Futebol Feminino

Futebol feminino: por que se importar?

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Peneira do São Paulo em 2015 – Foto: Ana Carolina Silva
 *Por Juliana Arreguy, ~dibradora e colunista de Futebol Feminino
Minha relação com o futebol vem de berço. Filha de jornalista esportivo, sempre tive o futebol como presença constante em minha vida. Mesas redondas, ida ao estádio, uniforme completo na gaveta, VT do estadual, hinos de times decorados, álbum de figurinhas, vinheta de rádio na cabeça ao longo da semana. Para mim, tudo o que fosse relativo ao esporte estava ali à mão, sem precisar fazer muito esforço.

Exceto quando se tratava de futebol feminino.

A minha história com o futebol feminino é engraçada. Era 2004 e eu, adolescente, li uma matéria interessante sobre mulheres que jogavam futebol. Naquele mesmo ano acompanhei a Seleção Feminina em Atenas e me encantei por uma jogadora em particular. Não, não era Marta. Meus olhos brilharam por Formiga.

Dez anos depois, já trabalhando em uma redação, precisei fazer algumas pesquisas para a Copa do Mundo que se realizaria no Brasil e encontrei, por acaso, aquela mesma matéria da Capricho. E qual não foi minha surpresa quando descobri que, na ocasião, o repórter Emiliano Urbim tinha entrevistado ninguém menos que Érika e Tamires, então com 16 anos e atletas do Juventus? Como não me lembrava de uma jogadora do nível da Érika que, quatro anos depois, levaria a prata na Olimpíada de Pequim (e no dia do meu aniversário)?

Voltei no tempo enquanto lia aquele texto e pensei em como o país havia parado para o Mundial masculino. Recordei a frustração de não ter com quem conversar na escola sobre aquelas mulheres incríveis que vi jogando pela Seleção. Lembrei-me dos títulos das matérias tratando por “decepção” as duas medalhas de prata. Por que tão duros com uma modalidade que os jornais sequer ligam fora do ciclo olímpico?

Nos dias que se seguiram, aquilo passou a me incomodar muito. Sentia uma necessidade enorme de pesquisar mais sobre o esporte. Coincidentemente, estava à procura de um tema para o meu TCC e lá estava ele, bem na minha frente. Por que não falar de futebol feminino?

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Em casa, de bloquinho na mão, decidi levantar os tópicos que mais me interessavam. Empaquei logo na primeira pergunta: como começar a jogar? O sr. Google me deu poucas opções de pesquisa sobre escolinhas de futebol ou categorias de base para meninas. Sem a menor dúvida de que tinha encontrado meu tema, no dia seguinte fui pedir conselhos ao Celso Unzelte, meu professor na faculdade. “Quero escrever um livro-reportagem sobre formação de atletas no futebol feminino”.

Deixei a sala com um planejamento para o ano seguinte e um orientador para meu trabalho. E ainda tive o acréscimo mais importante de todos, que atende pelo nome de Ana Carolina Silva. Foi minha dupla na jornada e abraçou a causa com tanta paixão quanto eu. Juntas, percorremos gramados esburacados, enfrentamos silêncios oficiais e passamos muitas noites em claro pesquisando e redigindo.

Um de nossos primeiros desafios foi acompanhar a peneira do time feminino do São Paulo, em março de 2015. O técnico Marcelo Frigério também promovia uma seleção para equipes de base, em parceria com o Estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera. Vimos garotas franzinas abraçadas aos pais; veteranas de peneiras batendo bola perto dos vestiários; familiares berrando nomes e instruções das arquibancadas; libélulas sobrevoando o campo quente e abafado; chuteiras de todos os tamanhos pisoteando as flores do gramado.

Marianne, 19, nos chamou a atenção. Enxergava em sua primeira peneira da vida a última chance de se profissionalizar. Tremia e suava frio, mal conseguia conversar. Enfrentou a estrada e os 555km entre Fernandópolis, sua cidade de origem, e São Paulo, atrás de um sonho. Hospedada na casa de um parente em Taboão da Serra, ainda encarou o transporte público da capital na manhã de sábado para chegar ao local.

De tão nervosa, me contou, não tinha tomado café da manhã. “Como assim você não comeu nada?”. Na minha cabeça, o nervosismo, o jejum, a atividade física e o calor não seriam uma combinação boa. Largando todo o distanciamento que alguns jornalistas mantém na profissão, abri a bolsa e entreguei o meu lanche nas mãos da menina. Foi a primeira lição que tirei sobre a base no futebol feminino: não é possível ser indiferente. Mesmo alimentada – e definitivamente mais disposta – Marianne não passou.

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Outra garota, de apenas 16 anos, também sofreu com as consequências daquele dia. Antes jogadora da Portuguesa, foi avisada de que seria chamada para integrar o juvenil tricolor. O projeto nunca saiu do papel, a ligação nunca veio e a Tiger-Lusa não a aceitou de volta.

Entrevistamos muitas pessoas ao longo de um ano. Conversamos com meninas que foram tentar a sorte no futebol norte-americano. Conhecemos jogadoras que passaram por três times diferentes em 2015. Perfilamos Emily Lima, hoje treinadora da seleção brasileira de futebol feminino, a primeira mulher a ocupar o posto. Vimos a criação e o fim da equipe são-paulina em menos de seis meses. Visitamos centros de treinamento, procuramos peneiras regionais e conseguimos até que Marco Aurélio Cunha, diretor de futebol feminino da CBF, nos atendesse.

E pesquisamos muito, muito mesmo, porque achar informações sobre a modalidade é realmente um garimpo. O que não conseguimos, mesmo depois do livro entregue, da banca defendida, do 10 anunciado, foi nos desligar do futebol feminino.

Não ser indiferente, como aprendi lá atrás, me ensinou muita coisa. Uma delas foi um novo olhar sobre o esporte, que me rendeu a inauguração desta coluna. Quem disse que jornalista não pode se envolver?

*Estreamos nesta quinta-feira, 2 de fevereiro, a coluna quinzenal sobre futebol feminino que trará as histórias mais inusitadas da modalidade, entrevistas e curiosidades, além de informações sobre o passado das primeiras mulheres que desafiaram as leis para poderem jogar bola. Acompanhem em www.dibradoras.com.br

4 Comments

  1. Parabéns, Juliana, por mais uma iniciativa de sensibilidade e criatividade. Mostra bem que tipo de profissional você é: séria, profunda, diferenciada. Pretendo acompanhar a coluna e melhorar meus (parcos) conhecimentos sobre o futebol feminino e suas heroínas.

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