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Jackie Silva e sua luta ‘contra tudo e todos’ para se tornar primeira medalhista mulher do Brasil

Ela dibrou as adversidades e atingiu o degrau mais alto do pódio. Ela se transformou, ao longo da vida, de menina a atleta, de jogadora a contestadora, da quadra para a praia, do Brasil para o mundo. Jacqueline Louise Cruz Silva, a Jackie do vôlei ou simplesmente Jackie Silva cravou seu nome na história do esporte brasileiro tornando-se a primeira mulher (ao lado de Sandra Pires) a conquistar uma medalha de ouro em uma Olimpíada.

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A participação feminina brasileira nos Jogos Olímpicos tem início em 1932, mas em meio a proibições, o desenvolvimento do esporte para elas foi lento. A Profª Drª Katia Rubio comentou sobre essa evolução das mulheres nos jogos em nosso programa #31 na rádio Central3.

“Enquanto as mulheres não tiveram chance de ter um bom treinador e acesso às modalidades, era impossível mostrar o quão capazes elas eram. Quando isso começa a se transformar, as mulheres ocupam cada vez mais espaço. Ainda há um déficit de performance com relação aos homens e isso se deve a lei que foi imposta no Brasil que proibia as mulheres de praticarem esportes”, afirmou a pesquisadora.

Se nas edições de 1954, 1960 e 1964 só havia uma mulher em cada delegação do Brasil (Mary Dalva dos saltos ornamentais, Vanda dos Santos e Aída dos Santos, saltadoras, respectivamente), em 1996, nos Jogos de Atlanta, as atletas brasileiras começaram a colocar o pezinho no pódio e beliscar medalhas e posições de destaque.Foi aí que Jackie e Sandra brilharam. Brilharam também suas adversárias na final do vôlei de praia – também brasileiras – Mônica e Adriana, que ficaram com a medalha de prata em uma dobradinha emocionante para o esporte feminino do Brasil. Mas antes do pódio, muita coisa aconteceu…

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Jackie já havia disputado duas Olimpíadas jogando como levantadora titular nas quadras (1980 em Moscou e 1984 em Los Angeles), mas após algumas divergências e suspensões por conta de indisciplina, sua carreira tomou outro rumo. A jogadora encabeçou protestos contra a Confederação Brasileira de Vôlei por conta de diferenças salariais e de tratamento entre as duas seleções. “Era aquele negócio: compre um e leve dois”, afirmou a atleta em nosso pocast #33, especial sobre o Dia da Mulher. Na ocasião, a equipe masculina de vôlei recebia parte do patrocínio que a seleção tinha, enquanto a feminina somente vestia a marca. Revoltada e contra essa condição, Jackie vestiu a camisa do patrocinador ao avesso e causou!

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Sem receber salário e sem clube para jogar no Brasil, a jogadora vendeu sua vespa italiana que amava, juntou tudo que pode e foi jogar vôlei em solo italiano, na província de Modena. Lá, também cativou fãs e foi eleita como a melhor jogadora estrangeira da temporada em 1988.

Com a possibilidade de treinar nos Estados Unidos, Jackie se mudou para a praia, território que ela conhecia desde menina, quando jogava um voleizinho de leve com sua família nas areias cariocas. Na Califórnia, ela viveu o auge de sua carreira, onde ganhou 12 dos 16 torneios que participou, além de conseguir os 14 primeiros lugares das competições que disputou no país. Entre 1990 e 1993, foi eleita, pelo canal ESPN, a primeira colocada no ranking americano de vôlei de praia e a terceira melhor do mundo, na modalidade. Ela ganhou o rótulo de Rainha da Praia, pelos fãs norte-americanos.

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Ao lado de sua parceira, Sandra Pires – que largou tudo no Brasil para se aventurar na praia ao lado e a convite de Jacqueline – a dupla começou a treinar e observar o jogo das favoritas americanas, visando uma conquista olímpica em 1996. Sandra é quase 12 anos mais nova que a experiente Jacqueline, mas a liga da dupla deu certo. Entre tantas conquistas, as duas alcançaram a grande marca de 12 primeiros lugares no Circuito Banco do Brasil, feito jamais alcançado por nenhuma dupla.

Mas a maior vitória de suas carreiras foi a conquista do ouro olímpico em Atlanta, em 1996. Jackie falou sobre essa marca história em nosso podcast especial. “Quando veio esse resultado meu e da Sandra, nós não sabíamos que éramos as primeiras (mulheres a conquistar uma medalha olímpica). A conquista era grandiosa para todos porque nós fomos as primeiras, mas essa conquista histórica, na realidade, é parte de tantas histórias, de tantas atletas incríveis que abriram a estrada e vieram lá de baixo, chegando cada vez mais perto e trabalhando no deserto. Eu só comecei a ter ideia (da conquista) depois do livro da Katia Rubio (Atletas Olímpicos Brasileiros), do filme da Laís Bodansky (Mulheres Olímpicas) e a medalha é isso: ela brilha porque ela vem carregada com a história de muitas mulheres maneiras”.

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Em 2001, Jacqueline foi eleita a atleta da década de Vôlei de Praia, pela FIVB (Federação Internacional de Voleibol) e hoje se dedica ao belo projeto “Atletas Inteligentes”, que incentiva o jovem a se manter na escola por meio do vôlei. O projeto rendeu a ela o prêmio de campeão pelo esporte da Unesco, O incentivo ao esporte não para aí, Jackie também é técnica de equipes de alto nível e realiza palestras motivacionais e clínicas de vôlei.

De atleta rebelde e preterida pelos clubes e dirigentes até a consagrada medalhista olímpica muitos anos se passaram. O que Jackie guardou como recordação de sua carreira? Só bons momentos e gargalhadas (ouçam nosso podcast e entenderão). Não há rancor, nem mágoa por aqueles que fecharam as portas para ela.

Eu não tive esse sentimento (de vingança quando ganhou o ouro olímpico). Passaram-se muitas coisas e outras oportunidades ótimas, sabe? E tudo isso, pra mim, foi bom para me levar a outro lugar também muito legal e que se não tivesse rolado, eu ia continuar ali, naquele negócio, do mesmo jeito… Isso me colocou em outro plano que era exatamente o que eu procurava. O vôlei de praia nos Estados Unidos era criado, comandado e dirigido pelos atletas. Então era muito bom, algo com essência e as pessoas eram a alma do negócio. Foi muito bom!

Ouça: Dibradoras #33 Jackie Silva: No especial do Dia da Mulher, a campeã olímpica de Atlanta-96

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