Futebol Feminino

Entrevista exclusiva: ex-capitã da seleção fala sobre a conquista do ouro no Pan de 2003

O ano de 2003 foi importantíssimo para o futebol feminino do Brasil. Derrotas e vitórias levaram a modalidade a um patamar jamais conquistado e pouco imaginado por muitos – inclusive pela próprias atletas: o pódio olímpico!

Ouro no Pan: o primeiro passo
Nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (2003), a seleção feminina de futebol começou muito bem, vencendo as canadenses e as haitianas pelo mesmo placar: 5×0. Com apenas seis times na disputa, o Brasil se classificou direto para a semi-final, enfrentando as argentinas e vencendo por 2×1. Era a primeira vez que o futebol feminino brasileiro participava de um Pan e as jogadoras já chegaram à final para enfrentar as canadenses.

O que poucos se lembram é que a seleção canadense deu muito trabalho para o Brasil na última partida. “Ganhamos bem na primeira fase, mas penamos para vencê-las na final”, relembra a ex-jogadora e capitã daquele time, Juliana Cabral. A final estava marcada para as 19h, mas uma chuva fortíssima alagou o gramado e a partida, ainda no primeiro tempo, foi interrompida e remarcada para o dia seguinte pela manhã.

O jogo foi duríssimo! Vencemos na prorrogação com o ‘golden goal’ da Cris, que ainda era novinha e reserva daquele time. O gol mais importante daquele Pan foi a Cristiane quem fez.

11403196_846916415390865_1557723285299588621_n

Obstáculos no caminho: a dolorosa eliminação na Copa do Mundo
Depois daquela conquista, chegou a Copa do Mundo e o torneio foi disputado nos Estados Unidos. Era a quarta edição do torneio e a seleção, comandada pelo treinador Paulo Gonçalves, vinha de um ótimo resultado alcançado no último Mundial (3º lugar em 1999). Tudo rumava para que as campeãs pan-americanas fizessem uma campanha ainda melhor, mas não foi isso que aconteceu. Na fase classificatória, o Brasil caiu em um grupo bem cascudo, com Coréia do Sul, Noruega e França. Os resultados vieram e as meninas despacharam as coreanas com um 3×0 e as norueguesas com uma baita goleada, por 4×0. No duelo contra a França, um empate em 1×1 foi o suficiente para classificar a equipe brasileira em primeiro lugar do grupo.

No primeiro desafio eliminatório, o inesperado aconteceu. O Brasil perdeu por 2×1 da Suécia e se despediu do torneio nas quartas de final. O time que contava com as craques Marta, Rosana, Daniela, Katia Cilene, Formiga e cia sofreu muito com a derrota e terminou sua jornada nos EUA vendo a Alemanha vencer as americanas e depois a mesma Suécia, na final, conquistando assim o título mundial.

Renovação transformadora: a chegada de Renê Simões e a prata inédita na Olimpíada
Após os altos e baixos de 2003, o ano seguinte trouxe boas novas para a seleção feminina e tudo começou a mudar com a chegada do treinador Renê Simões. O cuidado com as jogadoras foi essencial e importante. Renê abraçou aquele grupo e proporcionou a elas um tratamento que jamais tiveram como, por exemplo, consultas médicas em ginecologistas.

O Renê mudou tudo, tanto no treinamento como no tratamento que nos dava. Faltavam apenas seis meses para começar os Jogos Olímpicos e, em pouco tempo, ele mostrou resultado.

Cuidadas e treinadas, o time partiu para a Grécia, rumo aos Jogos de Atenas. Era a estreia da modalidade em uma Olimpíada, o que tornava ainda mais difícil adivinhar como seria o desempenho da equipe.

No grupo G, o Brasil tinha como adversárias a mediana seleção australiana, os favoritaços Estados Unidos e a Grécia, donas da casa. A seleção venceu a Austrália por 1×0 e, no jogo seguinte, perdeu por 2×0 das americanas, que contavam com a craque Mia Hamm e a decisiva Abby Wambach. No último jogo, o Brasil goleou a Grécia por 7×0 e se classificou para a fase eliminatória dos Jogos Olímpicos.

Nas quartas de final, o Brasil goleou o México por 5×0 e partiu para a semi-final diante da Suécia, as mesmas que haviam eliminado as brasileiras na Copa do Mundo. Dessa vez, o resultado foi outro: com um gol de Pretinha, o Brasil venceu e avançou para a final. As adversárias para o último jogo eram as americanas, melhores do mundo e um grande bicho papão da modalidade.

A partida foi longa e emocionante. As americanas abriram o placar no final do primeiro tempo, mas o Brasil empatou a partida, com Pretinha, faltando menos de 20 minutos para o fim do segundo tempo. O Brasil perdeu inúmeras chances e, com o empate, a partida seguiu para a prorrogação. Cansaço, luta, foco e apreensão tomavam conta das jogadoras. Faltando poucos minutos para o fim do tempo extra, a nossa carrasca Abby Wambach deu a vitória aos Estados Unidos em um gol marcado de cabeça, é claro.

As meninas do Brasil se desmancharam e, aos prantos, não conseguiam aceitar a derrota, afinal, elas enfrentaram a maior potência do futebol mundial de igual para igual. A medalha recebida foi prateada, mas o tamanho da conquista valeu pelo ouro. Nunca havia se chegado tão longe e em tão pouco tempo de trabalho. A aplicação tática em campo, passada por Renê, foi absorvida pela equipe e elas foram coroadas com o segundo lugar no pódio olímpico.

Aquele choro das atletas ainda comove a quem assiste aos lances desse jogo, mas também é possível perceber a admiração, o agradecimento e o valor que aquelas jogadoras deram ao prêmio e ao professor que as conduziu na conquista. Ele foi abraçado, agraciado e jogado para o alto pelas jogadoras brasileiras que, mais uma vez, foram guerreiras demais.

IMG_0603bx

Em declaração recente, a capitã e vice-campeã olímpica, Juliana Cabral, afirmou que a conquista do Pan-Americano e a chegada de Renê Simões foram muito importantes para o grupo e para a modalidade. “A conquista do Pan foi o pontapé para a medalha olímpica e o Renê foi o melhor treinador que a modalidade já teve. Alguns meses depois dos Jogos, o treinador não continuou à frente da seleção, mas fez todo um planejamento para a estruturação total do futebol feminino no país. Ele saiu, mas entregou o projeto pra CBF e isso está lá com eles até hoje”, revelou.

Agora em Toronto, as brasileiras podem, mais uma vez, fazer com que o resultado nos Jogos Pan-Americanos se transforme em um grande impulso e as conduza para mais um ótimo resultado em 2016, quando os Jogos Olímpicos serão disputados em solo verde e amarelo, no Rio de Janeiro.

Créditos fotográficos: Reprodução/Facebook Museu do Futebol, Reprodução/Facebook Juliana Cabral e Roberta Nina/Divulgação.

Sigam no twitter: @dibradoras e @robertanina