Futebol Feminino

Eva Carneiro x José Mourinho: quem ganha é o machismo

Por: Maiara Beckrich

Eva Carneiro, médica da equipe do Chelsea, foi foco de grande polêmica na semana passada quando foi recriminada  e ofendida pelo técnico português José Mourinho após ter prestado um atendimento em campo (considerado desnecessário por Mourinho) enquanto o time empatava o jogo. Após o ocorrido, o técnico excluiu Carneiro do banco para futuros jogos da equipe.

Mourinho é conhecido por seus posicionamentos machistas. Há menos de um mês, respondendo à crítica feita por Montserrat Seara, esposa do atual técnico do Real Madrid, às condições em que havia deixado a equipe madrilhenha, afirmou que ela deveria se preocupar mais em cuidar da dieta do marido. Completou dizendo que Monteserrat deveria estar ‘um pouco confusa’. Sabe-se que a sociedade sexista em que vivemos gosta de questionar a sanidade das mulheres, chamando-as de histéricas ou ‘confusas’ sempre que lhes convém deslegitimar suas posições.

Pra além do comportamento desprezível de um técnico que demonstra falta de respeito até com seus próprios jogadores (quem dirá com uma mulher), ainda temos que engolir a mídia sensacionalizando a vida particular da médica por meio de afirmações totalmente infundadas.

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Valendo-se unicamente do depoimento de seu ex-namorado, Rupert Patterson-Ward, o tablóide britânico The Sun (conhecido pela sua falta de apreço pela verdade e por qualquer apuração dos fatos) afirma que a médica havia tido relações sexuais com vários atletas da equipe. O ex-namorado ainda classifica Eva como ninfomaníaca, já que segundo ele, ela queria fazer sexo todos os dias (pedido obviamente atendido por ele já que ‘homem não pode negar fogo’).

Mesmo assim, segundo Rupert, ela nunca estava satisfeita e lhe contava de suas aventuras sexuais com os atletas. A vitimização do ex-namorado não tem fim: ainda afirma que ele tinha o desejo de ter uma família com Eva, mas que o gosto excessivo por sexo da parceira havia ‘arruinado a sua vida’.

Tem tanta coisa errada nessa história que fica difícil começar. Em primeiro lugar, pra além do ridículo que é expor uma mulher, sabemos que o mesmo nunca se daria com um homem. Se um médico que prestasse atendimento a atletas mulheres fosse ‘acusado’ de ter tido relações com diversas atletas seria no máximo considerado um garanhão. Em segundo lugar, o relato de um ex como única fonte é a maior prova de que a palavra de um homem dispensado é suficiente para virar manchete e fazer uma notícia na nossa sociedade. A versão de Eva sobre o ocorrido nem foi nem considerada e mesmo que fosse, a palavra do homem certamente teria mais valor.

E finalmente, ainda que fosse verdade e ela tivesse mesmo tido relações sexuais com o time inteiro do Chelsea isso não seria da conta de ninguém. Ela, e todas nós mulheres, temos todo o direito de expressarmos a nossa sexualidade da maneira que nos der na telha, com o único requisito de que seja uma relação consensual.

A mídia em geral e, principalmente, a esportiva precisa de uma alternativa para essa hiper-sexualização da mulher que é ora tratada como musa, outra como puta: sem escapatória para essa dualidade. Nós aqui no ~dibradoras estamos do lado de Eva Carneiro e de todas as outras mulheres que se atrevem a adentrar o machista mundo do futebol. São símbolos de resistência e, apesar do que às vezes possa parecer, não estão sozinhas.

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One Comment

  1. Apesar de concordar completamente com a parte do texto que diz sobre a cobertura sensacionalista e machista do The Sun, tenho de discordar quanto ao Mourinho. Ele sempre rebate críticas com rispidez, não vejo machismo na fala dele.

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