Futebol Feminino

Manifesto #RespeitoPeloFutebolFeminino

*Por Angélica Souza, Nayara Perone, Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso

“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons”.

Essa frase é de Martin Luther King, ativista político norte-americano e que se tornou um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Ele entrou para a história por sua luta contra o racismo e pela disseminação de amor ao próximo, independente da cor de sua pele.

Nem sempre é fácil vencer lutas, mas para que isso aconteça, antes de tudo é preciso comprá-las. Mudar um cenário desfavorável não é fácil, ainda mais quando se luta contra poderosos de um sistema, mas é sempre melhor buscar melhorias do que acatar decisões que só agradam um lado.

Diante dos últimos acontecimentos, das mudanças e retrocesso no comando da seleção feminina de futebol (você pode se inteirar da situação lendo aqui), assim como fizeram 24 atletas, nós também decidimos escrever essa carta. Afinal, o nosso propósito com o @dibradoras só existe por causa de vocês, atletas.

Essas 24 jogadoras pediram a permanência da comissão técnica de Emily Lima no comando da seleção e não foram ouvidas pela CBF. Como acontece desde que a primeira seleção feminina foi convocada, no final da década de 1980, a Confederação toma decisões sem sequer levar em consideração o que as atletas que vivem (e sofrem com) a modalidade diariamente têm a dizer.

Em 2004, no trabalho que mais foi reverenciado pelas jogadoras que passaram pela seleção, René Simões teve seis meses à frente do time e levou o Brasil a conquistar uma inédita medalha de prata na Olimpíada de 2004. Ele ganhou a confiança de todas as atletas justamente brigando por elas – na época que René assumiu o cargo, a seleção feminina sequer podia usar a academia da Granja Comary, porque ela era destinada somente à “seleção principal” (que, para a CBF, se resumiria à dos homens).

E se queriam resultados, foi o que ele trouxe: a prata quase que impensada à época. Mas logo depois dos Jogos, René fez um relatório com algumas sugestões sobre o que acreditava que precisaria ser feito no futebol feminino do país para que a modalidade chegasse ao tão sonhado ouro. O que aconteceu? Logo em seguida foi demitido, com menos de sete meses de cargo.

Foto: Luz Bittar/ Gazeta Press

A história se repete agora com Emily Lima e não é uma mera coincidência. A primeira mulher a ocupar o posto de técnica da seleção brasileira veio disposta a mudar o cenário do futebol feminino. Fez seletivas regionais, organizou um calendário, buscou amistosos com seleções fortes, deixou toda a programação pronta até 2018 – e olha que, quando ela chegou, no fim de 2016, simplesmente não havia qualquer planejamento nem para 2017. Mas em menos de 10 meses de cargo, Emily acabou demitida por suposta “falta de resultados” – ainda que o aproveitamento dela fosse próximo a 60% (e isso sem nenhuma competição oficial disputada).

Os casos de René e Emily mostram que a história vai sempre se repetir enquanto não houver quem dê um basta nisso. E ninguém pode lutar mais pela modalidade do que as próprias atletas que nela estão. Se elas não “comprarem a briga”, se não tomarem uma atitude agora, ficarão para sempre fadadas às decisões sem sentido da CBF, que nunca se propôs a ouvir suas vozes.

Foto: CHRISTOF STACHE/AFP/Getty Images

Foi toda essa sequência de acontecimentos que gerou algo ainda mais inédito nesta seleção: a atacante Cristiane, uma das melhores do mundo, a maior artilheira da história das Olimpíadas, anunciou que não jogará mais pelo Brasil. A atitude vem em protesto pelos desmandos da CBF no futebol feminino.

“Foi a decisão mais difícil que já tomei até agora. Pensei muito depois de todos esses acontecimentos. Mas não vejo outra alternativa por conta de coisas que eu não tenho mais força para aguentar. Aguentei por 17 anos, mas não dá mais”, afirmou a atacante em vídeo divulgado no Instagram.

“Hoje se encerra meu ciclo na seleção brasileira. Fico triste por saber que não vou jogar minha última Copa América, minha última Olimpíada, a última Copa do Mundo. É muito difícil pra mim porque era meu sonho, colocar uma medalha de ouro no peito, ajudar a modalidade de alguma forma. Eu espero que com esse vídeo talvez ajude. Se eu não pude ajudar tanto assim como atleta, que eu possa ajudar como ex-atleta.”

“Todas as outras comissões que passaram tiveram bastante tempo de trabalho, essa não. Por quê? Porque era mulher? Porque trabalhava demais? Porque brigava por nós? São coisas que a gente não consegue entender.”
Depois dela, a meia Fran e a lateral Rosana (que há 18 anos joga pelo Brasil) também anunciaram que não atuarão mais pela seleção.

A atitude delas é corajosa, é louvável, mas acima de tudo: É NECESSÁRIA. É preciso chamar a atenção para o que está acontecendo com o futebol feminino. Não dá mais para aceitar as migalhas – é preciso querer mais.

Nós pedimos para que as jogadoras se posicionem ainda mais e que vão além: que se unam, exijam respeito e espaço para diálogo. O jogo só existe por causa de vocês, as estrelas maiores do espetáculo que é o futebol, então, vocês merecem serem ouvidas.

Essa não será a primeira e nem a última vez em que será preciso lutar por seus ideais, ainda mais como mulheres. Muitas outras atletas já reivindicaram seus direitos e agora chegou a vez de das jogadoras de futebol, que saíram de suas casas ainda jovens, desacreditadas, sofrendo todo o tipo de preconceito, do machismo ao assédio, que entram mais em campo do que em suas próprias casas em datas especiais: não dá mais para passar batido.

Apelo das jogadoras em 2007, após derrota para a Alemanha na final da Copa do Mundo.

O futebol praticado por mulheres existe há mais de 120 anos e, no Brasil, chegou a ser proibido por lei durante a década de 40 e assim seguiu até os anos 80. Não só o esporte, mas muitos outros direitos nos foram cerceados por décadas e, a cada ano, uma nova luta surge.

Hoje é muito mais fácil se manisfestar. Há liberdade e meios para isso, não é crime. E vocês têm influência e todo o respaldo de quem veste a camisa da seleção brasileira há anos para exigirem que, ao menos, sejam ouvidas.

Após a demissão de Emily Lima, a manifestação popular foi intensa e muitas pessoas se mostraram contrárias à decisão da CBF. A treinadora foi o assunto mais comentado do Twitter e diversos canais da imprensa puderam ouvir suas explicações e pontos de vista. Muita gente não aceitou o retorno de Vadão ao comando da seleção e isso só reforça que os torcedores não enxergam coerência na atitude da CBF ao recontratar o antigo treinador, demitido após dois anos no cargo e nenhum resultado expressivo nas grandes competições que disputou.

Vocês representam milhões de mulheres que praticam e amam o esporte, e as conquistas do futebol feminino brasileiro lhes dão total respaldo para exigir que sejam respeitadas. O dever de vocês vai além de títulos e vitórias nos placares, é obrigação lutarem pela modalidade e deixarem um legado para as futuras gerações. A atitude em busca de mudanças deve partir de vocês, especialmente das jogadoras mais experientes, consagradas e que tem a responsabilidade de pensar no futuro do futebol feminino.

Pedimos aqui para que vocês se pronunciem juntas, publicamente, sobre o descontentamento com a atual situação da seleção que defendem. Algumas atletas já se posicionaram em suas redes sociais, mas é preciso união e coerência nesse momento. Façam suas exigências e organizem uma reunião com o presidente da entidade. Pensem em greve, protestem, não entrem em campo, se for necessário. Sem vocês, jogadoras, não há seleção e a atual situação exige posicionamento firme de todas, sem exceção.

Créditos: Fernanda Coimbra/CBF

Não é possível aceitar que o futebol feminino seja, mais uma vez, vítima de interesses políticos e pessoais dos dirigentes e que, acima de tudo, seja comandado por pessoas sem a menor capacidade para exercer tal função.
A mudança passa por vocês e nós assinamos essa carta pedindo para que a luta comece.

Não importa quanto tempo ela vai durar, mas estejam prontas para viverem dias de dor e de glórias. Entrar em campo e conquistar medalhas sem nenhum respaldo de entidade, imprensa e torcida já doeu demais e deixou marcas. Chegou a hora de bater, já deu de apanhar.

Pelas mulheres nos gramados, nas comissões, na arquibancada: basta de silêncio. Esse é o momento de levantar a voz e o mais importante troféu de suas vidas: o direito de serem ouvidas e respeitadas. Virem esse jogo urgentemente, não dá mais pra prorrogar essa decisão.

3 Comments

  1. Triste com tudo isso que vem acontecendo na seleção brasileira feminina! Não seria melhor uma ata com o máximo de assinatura para solicitar a volta da treinadora e das jogadoras a seleção?

  2. O grande culpado é o presidente da CBF Marco Polo Del Nero, que juntamente com José Maria Marin, preso nos EUA por corrupção, que está levando o futebol feminino no Brasil a essa crise.
    Marco Polo Del Nero tem medo de viajar para fora do Brasil pois vai ser preso pela Interpol pela acusação de corrupção na FIFA juntamente com José Maria Marin.
    Enquanto estiver na presidencia da CBF, nada vai mudar, porisso temos que tirá-lo da CBF e com uma nova proposta e estrutura de investimentos no futebol feminino para voltar a ser competitiva.
    Os presidentes das federações estaduais de futebol tem sua parcela na culpabilidade por ainda apoiarem Marco Polo Del Nero.

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