esporte

Mayra Aguiar trocou as sapatilhas pelo quimono e se tornou maior medalhista do Brasil no Mundial

mayra3

Quem olha para Mayra Aguiar hoje nos tatames conquistando o segundo ouro no Mundial na categoria de 78kg do judô não imagina que aqueles mesmos pés usados para derrubar as adversárias em ippons perfeitos um dia vestiram sapatilhas.

E, na verdade, Mayra começou nos dois ao mesmo tempo. Com seis anos de idade, seus pais queriam que a menina fizesse algum esporte e aí a colocaram no ballet e no judô. O que decidiria seu destino seria, na verdade, uma característica que até hoje lhe é peculiar: o gosto pela competição.

Foi no judô que Mayra disputou pela primeira vez um torneio – que sequer tinha a categoria dela (seis anos ainda é muito cedo para competir), mas a menina insistiu tanto, que o treinador a colocou para lutar. E dali ela não mais quis sair. Largou as sapatilhas do ballet – e o atletismo, a natação, a ginástica olímpica (todos esportes pelos quais passou rapidamente na infância) – e se dedicou incansavelmente ao tatame.

A escolha parece ter sido a certa. No último fim de semana, Mayra Aguiar conquistou o bicampeonato mundial de judô, a primeira mulher a atingir o feito – que só é igualado por João Derly. Ela se tornou a maior medalhista do país na competição, somando cinco pódios: ouro em 2017, ouro em 2014, prata em 2010, dois bronzes em 2011 e 2013.

Após a conquista, ela resumiu em uma frase o que a levou até ali em 20 anos de judô: “O principal foi manter a cabeça sob controle e ficar focada sempre.”

mayra_mini
Mayra pequenininha com o quimono

O foco de Mayra e a determinação para não se contentar com nada menos que a vitória sempre foram características gritantes nela. Uma vez, fui entrevistá-la após uma derrota – ela perdeu a final do Pan-Americano de 2015 para sua maior rival, a americana Kayla Harrison, e estava exalando raiva. Manteve a simpatia para atender a imprensa, mas dava pra ver nos seus olhos que não se conformava com a medalha e prata.

“É horrível, eu odeio perder. Eu me sinto mal. Dá vontade de sair daqui e voar no treinamento, começar a treinar logo, porque eu fico agoniada. Mas acontece, é esporte. Vou me fortalecer muito, vou me preparar, me focar. Não to satisfeita, queria o ouro. Mas vou tirar os frutos”, ela disse na época.

E aí veio a Olimpíada do Rio de Janeiro, e Mayra Aguiar só pensava no ouro que poderia conquistar em casa. Só que ela acabou parando na semifinal, derrotada pela francesa Audrey Tcheumeo e teve que ir para a disputa do bronze. A brasileira já carregava a dor de uma derrota na semifinal olímpica de 2012, daquela vez para a rival Kayla, e agora não teria a chance de fazer a revanche com a americana na decisão, porque parou na competição antes do que imaginava.

mayra_kayla
Mayra perdeu para Kayla na final do Pan em 2015

Mas Mayra se recompôs e venceu a cubana Yalennis Castillo atropelando na luta – de novo, era possível ver o quanto ela estava mordida pela derrota na semi e o quanto não deixaria escapar a medalha para coroar seu trabalho naquela Olimpíada em casa.

O esporte pode ser ingrato às vezes, mas ele sempre aparece com novas oportunidades – as “segundas chances”. Para a brasileira, essa chance veio logo um ano após os Jogos do Rio, desta vez em um Mundial, desta vez em Budapeste, na Hungria. Nas quartas-de-final da competição, veio o reencontro com a francesa que a tirou da final olímpica – e, agora, foi Mayra quem saiu vencedora, com um ippon no final.

Dali em diante, vieram duas japonesas fortíssimas para semi e final, mas já não havia mais o que pudesse parar a brasileira. Vitória nas duas lutas e o bicampeonato mundial garantido para uma judoca que já deixou seu nome na história. Mayra é de uma categoria considerada “alta” para as mulheres, onde há bem menos delas se arriscando.

“A categoria de 78kg não tem muita mulher. No Brasil eu também estou puxando bastante as gurias, porque é difícil sair outra para disputar lá fora para ranquear. Então se eu puder trazer resultado legal para elas se inspirarem também, eu vou estar feliz com isso”, disse Mayra, ainda em 2015.

Em Budapeste, ela foi a responsável pela única medalha de ouro conquistada pelo Brasil na competição.

História

Grande inspiração para as pequenas judocas que estão surgindo por aí, Mayra começou a competir na seleção juvenil ainda aos 14 anos, quando decidiu que essa seria sua profissão. Depois de sua primeira Olimpíada, disputada em 2008, tinha só 17 anos e ainda competia na categoria abaixo, até 70kg.

mayra_aguiar
Mayra conseguiu ‘se vingar’ da derrota para a francesa na Olimpíada

Em 2010 começou sua ascensão no esporte, com uma prata no Mundial em Tóquio – a primeira das cinco que tem hoje na coleção. Depois veio o bronze também no Mundial em 2011 e o pódio olímpico em Londres-2012.

Aí no fim de 2013, veio um dos momentos mais difíceis da carreira, quando teve de passar por duas cirurgias – uma no joelho e outra no cotovelo. Foram quatro meses fora dos tatames e seis fora das competições. Mas sua volta não poderia ter sido melhor. Em agosto de 2014, ela se tornou campeã mundial da categoria e mostrou que estava pronta para os próximos desafios.

A troca das sapatilhas pelo quimono, no caso de Mayra, não poderia ter sido  mais certa. Mas também a fez passar por alguns preconceitos por ter escolhido um esporte considerado “de menino”. Ela, porém, nem tomou conhecimento disso.

“Tem isso, mas acho que já ficou no passado. Mulher brasileira é forte, inspira o mundo. Agora é se orgulhar do lugar que a gente conquistou e batalhar cada vez mais. Já ouvi algumas piadinhas, mas isso entra por um lado e sai por outro. O que vem de baixo não te atinge, né?

Não mesmo, Mayra  – no seu caso, nem se for uma tentativa de ippon. Você dá a volta por cima, derruba e sai sorrindo para celebrar mais uma conquista.

mayra2

 

Avanço no judô feminino: É importante aplaudir aqui a iniciativa da Federação Internacional de Judô de criar a categoria por equipes mista nas competições da modalidade. Ela estreou nesse Mundial e foi um sucesso – o Brasil conquistou a prata, perdendo apenas para o Japão. Nessa categoria, disputam três homens e três mulheres (no feminino, as categorias são 57kg, 70kg e +70kg, e no masculino são 73kg, 90kg e +90kg) e isso valoriza o investimento no judô feminino, conforme explicou a judoca Erika Miranda ao Globoesporte.com. “Vai valorizar muito o judô feminino, porque tem muitas equipes fortíssimas no masculino que não tem meninas. De uma forma ou outro, vão surgir meninas para disputarem essa competição na Olimpíada, elevando o judô feminino.” Golaço da Federação de judô, que estreará a categoria na Olimpíada de Tóquio.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *