esporte, Futebol Feminino

Histórias do futebol feminino: pioneiras da modalidade no Brasil ainda buscam reconhecimento em casa

* Esse texto é uma continuação de “Movidas por um sonho: como as mulheres do Araguari enfrentaram a proibição do futebol feminino”

Entre 1958 e 1959, Ney Montes foi o responsável pela existência da equipe feminina do Araguari. Após o fim do time, decretado pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), os quase quarenta anos de silêncio sobre sua existência foram interrompidos pelo ex-técnico e dirigente em algumas conversas com a filha, Teresa Cristina Cunha. Coube à jornalista e historiadora a tarefa de zelar pelo legado do time que nasceu muito à frente de seu próprio tempo.

O primeiro desafio de Teresa só foi cumprido alguns anos após a morte do pai: promover um encontro entre as ex-jogadoras do Araguari. A reunião foi registrada pelas câmeras do Esporte Espetacular e abriu muitas portas para a divulgação da história.

“Quando colocamos a matéria no ar no youtube muita gente entrou em contato conosco”, conta. “Com a internet tudo ficou muito mais fácil. Outras meninas que participaram (da equipe) foram aparecendo. Depois disso elas receberam homenagem da Câmara Municipal de Araguari. Começaram a ser reconhecidas e ao mesmo tempo começaram a criar polêmicas com outras histórias.”

13332975_10208444257297038_5954595549973344000_n

“É claro que houve outros times, mas não com a mesma característica do Araguari”, explica Teresa. De acordo com a jornalista, o fato de a equipe ter sido montada nos moldes do futebol profissional, com treinos regulares – como ocorria no masculino – diferencia o time de outros que surgiram no período de proibição de futebol feminino, pois outros grupos teriam sido formados para espetáculos e shows, sem as atenções voltadas para o esporte.

Uma das homenagens mais marcantes ocorreu no Rio de Janeiro, pouco antes da Copa do Mundo de 2014. O Palácio do Catete recebeu a exposição “Mulheres driblando o preconceito”, que expôs as memórias do time de Araguari entre tantas outras da modalidade. Apenas Teresa e três ex-jogadoras, Darcy, Isleina e Zalfa, compareceram, graças ao suporte financeiro dos filhos. Em contrapartida, sem o mesmo apoio, outras integrantes não tiveram condições financeiras de arcar com uma viagem. “Depois de tantos anos, no mesmo lugar onde foram proibidas de jogar bola elas também foram reconhecidas. Foi muito especial”, lembra Teresa.

“A Isleina estava com as pernas ruins. Tivemos de arrastá-la para participar de tudo. Outra delas, a Darcy, não andava de avião há muitos anos e foi rezando o terço praticamente a viagem inteira. Sem brincadeira, acho que desde a época do Araguari ela não andava de avião. De 1959 para 2014 muda muita coisa, né?”

O evento no Rio de Janeiro foi cheio de encontros para as meninas do Araguari. Elas foram apresentadas às ex-atletas do Radar, que também fizeram história no futebol feminino duas décadas mais tarde, e conheceram a estrela Marta: “Amaram a Marta. Acompanharam a história dela desde o começo”. Da camisa 10 da Seleção, ficou a melhor das impressões: “Quando ela (Marta) ficou sabendo que as meninas estavam lá, fez questão de ir conhecê-las.”

16923998_10210757111996960_2108822599_n

No mesmo ano, o festival CINEfoot, realizado em Belo Horizonte, prestou homenagem ao histórico time feminino do Araguari. Na ocasião, Teresa, sem a companhia das pioneiras, ficou encantada com o envolvimento da capital mineira com o futebol. “Se falar em Atlético-MG e Cruzeiro, então, nossa”, brinca.

A história das meninas também integra a coletânea “Mulheres na área”, organizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e lançada em 2016. Teresa Cristina Cunha foi uma das convidadas a escrever sobre a relação entre a mulher e o futebol, ainda em 2011. “Eles me aceitaram para publicar junto com eles, mestres e professores na área de esportes, educação física, sociologia. Tivemos essa oportunidade de finalmente configurar a história em formato acadêmico para servir para pesquisas.”

Apesar das homenagens, mesmo em casa as ex-jogadoras do Araguari enfrentam um dos maiores obstáculos para o reconhecimento: a ignorância. “Mesmo com toda essa divulgação ainda tem gente que não sabe (da história). Teria que se fazer um trabalho nas escolas sobre isso”, desabafa.

Teresa reconhece que, ao longo dos anos, os incentivos para a prática do futebol têm crescido na cidade e vem abrangendo mulheres de diversas faixas etárias, embora a atenção se volte para o futsal em sobreposição ao futebol de campo. “Hoje tem a Liga Futebol Feminino do Cerrado, que abrange alguns times da região (do triângulo mineiro) e também de Goiás”, diz a filha de Ney Montes, que se encarregou de divulgar os resultados das partidas em sua página pessoal.

O caminho para a igualdade, na visão da jornalista, ainda é longo. “Vejo que falta incentivo por falta das prefeituras e mesmo da iniciativa privada porque vontade e pessoas com talento têm de sobra. Existe muita possibilidade de ampliar. Se até 2019 a exigência (da Conmebol e da CBF, de que as equipes que quiserem participar da Libertadores devem ter times femininos) permanecer, acho que será um efeito em cadeia. Isso vai atingir também as prefeituras e escolas, lugares onde as crianças podem treinar”, conclui.

**O futebol feminino recebeu a triste notícia do falecimento, no dia (22/03), de Neli Ribeiro de Barros, aos 75 anos, em Goiânia (GO). Após o fim da equipe do Araguari, Neli casou-se e mudou-se para Goiânia, onde atuou na área da Educação como servidora pública. Deixou a filha Cleyser e os netos Alexandre e Victor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *