Futebol Feminino

Como a gente escolhe um time?

 

Nina1

Como a gente escolhe o time de futebol do coração? Será que é a gente mesmo quem escolhe? Bom, comigo foi assim e costumo dizer que “eu não nasci são-paulina, eu escolhi ser”. Como de praxe, vestiram uma roupa tricolor em mim quando ainda era bebê. Meu pai foi o autor da ação e talvez a minha mãe, corinthiana, a responsável pelo clique ao lado.

Eu tive que optar entre torcer pelo time da mãe ou do pai – que tinha o irmão como aliado. Achava injusto deixar minha mãe torcendo solitária pelo time que era do bairro em que vivíamos, da rua em que morávamos, São Jorge, Tatuapé, Zona Leste. Ali, ainda pequena, já dava sinais de feminismo (aquele lance de “juntas somos mais fortes”), mas esse sentimento passou batido naquela época, assumo e me desculpo.

Optei pelo São Paulo no dia 13 de outubro de 1991. Na ocasião, em partida válida pelo Campeonato Paulista, o Palmeiras vencia o Corinthians por 2×1. O culpado pela minha escolha tricolor é José Ferreira Neto, que me deixou envergonhada ao cuspir na cara do árbitro José Aparecido de Oliveira. Naquele instante, eu olhei para o meu pai e me declarei são-paulina, e não foi por ver o tricolor jogar ou ganhar algum título. Foi por vergonha da atitude do rival. Justiceira, né?!

Pois bem, vivi – mesmo que muito menina, com 9 e 10 anos – toda aquela fase monstruosa do time do Morumbi. Minha primeira camisa foi a de número 8, com patrocínio da IBF, usada por Toninho Cerezo (pai orgulhoso de Lea T., maravilhosa!) e conheci a casa do meu time mais ou menos nessa mesma época.

Sereias da Vila

Futebol sempre foi vivido intensamente na minha casa. Pela minha mãe que torcia sozinha, baixinho e era fã de Marcelinho Carioca, pelo meu pai, português de nascença e zagueiro da várzea, pelo meu irmão ambidestro, craque do campo e da quadra, e por mim, uma menina que sempre se interessou mais pelas peladas dos meninos na escola do que pelo papos entre as amigas. Joguei futebol na adolescência (de óculos, sem nunca levar uma bolada na cara, acho que foi um milagre) e tinha minhas amigas de infância por perto para dividir a quadra comigo. Éramos poucas.

Escrevi tudo isso pra dizer que na maior parte das vezes, é o futebol masculino que traça nossa paixão por esse esporte. Gostaria de conhecer garotas que escolheram seu time do coração vendo a Sissi jogar pelo São Paulo, por exemplo. Isso não acontece e, se alguma jogadora tiver feito papel importante na escolha do time do coração de uma menina, peço que me avisem com urgência. Isso é raro!

A mulher que ama futebol para pra assistir ao jogo do seu time, do rival, dos rebaixados, dos gringos, seja lá qual for. Paramos pra ver o jogo deles, vestimos camisas com os nomes deles, amamos e odiamos aqueles homens com todas nossas forças. Mas e eles?
Eles não fazem o mesmo pelo jogo delas. Sequer apoiam, acham bom ou conseguem ter o mínimo de empatia para aceitar, numa boa, uma imposição de uma Conmebol da vida para o desenvolvimento da modalidade dentro dos clubes que eles mesmos torcem. Mulher que joga futebol, na visão da maioria deles, ou é macho ou é gostosa. Quase nunca é a craque, nunca a inspiração.

Como são-paulina, acompanhei bem de longe a campanha do meu time pelo Paulistana, em 1997. Lembro das transmissões da TV Bandeirantes, da locução do Luciano do Valle, do Estádio do Ibirapuera abarrotado, de Katia Cilene fazendo gol de tudo que é jeito e do título tricolor. Uma pena não ter vivido isso mais de perto.

dibras_sp femininoEm 2015 tive o prazer de ver o São Paulo retornar com o investimento na modalidade durante alguns poucos meses. Como foi bacana ver mulheres vestindo a camisa tricolor, jogando bem, mesmo sem a garantia de seus salários e da permanência da equipe. Pude conhecer algumas delas e ganhar uma camisa de presente depois da derrota na final do torneio. A camisa GG, três vezes maior do que o tamanho real de quem a vestia, com uma estampa improvisada do patrocinador falava muita coisa: essa camisa nunca foi feita para servir nelas. O time feminino acabou, mas o masculino segue por lá, enfrentando alguns fracassos nos últimos anos, conquistando algumas vitórias e, principalmente sendo presa fácil para os rivais.

O São Paulo se tornou freguês de Corinthians, de Palmeiras e de Santos. Desculpem, não tenho números atualizados de vitórias, derrotas e empates de todos os confrontos da história dos clubes (sim, sou mulher, não tenho obrigação de saber estatísticas e não sou o PVC), e, na real, isso nem me interessa. As derrotas marcam e não é preciso números exatos para especificar cada dor sentida.

Não esqueço os longos recentes anos que passamos sem ganhar do Corinthians, com o Palmeiras (apesar das últimas “coberturas”) a coisa é até mais equilibrada levando em conta a invencibilidade que temos no Morumbi, mas com o Santos, a coisa me incomoda. O time da Baixada passa batido e pouca gente se icomoda com ele, sei disso, mas comigo o papo é outro. Me irrita demais o baile que esses moleques dão na gente, em fase eliminatória do Paulista então, pelo amor da Deusa! Não foi a toa que comemorei feito louca a última vitória do meu São Paulo em cima do time da Vila, com direito a virada, jogando fora de casa. Confesso que quase não dormi!

Dei essa volta toda pra chegar no futebol feminino do Santos, o único time de São Paulo que trata as jogadoras como profissionais: carteira assinada, alojamento só para elas, material esportivo feminino, destaque nos veículos de divulgação do clube, partidas jogadas no estádio oficial, presidente que faz questão de investir e ampliar o projeto pensando em categorias de base e por aí vai… Que história linda tem as Sereias da Vila, quantos títulos (até mesmo Libertadores da América!), que privilegio ter Marta e Cristiane jogando juntas e vestindo o manto alvinegro praiano.

marta-cristiane-no-santos

Como todo projeto de futebol feminino – e também como a luta das mulheres por uma sociedade menos machista – foi preciso resistir. Aos trancos e barrancos, a modalidade se mantém viva dentro do clube e o presidente Modesto Roma Jr. é um dos grandes responsáveis por dar à elas o justo, nada a mais e nem a menos do que eles tem (não vamos citar a faixa salarial, o que está em jogo aqui são as oportunidades).

Fico aqui imaginando: será que, um dia, veremos garotas do litoral escolherem o Santos Futebol Clube como equipe do coração por causa das Sereias? Será que saberão do histórico vitorioso do time, lembrarão de Aline Callandrini, a capitã que se dedica ao clube há tantos anos, serão gratas ao Modesto que bancou a permanência delas no mesmo espaço que só dizem ser dos meninos? As meninas também são da Vila e com o fomento das categorias de base, novas Martas podem surgir bem ali, onde muitos só falam de Diego, Robinho e Neymar.

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Se no masculino o Santos me faz sofrer, no feminino eu só consigo amar. Amo até a sutileza do clube em usar a cor rosa no uniforme delas, sem fazer com que se perca a essência do uniforme oficial, preservando o preto e o branco.

Como fã do futebol feminino e engajada na luta por mais espaço para as mulheres dentro dos gramados, assumo que meu coração bate cheio de admiração por esse clube tão dedicado e honesto com as mulheres. O time feminino do Santos tem tudo aquilo que eu queria encontrar no Morumbi e eu lamento muito por não ter o prazer de torcer pelas tricolores no estádio.

Para as Sereias, deixo a minha torcida que não é de nascença, ou de herança e nem é mais anônima, mas sim uma escolha. Eu escolho torcer por vocês por tudo que representam ao futebol feminino. Pra cima delas!

3 Comments

  1. Excelente! Excelente! Excelente! Eu amei esse texto e desde já estou seguindo seu blog. Sou santista e uma das coisas que me dá muito orgulho é o time feminino do Santos. Adoraria ver um futebol competitivo no estado de São Paulo, no Brasil e no mundo. Mas, infelizmente, ainda estamos longe disso apesar de termos avançado bastante. Quem sabe…

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