Futebol Feminino

Lute como uma menina: As lições da primeira mulher brasileira campeã do UFC

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Todo mundo já ouviu ou já usou alguma vez expressões do tipo “esse aí joga que nem menina”. Ou “parece uma menina chutando”. Ou ainda “ele chora como uma menina”. Comentários desse tipo nunca vêm quando uma pessoa está fazendo uma coisa muito bem. Muito pelo contrário: fazer algo “como uma menina” significa ser muito ruim nisso.

Mas os tempos estão mudando – e o significado dessa expressão também. E me arrisco a dizer que, muito em breve, a expressão original perderá o sentido. O feito de Amanda Nunes no octógono no último fim de semana – a primeira mulher brasileira campeã do UFC – é a prova disso. Depois do mata-leão que ela deu para finalizar a americana Miesha Tate em 3 minutos, alguém ousaria dizer que “lutar como uma menina” é lutar mal?

O UFC sempre foi considerado território masculino e “proibido” para mulheres. O campeonato das chamadas “artes marciais mistas” – mais conhecidas como MMA, na sigla em inglês – surgiu no início da década de 1990, mas só abriu categorias femininas a partir de 2013. Três anos depois, Amanda Nunes finalizou a favorita Miesha Tate para colocar seu nome na história da competição e da modalidade.

Mas antes de derrubar Tate, a baiana precisou derrubar o preconceito que a acompanhou desde o primeiro dia na academia de jiu-jistu. Aliás, antes disso, já havia se deparado com o machismo ao escolher jogar futebol – e não brincar de boneca, que é o que se esperava de uma menina na infância.

Nascida no interior da Bahia, Amanda, era a única mulher a treinar jiu-jitsu na academia que ela frequentava aos 16 anos. Todos os dias, ela entrava ali para lutar não só contra os adversários, mas contra os olhares, as encaradas, os recados que tentavam passar a todo tempo para ela: “você não pertence a esse lugar”. E seria tão fácil ela ter desistido. Porque, realmente, até parecia que não era para ela mesmo. Se só havia homens ali, por que ela, mulher, insistia em ficar?

Ela foi para Salvador, treinar (e morar) em uma academia maior para ter dedicação total ao esporte, mas adivinhem? Só ela de mulher. De novo. É o tempo todo o mundo dizendo: “isso não é lugar para você”. Mas Amanda resolveu provar que, na verdade, era sim.

Lutando de igual para igual e se mostrando tão forte e ágil quanto os homens que treinavam com ela, Amanda ganhou o apelido de “leoa”. Foi matando “um leão por dia” que buscou seu espaço, venceu campeonatos, foi treinar nos Estados Unidos até galgar sua vaga no UFC e ter a chance de conquistar seu primeiro cinturão.

No discurso de campeã, Amanda não escondeu o orgulho que sentia por representar outra minoria ali: homossexual assumida, a jovem campeã agradeceu o apoio de sua namorada e também lutadora do MMA e resumiu tudo muito bem em uma frase:

“O mais importante é que estou feliz com a minha vida”, disse. “Nina (namorada de Amanda) será a próxima campeã peso-palha do UFC, garanto isso a vocês. Ela é a minha melhor companheira de treinos, sempre está me ajudando e dando o melhor por mim e devo muito a ela. Eu a amo.”

Depois de passar muito tempo sendo a “única” mulher, Amanda passou a ser a primeira. Foi a primeira mulher brasileira a assinar com o UFC, a primeira a vencer no octógono, a primeira a conquistar um cinturão. Mas a certeza agora é de que ela não será mais a única. Foi a primeira – e, sem dúvidas, irá inspirar as muitas que virão por aí. A expressão “lutar como uma menina” nunca mais será a mesma. Obrigada, Amanda!

 

 

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