Futebol

“Espero que logo vire ‘normal’ ouvir a voz feminina na narração”: a narradora que quebrou paradigmas em MG

A voz dela é muito estridente. Não dá para ouvir jogo narrado por mulher. Futebol simplesmente não combina com narração feminina. É estranho. É esquisito. Narração é algo tradicionalmente masculino.

Esses foram alguns dos comentários que Isabelly Morais ouviu nos últimos dias após ter se tornado a primeira mulher a narrar um jogo de futebol em uma rádio mineira. E o objetivo dela agora é mudar os tempos desse verbo para que tudo isso fique, de vez, no passado.

“O que eu quero que aconteça daqui para frente é que as pessoas percebam que é possível sim uma mulher narrar futebol. Durante décadas, a gente que acompanha futebol se acostumou com a narração masculina, e essa voz ficou naturalizada pra gente. Nós nunca ouvimos narração de mulher, então causa uma estranheza, porque é diferente”, afirmou Isabelly às dibradoras.

“Tudo que é incomum causa estranheza. Mas o que eu espero a partir de agora é que outras mulheres possam se inserir nesses meios para que a voz feminina na narração comece a se naturalizar, que vire normal.”

Dizer que ouvir uma mulher narrando futebol “é estranho” é extremamente plausível. É estranho mesmo – tão estranho que passamos praticamente as últimas décadas todas sem ouvi-las nesse posto. Desde a década de 1970, quando Zuleide Ranieri Dias comandava narrações de futebol em transmissões 100% feminina na Rede Mulher, tivemos pouquíssimas situações em que mulheres narraram jogos do esporte mais popular do país. Luciana do Valle na década de 1990 foi uma, depois a Copa de 2014 aconteceu uma única narração feminina com Renata Silveira na Rádio Globo e foi só.

Não dá para negar que é estranho, porque não é comum, não estamos acostumados. Mas também não dá mais para aceitar que continue sendo estranho em 2017, em 2018 e nos anos que virão.

Quando Isabelly estava crescendo em Itamarandiba (cidade de 34 mil habitantes, no interior de MG) e pensando na possibilidade de estudar jornalismo, ela nunca cogitou a possibilidade de virar narradora. Mesmo quando passou a procurar estágio no jornalismo esportivo, a jovem jamais pensou que um dia fosse narrar um jogo na rádio. E hoje ela sabe exatamente por que isso nunca lhe passou pela cabeça.

“Eu nunca tinha visto isso como profissão para mim até por falta de referências. Nós, mulheres, não temos muita referência na narração. Então é algo que a gente nem pensa em fazer”, contou Isabelly.

Mas a jovem de 20 anos não hesitou em tentar quando recebeu o convite do chefe da rádio onde começou a fazer estágio há apenas quatro meses.

“Logo na primeira vez que falou comigo, ele me falou: você topa ser narradora? Eu não poderia deixar essa oportunidade passar na minha frente sem tentar tirar algo dela. Era justo que eu tentasse. Continuar é algo que eu vou ver ao longo da carreira”, afirmou.

Ensaios

Desde que soube que narraria um jogo pela Rádio Inconfidência, Isabelly passou a praticar em casa. Ela nunca fez treinamento com qualquer narrador, mas separava lances de jogos para ensaiar a narração – e gravava os ensaios para mostrar ao chefe.

O primeiro conselho dele foi para controlar a velocidade da voz. “Eu sempre falei muito rápido e isso tem vantagens e as desvantagens na narração. Ele falou para eu controlar a velocidade para não sair engolindo palavras e para treinar um ritmo que fosse bom para mim”, contou.

Entre práticas e a estreia, Isabelly não teve muito tempo e, na última terça-feira, quando o microfone abriu e o juiz apitou o início da partida entre América-MG e ABC pela Série B do Campeonato Brasileiro, ela apagou o que estava ao redor e se concentrou apenas no que acontecia dentro de campo.

Equipe do Superesportes acompanhou a narração dela na cabine

“No início, deu um certo nervosismo, mas eu fui me soltando. E aí quando o árbitro apitou, parecia que não tinha ninguém do meu lado, eu não via mais ninguém: era o campo e eu, a bola e eu. Eu tava junto com a bola, estava muito focada no que estava acontecendo em campo. A partir daí, passa a ser o campo, você e seu ouvinte.”

Isabelly teve a chance de narrar dois gols na partida – os dois do time da casa – e revelou que tinha uma grande preocupação na estreia: a de manter o grito de gol por um tempo e com um bom ritmo.

“Eu gostei do grito de gol, consegui estender ele bem, manter um ritmo bom, acho que consegui manter. Mas minha maior dificuldade foi assimilar a instantaneidade do lance. Muitas vezes a gente tem que antecipar o que o cara vai fazer, porque você tem que ir falando enquanto ele está fazendo. E a narração no rádio é difícil, porque o narrador precisa criar uma imagem a partir de um som para o ouvinte. É um grande desafio, mas eu gostei bastante”.

Futuro

Ainda está cedo para Isabelly decidir o que vai querer seguir na carreira do jornalismo esportivo. A jovem começou a trabalhar com isso há apenas quatro meses, já foi repórter, já apresentou programas na rádio e agora começou a atuar também na narração. Mas a experiência, ela diz, foi bastante prazerosa e a repercussão que teve a surpreendeu bastante.

Isabelly começou a trabalhar com jornalismo esportivo neste ano e é apaixonada por esportes – ela sonha em narrar outras modalidades e também futebol feminino

“Eu recebi, sim, alguns comentários negativos nesse sentido, de ‘voz de mulher não combina com narração’. Mas os comentários positivos foram tão mais numerosos, vieram do mundo inteiro”, comentou.

“Nós temos que ter muita coragem pra dar as caras nesse meio machista e fazer o que a gente gosta. Então eu não vou parar por causa de um ou outro comentário. Não serão 140 caracteres – ou 280 agora – que vão me dizer que eu não posso chegar onde eu quero chegar.”

Acima de tudo, Isabelly se anima agora com a possibilidade de poder inspirar outras mulheres a investirem também nessa carriera.

“Eu não tive uma mulher para me inspirar. Por isso, ser narradora nunca foi um sonho. Eu espero ser agora para alguém aquilo que eu não consegui encontrar: uma referência.

Confira a narração dos gols da partida por Isabelly Morais:

One Comment

  1. Ouvi grande parte do jogo e gostei demais da narração dela, bem divertida, informativa e empolgante e dobradinha com a repórter de campo muito afinada! De parabéns a Isabelly e a rádio pública Inconfidência FM pela iniciativa, que se torne comum mulheres narradoras nos esportes!

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