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Esse monopólio no vôlei nacional é um pouco preocupante, diz ex-jogadora Leila

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No último domingo, Rio de Janeiro e Osasco fizeram a final da Superliga feminina de vôlei. A competição existe com esse nome e formato desde 1994-1995 – e, há 13 anos, tem as mesmas equipes disputando a decisão.

É praticamente como se a gente tivesse duas certezas na vida: uma é a morte, e a outra é que Rio e Osasco se enfrentarão na final da Superliga. Desde 2005, a disputa pelo principal título do vôlei nacional teve essas duas equipes como finalistas – só no ano passado que essa máxima falhou, com Rio e Praia Clube duelando na decisão.

Não faltou emoção ao jogo de domingo, é verdade, e o título acabou ficando pela quinta vez consecutiva com o Rio de Janeiro, que venceu a partida por 3 sets a 2 no tie-break. Mas uma final que se repete assim, com as mesmas equipes, todo santo ano, desperta um questionamento: por que sempre elas?

Atleta consagrada do vôlei nacional, a ex-atacante Leila hoje trabalha com gestão do esporte, explica o motivo: investimento e planejamento. Mas ela admite também que o “monopólio” que se construiu na modalidade é um pouco preocupante para o esporte.

“Rio e Osasco são duas equipes que sempre tiveram grandes patrocinadores (Unilever no Rio, que agora deixa a equipe para o Sesc assumir, e Nestlé em Osasco), que sempre puderam, mediante essa parceria, se planejar.”

“O que acontece com Osasco e Rio aconteceu com Leites Nestlé e BCN no passado, e isso se deve a patrocinadores fortes, que permitem um planejamento consistente e investimento na base, o que faz com que os times se sustentem no topo”, disse ela às dibradoras, citando o exemplo do lendário Leite Moça, do qual ela própria fez parte na década de 1990.

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Nos últimos anos, até surgiram algumas potências que ameaçaram derrubar o reinado de Rio e Osasco, como o Sesi, que já se desfez no feminino, Praia Clube e o próprio Minas, que também tem tradição no vôlei. Mas entra jogadora, sai jogadora, e nada muda – cariocas e paulistas seguem se renovando e garantindo seu lugar na final da Superliga.

“É claro que a gente fica preocupado com esse monopólio. O interessante seria mais patrocinadores fortes investindo em outras equipes no país para que pudesse existir maior equilíbrio”, pontuou Leila.

Mais equilíbrio equivaleria a mais emoção, mais disputa, o que faz bem para qualquer esporte. No entanto, é importante ressaltar a contribuição que tanto Osasco, quanto Rio, têm dado para o vôlei nacional: nas últimas décadas, os maiores talentos da seleção brasileira passaram por uma dessas duas equipes (ou pelas duas) – Jaqueline, Natália, Fofão, Fernanda Venturini, Thaísa, Fabi, e por aí vai.

“Essas equipes nunca deixaram de construir e formar atletas que hoje servem a seleção. Natalia, por exemplo, a Gabi que está chegando agora na seleção, a Roberta, que é cria do Rio”, mencionou Leila.

“Acho que são duas equipes que dão sua contribuição ao vôlei nacional, então não deixam de cumprir seu papel.”

Desafios

Apesar de ser considerado segundo esporte nacional, o vôlei também apresenta alguns desafios semelhantes aos de outras modalidades. A Superliga, como competição nacional, é bem forte, mas também vê times fechando as portas constantemente. É um problema conhecido do esporte no Brasil: a falta de investimento e de confiança das marcas em projetos duradouros, que trarão resultados a longo prazo.

Esse acaba sendo o grande diferencial de Osasco e Rio, por exemplo. A equipe paulista já mudou de patrocinador algumas vezes, mas sempre teve um nome forte por trás. Já foi o BCN, depois o Finasa, e agora tem se sustentado com o apoio da Nestlé. No caso do Rio, o time tinha até esse ano a Unilver por trás,  mas a marca anunciou em março que não permaneceria mais com a equipe – por ter um nome forte e tradicional no vôlei, o Rio logo conseguiu uma substituta, e contará com o apoio do Sesc a partir de agora.

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O mesmo, infelizmente, não acontece com outros times, que conseguem patrocínio para se sustentar por uma ou duas temporada, depois ficam sem apoio e dispensam os jogadores. Por conta disso, muitas vezes o número de participantes da Superliga varia – dependendo de quantas equipes fecham as portas e quantas são criadas.

“O vôlei tradicionalmente é uma modalidade que sempre trouxe medalhas para o Brasil, tanto no masculino, quanto no feminino. É muito respeitado, hoje os empresários entendem que esporte é business, e o vôlei é um bom produto. Mas são poucos os patrocinadores que estão dispostos a investir no esporte a longo prazo, eles não têm essa cultura aqui no Brasil”, pontuou Leila, que hoje é secretária de esportes do Distrito Fedederal e tem experiência em gestão.

“Rio e Osasco estão aí porque têm patrocinadores fortes, que entendem que esse investimento tem que ser a longo prazo, que tem que ter trabalho na base. Mas muitas equipes entram com estratégia de marketing apenas para divulgar um produto durante um ano e meio e depois abandonam. Isso é uma realidade que eu vivi como atleta e como gestora também em Brasilia”, pontuou.

Leila reforça que o investimento no esporte não traz retorno imediato e que é preciso um planejamento contínuo para que os resultados possam vir. E é justamente isso que não acontece no Brasil.

“O retorno muitas vezes não vem de imediato, tem que investir ano a ano para adquirir um retorno de mídia e credibilidade que o esporte dá quando se investe nele. As pessoas que investem têm que entender que o investimento pode começar pequeno, mas tem que continuar a médio e longo prazo pra se obter resultados de fato significativos com o vôlei.”

Ranqueamento

Uma polêmica que acompanha o vôlei há alguns anos na Superliga é a questão do ranqueamento de atletas. Numa tentativa de equilibrar mais a competição nacional, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) define uma pontuação por atletas do país e estipula uma regra (em comum acordo com os clubes) de pontuação máxima que um clube pode ter.

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Atualmente, uma equipe pode somar 43 pontos contando todas as atletas que tiver no plantel – sendo duas delas no máximo jogadoras de pontuação máxima, as de 7 pontos – que, em geral, são as campeãs olímpicas ou que fazem parte da seleção brasileira.

No entanto, pouquíssimas equipes no cenário nacional da modalidade conseguem pagar o salário das jogadoras de pontuação máxima. O que faz com que muitas delas acabem tento que ir jogar fora do país na temporada, por não conseguirem atuar por um time no Brasil – foi o caso da central Thaísa, por exemplo, da ponteira Fe Garay, entre outras.

As jogadoras chegaram a assinar um abaixo-assinado contra o ranqueamento justamente porque se sentem prejudicadas e queriam ser mais ouvidas pela CBV na hora de decidir isso. Leila concorda com elas.

“Também fui uma atleta que se submeteu ao ranqueamento, faço parte dos primeiros grupos, das primeiras jogadoras de sete pontos. É muito difícil para a atleta. A gente pensa no equilíbrio e acha que esse equilíbrio vai vir de um ranquamento. Só que muitas vezes o sacrifício maior é da atleta, que não é consultada”, observou.

“Acho que o atleta participa muito pouco das decisões. Quando a gente fala de um sistema, o atleta é a estrela desse grande circo, dessa companhia. E ele é muito pouco ouvido nas suas angústias, no dia a dia.”

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