nas minhas pernas. Tomei um susto e demorei a entender o que estava acontecendo e não podia simplesmente levantar. Me afastei ao máximo da mesa pra ele não alcançar, mas foi constrangedor. Mais tarde, recebi uma mensagem dele no meu celular (que eu nunca tinha dado o número pra ele) perguntando se eu trabalharia no jogo do time dele no fim de semana. Respondi que não e ele me perguntou se eu gostaria de falar com ele. Disse que não, pois não precisava de nenhuma informação mais para a entrevista ou para o meu trabalho. Foi quando ele disse que não queria falar com a minha versão jornalista e sim com a mulher. Respondi novamente que não estava interessada em falar com ele, ele insistiu mais uma vez e eu não respondi mais. Ele deixou o time logo depois e demorei muito tempo até precisar encontrá-lo novamente, ainda bem, e evitei qualquer tipo de contato.”

Os gritos durante o trabalho

Quem trabalha no campo, sente na pele o assédio intensificado vindo da arquibancada. Seja na arbitragem ou na reportagem, torcedores não poupam as mulheres dos gritos constrangedores – que muitos ainda veem como elogio.

“Gostosa, te chuparia todinha. Vamos pro motel depois do jogo”.

“Você é uma delícia, casa comigo agora.”

“Vou bater uma hoje pensando em você”.

São gritos que se repetem, que são aceitos como “normais”, considerados por eles como “elogio” – mesmo que os alvos deles, as mulheres, não tenham a mesma opinião. São gritos abusivos em uma situação de trabalho pela qual ninguém gostaria de passar. A bandeirinha tenta se concentrar no jogo enquanto uma multidão atrás dela faz observações sexuais sobre seu corpo. A repórter tenta focar no que está acontecendo em campo, enquanto faz de tudo para ignorar os comentários assediosos ao seu redor.

“Torcedor te xinga de vadia, puta, vagabunda, que você tem que ser estuprada – coisas desse nível acontecem sempre, toda semana, em todos os estádios. . Aconteceu comigo, um torcedor disse que ‘essa nem merece ser estuprada, porque deve ser lésbica’. Outro caso emblemático foi quando estava eu e uma menina só no campo, as únicas mulheres, e os caras da torcida grudaram na grade, começaram a me xingar de puta, vagabunda, um chegou a colocar o órgão sexual para fora“.

Qualquer reação pode gerar uma situação de violência, pode arruinar uma carreira. O silêncio acabou sendo nossa única resposta possível.

Ronaldinho assediou repórter ao vivo e a pediu em namoro

Nós também

Todas nós mulheres temos um caso de assédio para contar – infelizmente. Seja no trabalho, na rua, na quadra, em qualquer lugar por onde passamos. A vida toda, nós aprendemos a ignorar essas situações, a conviver com elas como se fosse normal, como se fosse “assim mesmo” e não houvesse o que fazer a respeito delas.

Mas há. Precisamos acreditar que há. Falar sobre isso é o começo – precisamos expor os assédios nossos de cada dia para dar um basta neles. Em Hollywood, Harvey Weinstein está sofrendo algumas consequências pelo que fez e outros casos estão surgindo. Kevin Spacey, protagonista de uma das principais séries da Netflix, foi demitido após as denúncias de assédios e abusos contra meninos e homens que trabalhavam com ele virem à tona.

E o mais importante de tudo: todas essas situações mostram às mulheres que elas não estão sozinhas e que não precisam mais aguentar caladas todos esses abusos.

Juntas somos mais fortes.

(Se você, mulher, já sofreu uma situação de assédio ou abuso no esporte e quiser compartilhar conosco, mande seu relato para dibradoras@gmail.com).

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