Futebol Masculino, machismo

Falta espaço, sobra competência: por que a mídia esportiva ainda ‘ignora’ as mulheres?

cabine

Foi numa segunda-feira de março neste ano, assistindo ao famoso programa “Bem, Amigos!”, do SporTV, que eu notei algo óbvio, mas que por tanto tempo passou “despercebido” por mim – e provavelmente por milhões de pessoas que acompanham programas esportivos todos os dias.

E talvez eu tenha notado justamente porque era 7 de março, véspera de Dia Internacional Da Mulher. O programa contava com a participação de ao menos sete homens e apenas uma mulher, Joanna de Assis. Mas ela quase não falou – ainda que um dos convidados, o nadador Daniel Dias, fosse um velho conhecido da jornalista, que é grande especialista do esporte paralímpico e escreveu o livro “Para-heróis”. A participação de Joanna se limitava a ler perguntas das redes sociais – e ela teve de insistir quando quis ela própria perguntar, porque Galvão disse que “estava acabando o tempo”.

No início, eu já comecei a me questionar: meu Deus, é 2016, mas ainda temos um programa esportivo que tem 7 homens e apenas uma mulher. Todo dia um 7 a 1 diferente, pensei.

Mas aí veio a primeira música do programa, que tinha o cantor Péricles como convidado. E a ela começou – lembrando, na véspera do Dia Internacional da Mulher – assim:

“A pia tá cheia de louça
O banheiro parece que é de botequim
A roupa toda amarrotada
E você nem parece que gosta de mim

A casa tá desarrumada
E nem uma vassoura tu passa no chão
Meus dedos estão se colando
De tanta gordura que tem no fogão

Se eu largar o freio
Você não vai me ver mais
Se eu largar o freio
Vai ver do que sou capaz.”

Para terminar, Galvão Bueno começa a dizer “boa noite”, quando alguém diz para ele que “é Dia Internacional da Mulher amanhã, vamos desejar parabéns a elas”. E ele responde que “não gosta desse dia, porque, pra mim, dia da mulher é todo dia”. Mal sabe Galvão que o programa que ele apresenta já é a prova da necessidade de um Dia Internacional da Mulher – para que ao menos por um dia elas possam ter espaço para falar das desigualdades, essas sim, que vivem em todos os outros.

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A partir daí, eu nunca mais consegui ver programas de esporte (os de debate) sem me incomodar. Porque a maioria – quase, quase todos eles – só é feita por HOMENS. Pensa comigo: Linha de Passe – só homens; Redação SporTV – só homens; Boa Noite Fox – só homens; Bate-Bola – quase sempre só homens; Seleção SporTV – quase sempre só homens. Além do já mencionado Bem, Amigos!

No amistoso entre Brasil e Venezuela, na última terça-feira, no Show do Intervalo da Globo, Galvão Bueno ligou para a mãe de Gabriel Jesus, que havia feito o único gol brasileiro no primeiro tempo. Dona Vera disse que “estava satisfeita com o gol, mas que iria dar uma bronca no filho pela posição de impedimento em outro lance”.

Ao que Arnaldo César Coelho admirou-se. “Ela sabe a regra do impedimento, olha só”. Olha só, né, Arnaldo? Uma mulher que sabe a regra do impedimento, que loucura. Logo em seguida, ele mesmo diz: “mas e aí, está animada para ir para Londres?”. Gabriel Jesus foi vendido para o Manchester City – e o Manchester City, como o próprio nome diz, não fica em Londres, né, Arnaldo? Mas essa regra talvez não esteja tão clara pra você.

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Quando você acompanha as transmissões de futebol, vai perceber que a história se repete. Na TV aberta, nenhuma mulher tem espaço para comentar um jogo na cabine, ao lado de Galvão Bueno, Cléber Machado e companhia. Não há narradorAs (Glenda Kozlowski haverá de quebrar esse tabu!). Em uma das partidas da seleção na Copa América do Centenário, chamaram Luciano Huck (!!) pra comentar, mas a maior TV aberta do Brasil nunca abriu espaço para uma mulher analisar o jogo da cabine.

Há, sim, mulheres como repórteres de campo, ainda que elas sejam extrema minoria, e há também mulheres trabalhando em sites e jornais esportivos – mas o espaço delas ainda é tão restrito que me faz questionar: que ano é hoje?

Início

As primeiras repórteres de campo do Jornalismo Esportivo surgiram na década de 1970, enfrentando preconceito até mesmo dos jogadores, que “se negavam a dar entrevista pra mulher” ou que diziam que o lugar delas era “no fogão”. Foi o que aconteceu com Germana Garilli, a Gegê, premiada pela FPF (Federação Paulista de Futebol) como a primeira mulher repórter de campo do Brasil.

“Lugar de mulher não é no campo, não falo com repórter mulher”, ela ouviu de um goleiro quando foi entrevistá-lo ao final do jogo.

Estamos em 2016 e é claro que muita coisa evoluiu, mas será que já não era para estarmos em outro patamar?

Por que não tem nenhuma mulher nos programas de debate sobre futebol? Ou por que, quando tem, é apenas uma – muitas vezes apenas com a função de ler os comentários das redes sociais?

“Se não tem, é porque falta mulheres competentes para isso”, vão dizer. Será? Eu mesma conheço incontáveis mulheres que fazem trabalhos excepcionais no Jornalismo Esportivo. Muitas delas em TVs, inclusive. E se não há mais delas é porque não estão sabendo procurar.

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Há muito tempo, o Jornalismo Esportivo já deixou de ser uma área exclusiva para homens. Há milhões de mulheres apaixonadas por esporte, tantas jornalistas que sonham em trabalhar com isso – mas o espaço dado a elas ainda é muito restrito e, como em tantas profissões (ou até mais que em outras), elas têm sua capacidade questionada a todo momento dentro e fora do ambiente de trabalho.

Ter mulheres na cobertura esportiva é mais do que necessário – é essencial. Porque diversidade faz bem em qualquer área, e mulheres podem trazer uma visão que homens não conseguem ter – especialmente em uma mídia que já tem tantos elementos machistas, como as famosas matérias de musas e afins.

Lembro do Redação SporTV no dia seguinte à apresentação dos novos uniformes do Atlético-MG, que trouxe as mulheres desfilando de biquíni, e o apresentador disse que “não tinha visto problema” no evento – até que as mulheres da redação chegaram revoltadas pedindo para que falassem disso no programa. Essa é a importância de se ter diversidade no Jornalismo Esportivo (e em todo o lugar).

E a minha esperança é que, assim como os desfiles de uniformes do Galo, que sempre tiveram mulheres de biquíni, mas que neste ano geraram revolta, um dia (em breve) os programas esportivos – que também sempre foram assim – gerem a mesma indignação e nos façam perceber que não precisamos mais aceitar essa realidade – nós precisamos, sim, mudá-la.

4 Comments

  1. Incrível a desvalorização do Futebol Feminino Brasileiro, pelo menos lá fora o Futebol feminino é mais visível, não mais do que o masculino, porém mais visível do que no Brasil. Quando isso vai acabar ?… quando nós mulheres vamos ser reconhecidas pelo nosso talento no futebol ?…
    Não sabemos quando, mais cremos e acreditamos que um dia isso vai mudar.
    #LugardeMulherÉaondeElaQuiser ✊👊
    #MaisRespeito #MaisVisibilidade ✊👊#MaisIgualdade ✊👊

  2. Eu sinto que a participação feminina nesse quesito ajudaria, também, a promover o futebol feminino em campo. E não me refiro a mulheres comentando jogos de mulheres, mas sim ao todo, ao fato de que abrir espaço de um lado quebraria barreiras e tabus do outro também. Sem contar o inúmero de comentários machistas de narradores e comentaristas que mesmo eu sendo homem me fazem sentir um constrangimento enorme. Algo que me faz pensar muito nisso e no que foi dito no texto é a própria transmissão do jogo. A maneira como os câmeras “caçam” no público mulheres que exibem um “padrão de beleza” estabelecido forçadamente. Aí o retrato da “boa torcida” é sempre “mulheres bonitas” e famílias hétero acompanhando ao jogo.

  3. Texto excelente, Renata. Não sei se é do seu conhecimento, mas acho que atualmente somente a Esporte Interativo, tem uma mulher como comentarista de jogos, a Clara Albuquerque. Na Band Minas tem a Dimara que também comenta jogos no Rádio, ou pelo menos comentava, e participa do debate no programa Donos da Bola. Ah, a Renata Fan também comentou jogos durante a Copa no Brasil. De resto, não me lembro de nenhuma outra mulher que atualmente tenha sido convocada a tecer comentários durantes os jogos. De fato uma pena! conheço muitas mulheres que substituem facilmente qualquer comentarista da Rede Globo.

  4. Oi, Renata! Tudo bem? Encontrei sua reflexão, após indicação de amigos.

    Escrevi sobre futebol por sete anos, cheguei a estudar Jornalismo, tive projeto próprio, que me abriu algumas portas, e abandonei tudo quando percebi que estaria presa a “essa postura que normalmente esperam que a mulher tenha na área” – sempre fui muito criativa, e as minhas ideias às vezes eram vistas como excessivas. Na época, eu não percebia, mas hoje em dia, me lembro de alguns episódios ocorridos durante alguns trabalhos e penso “Caramba, isso não foi legal e foi machismo, sim!”. Silenciamentos, piadinhas escrotinhas, chegaram a perguntar de qual jogador eu era “mulher” quando cheguei para trabalhar em um estádio, entre várias outras coisas. Inclusive, naquela época eu também reproduzia machismo com outras mulheres, sem sequer saber.

    Hoje, vendo o cenário de fora, apesar de não acompanhar mais os esportes como antes, endosso o seu discurso. Muita coisa continua estagnada. Existem mulheres maravilhosas em várias áreas do esporte que merecem muito respeito e mais oportunidades, e que infelizmente são deixadas de canto nos programas de TV, ou julgadas pela beleza, tendo a capacidade e o profissionalismo subestimados.

    Muito sucesso para as Dibradoras! <3

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