Futebol Feminino

Mergulhando no futebol feminino raiz no sertão da Bahia

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Crédito: Rafaela Vieira / Prefeitura de João Dourado

*Por Juliana Barachisio Lisboa

Em meados de abril recebi uma mensagem de João da Hora, uma fonte preciosa nesse mundo do futebol feminino da Bahia, me convocando para cobrir a segunda edição de uma copa regional que ele estava organizando. O torneio seria em João Dourado, cidade a 400 km de Salvador, onde moro, de 15 a 18 de junho. Bem no feriado de Corpus Christi, quando eu folgava.

Como nunca consegui participar dos eventos esportivos dele e me interesso bastante pela modalidade, resolvi aceitar o convite e enfrentar as oito horas de ônibus que me separavam do pequeno município do sertão baiano.

Viajei em boa companhia: ao meu lado estavam Mario Augusto Filgueiras, coordenador e treinador do São Francisco, time multicampeão baiano e único representante do estado na Série A1 do Campeonato Brasileiro, e Solange Bastos, ex-zagueira da Seleção Brasileira e treinadora do Flamengo de Feira, time que a revelou.

Agora agradeço que os dois são duas matracas e não me deixaram dormir na viagem, porque as histórias que eles contaram foram incríveis. Desde fofocas de bastidores com jogadoras e treinadores aos perrengues em competições, naquele ônibus eu tive uma ideia de como seriam meus próximos dias: um mergulho no futebol feminino com Mario e Solange como meus instrutores.

Fiquei sabendo que João Dourado, também conhecida como a terra da cebola, também é a terra do futsal. Aliás, a região norte da Bahia é muito apaixonada pela modalidade, que tem várias competições masculinas e femininas ao longo do ano. Futebol, nem tanto. Precisa de estádio bom, com grama, times completos, estrutura… Se no masculino já é difícil, organizar uma copa de mulheres foi uma ousadia.

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Solange, ex-zagueira da seleção brasileira (Crédito: Rafaela Vieira / Prefeitura de João Dourado)

Mas dez equipes confirmaram participação, nove delas da Bahia e uma de fora – o Gama, do Distrito Federal. Logo que chegamos, fomos direto ao estádio municipal prestigiar os últimos jogos da primeira fase, e encontramos a arquibancada praticamente toda formada por atletas dos outros times. Não imaginava passar frio no sertão baiano, mas foi tanto vento e tanta chuva fina que acabei sentindo uma pontada de inveja das meninas em campo, correndo, transpirando.

Aliás, falando das meninas: nem todas eram meninas. Muitas eram mulheres mais velhas, algumas que eu inclusive reconhecia de passagens nos Campeonatos Baianos da vida. Outras, eu nunca tinha visto, e muitas bem novas, adolescentes e com cara de criança, davam pinta de uma geração que cresceu com a boneca escanteada.

João me explicou que decidiu organizar uma copa aberta, para facilitar a montagem das equipes. Isso permitiu que alguns times se reforçassem com atletas de clubes consagrados, o que gerou um burburinho entre os participantes.

Houve também alguns problemas de origem política: como a grande patrocinadora desses eventos e das equipes são as prefeituras, os times basicamente dependem delas para viajar. Por isso duas equipes acabaram cancelando a participação em cima da hora – o ônibus que levaria as jogadoras e a comissão acabou sendo cedido para time de base masculino jogar um campeonato de várzea.

Em João Dourado, as jogadoras ficaram alojadas na escola municipal, onde dormiam e faziam as refeições – uma equipe preparava o almoço e a geladeira e a despensa ficavam à disposição para o café da manhã e o jantar.

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Foto: Juliana Lisboa

As salas de aula foram transformadas em verdadeiros acampamentos, onde colchonetes e mochilas se amontoavam num caos organizado: cada equipe ficava alojada em uma sala, ou duas, a depender do número de jogadoras. Nos corredores, provocações e brincadeiras, riso e conversas. O ambiente, apesar de cheio, era leve.

Enquanto Mario e Solange tomavam notas das meninas mais promissoras que poderiam reforçar as equipes no Campeonato Baiano, que deve começar no final de julho, eu tentava registrar ao máximo essa experiência. Desde o quarto que precisei dividir com Solange porque a única pousada da cidade estava lotada – o que acabei adorando, porque só assim para eu ficar sabendo que Sissi tinha neura com organização e levava horas tomando banho (!) – até o telefone que não tinha sinal e me deixou praticamente incomunicável com minha família. Eu estava realmente ilhada.

Precisei voltar antes do fim da Copa e não me perdoo por não ter visto Solange em campo defendendo o time de João Dourado. Foi a forma que João encontrou para homenageá-la, e acho que foi a melhor possível. Não vi a final disputadíssima entre Lusaca e João Dourado (o time da cidade acabou ganhando por 3 a 1), não vi a premiação e nem Mario anunciar Leilane Jesus, Bruna de Freitas, Geane de Aragão, Enilma de Souza, Dislane Santana, Brisa Oliveira, Gabriela Souza e Lorrane Coperque como as oito meninas selecionadas para participar do Baianão.

Mas voltei para casa com uma plaquinha que vale mais do que qualquer Prêmio Esso, uma plaquinha de reconhecimento da minha contribuição ao futebol feminino do meu estado. Eu, que nunca treinei time nenhum, nunca joguei pela Seleção nem organizei torneios, fui homenageada por escrever sobre uma das modalidades esportivas mais intrigantes do Brasil. Sei lá, acho meio desproporcional, mas já que me pediram para que eu escrevesse uma matéria sobre essa experiência tão engrandecedora, eu tinha que deixar registrado, né?

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