Futebol

Ir ou não ir sozinha ao estádio: eis a questão

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Ir ao estádio para ver um jogo de futebol deveria ser uma escolha simples de “querer ou não querer” ir. Mas para as mulheres essa decisão não é fácil e envolve muito mais do que apenas vontade: são os medos de todos os dias (do assédio, do abuso, da violência) potencializados em um lugar que a sociedade não cansa de dizer: não é para ela.

E é fato que, para as mulheres, também é um pouco mais difícil ter companhia para ir ao estádio. É uma questão lógica: desde cedo, a gente aprende que “futebol é coisa para menino”, então pela falta de incentivo (e pela exclusão), boa parte das meninas não se envolve nesse mundo; consequentemente, haverá um número menor de mulheres ali; e sendo assim, nem sempre você terá amigas próximas que gostem de futebol para ir ao estádio com você; os homens, que também já partem do pressuposto que você não gosta/não está interessada nisso, também não vão te chamar. Resultado? Você passa uma vida toda sem viver a experiência do futebol por completo, sem sentir a vibração da arquibancada e ouvir de perto o grito da torcida.

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E aí você começa a pensar na possibilidade de ir sozinha ao estádio. Não, não, isso não, é perigoso – esse é o primeiro pensamento que te vem à mente. Veio para mim lá em 2010, quando eu tinha 21 anos e, pela primeira vez, pensei em ir sozinha a um jogo. Eu estava cansada de não ir a jogos por falta de companhia. Porque meu irmão morava em outra cidade e raramente podia ir comigo. Porque eu não conhecia outras pessoas que iam. O fato de eu ser mulher, mais uma vez, me isolou do mundo. E eu me vi sozinha, “impedida” de fazer algo que eu queria pela minha condição – de mulher.

Mas teve um dia que eu me cansei disso e resolvi desafiar o medo e as “regras” que sempre me foram impostas e simplesmente ir. Era 8 de setembro de 2010, e o São Paulo receberia o Flamengo no Morumbi em um jogo comemorativo: Rogerio Ceni estava completando 20 anos no clube. Era uma quarta-feira, às 22h. Era para ser apenas uma escolha baseada na minha vontade de querer ou não ir. Mas foi baseada nos meus medos e nos meus cuidados para enfrentá-los.

Eu não estava trabalhando esse dia e me lembro de ter passado a tarde toda pensando: vou ou não vou? Será que é perigoso demais para mim? O que pode acontecer comigo se eu for? Eu vou me arrepender depois?

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Mas acima de tudo, o que passou pela minha cabeça naquela tarde foi: até quando eu vou me privar do que eu quero fazer para me adequar àquele que “o mundo” acha ser o meu lugar – dentro de casa, com medo? Até quando vou abrir mão da minha vontade, da minha paixão pelo meu time, para fazer o que a sociedade espera que eu faça – “o estádio não é lugar para você”. E a partir desse dia, eu resolvi que não seria mais assim.

Decidi ir para o jogo sozinha mesmo, de transporte público – que era a única maneira que eu tinha para ir. Procurei o trajeto no Google, anotei todos os detalhes em um papel, decorei as coordenadas, vesti uma calça (short nem pensar nessa situação), peguei minha camisa do São Paulo e fui – empolgada, mas ainda receosa sobre o que iria encontrar.

Quando você está com uma camisa de time na rua, vira e mexe isso gera uma interação com quem está perto. Mas quando você é mulher e está com uma camisa de time na rua, a interação é normalmente com o seu corpo. O “vamo Tricolor” vira um “aí sim hein Tricolor, que delícia” e daí para baixo. Não foi diferente comigo no caminho para o ônibus e do ônibus para o estádio, mas eu fiz o que nos ensinaram a fazer desde pequenas quando isso acontece – abaixei a cabeça, ignorei. Segui. (Quando estamos andando sozinhas à noite, é melhor não desafiar a lógica da violência a qual sempre estamos submetidas, infelizmente. Uma amiga costuma citar uma enquete sobre isso: quando você está andando na rua à noite, sozinha e ouve passos atrás, quem você prefere que seja. ( ) um homem (x) o capeta. Dureza.) 

Ao entrar no Morumbi, deixei por alguns segundos o medo de lado e me permiti sentir a liberdade daquele momento. O coração pulsava no ritmo da arquibancada, eu olhava para a imensidão do estádio e me sentia junto – não mais isolada, como estava em casa. Ali eu era parte daquela multidão, daquela torcida, daquele sentimento. 

Durante o jogo, fiz algumas “amizades” por perto – está aí uma das melhores coisas do futebol, a facilidade para conectar desconhecidos. Reclamei dos lances para o cara do lado e sorri para o garotinho que estava atrás de mim e falava a maior quantidade de palavrões por minuto que eu já fui capaz de ouvir. O pai e a mãe estavam do lado e sorriram de volta: “no estádio pode”. Vibramos juntos, num abraço coletivo com os gols, e gritamos o nome de Rogerio Ceni, o M1TO homenageado do dia. 

O São Paulo venceu por 2 a 0 aquele jogo com um público tímido no Morumbi, de não mais de 15 mil pessoas, mas aquela noite mudaria para sempre minha relação com o futebol. A partir dali, eu me tornei uma frequentadora assídua das arquibancadas do Morumbi – e, por incrível que pareça, passei a conhecer mais gente que também ia sempre para “me acompanhar” na empreitada.

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Fe, minha companheira de estádio

No ano seguinte, um amigo do trabalho me falou da namorada, que sempre ia aos jogos, e ela se tornou minha melhor companheira de estádio. Depois, também por meio dela, conheci os Órfãos de Edcarlos, um grupo de são-paulinos no Facebook (que agora de tão grande já pode ter o termo orkutiano “comunidade”) que, entre outras coisas, se reúne sempre na mesma banca do Morumbi antes de entrar nos jogos, e nunca mais “precisei” ir ao estádio sozinha. Quer dizer, eu até chego sozinha, mas é raro não encontrar alguém conhecido por lá. E também passei a ficar mais atenta entre as minhas amigas, a convidá-las para ir a um jogo de vez em quando – nisso, fui a responsável de algumas “primeiras vezes” delas no estádio, que foram realmente as primeiras de muitas (afinal, é difícil não se render à vibração da arquibancada).

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Alguns dos “órfãos de Edcarlos”

Eu queria poder terminar esse texto dizendo para todas as mulheres fazerem o mesmo que eu fiz um dia e enfrentarem os medos para irem ao estádio sozinhas (ou acompanhadas por outras mulheres). Mas voltando ao início, todas sabemos que não é tão simples assim. Escrevo esse texto um dia depois de ter lido o relato de uma mulher abusada no Uber na volta pra casa. Abusos e estupros no táxi, no ônibus, no metro, também não são raros e essa é uma realidade que nos atormenta todos os dias.

Eu sei que não é fácil enfrentar todos esses medos – e que dependendo do lugar do jogo, da situação, às vezes é preciso ceder mesmo. Mas eu convidaria todas a começarem a pensar nessa possibilidade e em formas para não mais se privar de uma vontade para obedecer o que a sociedade espera de você. Seja indo ao estádio sozinha num domingo ensolarado (que é mais seguro do que numa quarta à noite), seja buscando grupos de mulheres no facebook para irem juntas (temos um aqui), seja simplesmente estando ali, ocupando um território futebolístico que o tempo todo dizem não te pertencer.

Lembre-se: no fundo, você nunca está sozinha. Estaremos juntas ~dibrando tudo isso para mostrar que lugar de mulher também é no futebol.

 

One Comment

  1. Belo, triste e encorajador relato. Infelizmente a sociedade ainda é muito machista, e o ambiente que gira no entorno do futebol, ainda mais. Espero que seu relato sirva de reflexão aos homens para observarem seus machismos e que inspire todas as mulheres a se sentirem mais a vontade para acompanhar seus times do coração de perto. Realmente, assistir um jogo no estádio é uma atmosfera única, e todos deveriam poder sentir isso, independente de gênero.

    Boa sorte com o site!

    P.S.: Que surpresa feliz vez o grande Luiz Hygino na foto dos “órfãos do Edcarlos”!

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