Futebol Feminino

Uma simples coletiva mista: o ‘segredo’ do Santos no futebol feminino

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Coletivas de imprensa raramente são interessantes. As de futebol, então, costumam ser sempre a mesma coisa. Tanto o jogador/técnico, quanto os jornalistas seguem seu padrão de perguntas e respostas prontas. “O time precisa dessa vitória?”; “É, veja bem, estamos trabalhando forte, tentando fazer o que o professor mandou pra conquistar os três pontos…”; é blá, blá, blá, tudo segue essa toada sem muito a acrescentar.

Mas a coletiva de imprensa promovida pelo Santos Futebol Clube na última quinta-feira foi bem diferente. E surpreendeu até mesmo os jornalistas que estavam ali. De repente, além do zagueiro David Braz, que já era esperado por eles, apareceram junto duas mulheres. Seriam elas “promoters” de produtos do Santos? Dois belos rostos para chamar a atenção ali? Não – eram as jogadoras do Santos Futebol Clube – feminino.

Foi fácil perceber que a maioria dos jornalistas ali ficou um pouco perdido com aquelas presenças inesperadas. Não sabiam seus nomes, suas histórias. O assessor apresenta: Maurine e Dani, jogadoras do time feminino do Santos, as Sereias da Vila, que foram convocadas para a seleção brasileira.

A primeira pergunta da coletiva mostrou que o pessoal não estava muito preparado para o que estava acontecendo ali. Afinal, infelizmente, o jornalismo esportivo quase não vê futebol feminino e, consequentemente, sabe muito pouco sobre ele. “Como você se sente aí, David, ao lado dessas sereias?”.

Se a imprensa não estava sabendo lidar com a presença das jogadoras ali, David Braz mostrou a desenvoltura e o carisma que lhe são peculiares: “Muito honrado, são excelentes jogadoras, de seleção, que estão aí com 18 jogos de invencibilidade…”

Isso mesmo, 18 jogos de invencibilidade. E uma das explicações para esse sucesso do Santos no futebol feminino está justamente nessa coletiva que muita gente estranhou. O Santos tem dado ao feminino a mesma atenção que dá ao masculino: estrutura, visibilidade, apoio. É claro que os salários delas não se comparam aos deles – nem teria como, já que o time masculino é o que mais rende lucro, o que faz o clube sobreviver, enquanto o feminino ainda é um investimento.

Mas o mais importante é igual – a carteira assinada (um dos únicos times femininos a oferecer o benefício), a estrutura de treinos, o suporte físico da equipe, o local dos jogos (tanto feminino, quanto masculino jogam na Vila Belmiro), a divulgação, veja só! A Santos TV fala do time feminino, entrevista as jogadoras, mostra treinos – até promove coletivas mistas, com jogador e jogadoras, já que ambos fazem parte do mesmo Santos Futebol Clube.

E essa coletiva mostrou aos tantos jornalistas que estavam ali presentes e que mal sabiam o beabá do futebol feminino que as Sereias da Vila existem – e estão, como bem disse David Braz, há 18 jogos sem perder no Brasileiro. Eles ainda aprenderam muitas outras coisas durante a entrevista.

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Evolução

A segunda pergunta direcionada a elas foi: “é a primeira convocação de vocês à seleção? Quais serão esses amistosos? Como vocês se sentem com essa convocação?”. Fico pensando se uma repórter (mulher) chega a uma coletiva de jogador de seleção brasileira e pergunta se é a primeira convocação, quais serão os jogos disputados, etc. Os memes com o “desconhecimento” dela não seriam poucos, imagino.

Elas nem responderam quais eram os amistosos. Maurine, experiente, prata olímpica em 2008, com uma prata e um ouro em Pan-Americanos, disse que já era sua segunda convocação com a treinadora Emily Lima – na vida, ela provavelmente já perdeu as contas de quantas vezes foi convocada. A goleira Dani, novata, falou sobre a expectativa da sua primeira convocação. E, respondendo ao jornalista, os amistosos são contra Espanha, em 10 de junho em Madri, e Islândia, em 13 de junho em em Reykjavik.

A coletiva seguiu descontraída e abriu espaço para as atletas falarem sobre a importância do apoio ao futebol feminino. David Braz contou a história de sua irmã, que sonhava em ser jogadora e desistiu por falta de oportunidades – uma realidade que ainda existe, mas que clubes como o Santos têm ajudado a mudar.

“A minha irmã queria ser jogadora de futebol, ela não conseguiu porque não teve a oportunidade. Ela gosta tanto de esporte, que hoje é professora de educação física. Então é importante que tenha mais oportunidades para que não haja outros casos como a minha irmã, para que outras meninas consigam realizar seus sonhos”, disse ele.

Os jornalistas, então, perguntaram sobre a nova regra da Conmebol, que vai obrigar as equipes masculinas a terem equipes femininas para poderem disputar a Libertadores a partir de 2019. A goleira Dani reforçou que não basta os times grandes do futebol masculino simplesmente darem uma camisa para um time feminino sem efetivamente investirem em uma estrutura para elas.

“Deveria ser obrigado também a não só ter a camisa. É fácil você pegar um clube, vestir a camisa do Flamengo, do Palmeiras, mas você tem que ter um projeto. Aqui no Santos, por exemplo, tem sub-10, sub-11 no masculino, então por que não no feminino? Acho que não tem diferença, o feminino só vai crescer quando tiver desde pequeno”, pontuou ela.

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“Você vê meninos de 12 anos que já jogam muito, já sabem linha de impedimento e tudo. A gente treina depois deles lá no CT e, poxa, essas coisas a gente vai aprender só com 17 ou 18 anos nos clubes femininos. Então acho que essa nova regra pode fazer grande diferença para a modalidade.”

Maurine também comentou sobre a evolução que já viu no futebol feminino desde que começou e se mostrou otimista com o futuro. “Hoje eu tenho 31 anos, já vivenciei bastante coisa no futebol feminino, comecei com 15 anos no profissional e mudou muito de uns tempos pra cá, evoluiu muito. Hoje tem muitos campeonatos para a gente disputar, antes a gente passava muitos meses só treinando, sem jogar. Então hoje a gente tem oportunidade de ter isso no nosso país e cada ano a gente vai melhorando”, afirmou.

“O futebol feminino está tendo pessoas que gostam do futebol feminino envolvidas. A Aline Pellegrino é uma que está na Federação Paulsita, ela tem feito diferença, isso ajuda as meninas mais novas a se sentirem mais incentivadas para jogar. Eu acho que precisa disso, quando eu comecei não tinha isso, não era valorizado. Hoje tem evoluído muito”, disse Dani.

Uma “simples” coletiva

A atitude do Santos ao promover essa coletiva foi muito simples – e muito inteligente também. Provavelmente, se o clube tivesse organizado uma entrevista somente com as jogadoras convocadas, a presença da imprensa seria quase nula, já que a mídia raramente dá espaço para o futebol feminino. Em vez disso, o Santos colocou elas para falarem do lado deles. E não havia como ali os jornalistas ignorarem a presença das mulheres. Ficaria chato só fazer perguntas para David Braz e fingir que não havia mais ninguém ali.

Assim, o clube paulista conseguiu promover tanto seu time masculino, quanto o feminino. Conseguiu, “na marra”, colocar a equipe feminina na mídia, mostrar à imprensa que elas também estão ali – e que estão indo muito bem, obrigada, há 18 jogos sem perder. Conseguiu, mais do que isso, mostrar para as atletas que elas também têm valor – e fazem parte do Santos Futebol Clube tanto quanto eles.

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Divulgação do Santos na TV do clube: elas têm voz por lá também

O “segredo” para o sucesso de uma equipe de futebol feminino não é nada de outro mundo. É fazer direito, como o Santos tem feito há alguns anos. Investindo em uma estrutura legal, oferecendo salários dignos, divulgando a modalidade de verdade. O clube tem até organizado uma categoria de base feminina, para dar continuidade e força ao projeto da equipe principal.

Não é à toa que o Santos está há tanto tempo invicto, já classificado para a segunda fase do Brasileiro em primeiro lugar e pronto para o que vier daqui em diante.

Assista à coleiva aqui.

 

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