Futebol Feminino

‘Enfim, entenderam o público-alvo do futebol’: Não, vocês não entenderam nada

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*Por Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso

Sobre futebol, bundas, machismo e pequenas vitórias.

Não é novidade que o futebol é um esporte machista. Não é à toa que os comentários de “isso não é coisa para mulher” ou “volta para a cozinha, vai lavar louça” ainda sejam tão comuns nesse meio.

O esporte mais popular do planeta é repleto de preconceito e preconceituosos, desde os torcedores, jogadores, diretores  e formadores de opinião que só noticiam esportes praticados por homens e só falam para o seu público masculino.

As mulheres são solenemente ignoradas ou colocadas em xeque quando pisam nesse campo minado. Não há voz para as torcedoras, não há vez para dirigentes e treinadoras, não há interesse em jogos femininos, não há espaço para uma árbitra exercer sua profissão e, é claro, não tem por que uma jornalista mulher passar horas sentada em uma mesa redonda discutindo jogos de futebol o dia todo.

A elas, só resta a cozinha, a ginástica ou seu corpo à mostra. Sim, porque quando os “gênios” do marketing esportivo entram em ação para oferecer algo ao público feminino, é claro que elas precisam ser representadas com pouca (ou quase nenhuma) roupa para valorizar seus atributos físicos. Muitos não enxergam esse tipo de sexismo, mas ele existe. E algumas pequenas vitórias recentes têm mostrado que algo está mudando por aí.

Na última segunda-feira, o Atlético-MG apresentou seu novo uniforme para 2016. Houve um desfile do fardamento no evento para a imprensa e, qual não foi a nossa surpresa, quando apareceram no palco modelos lindas vestindo a nova camisa do Galo e uma calcinha. Como tem acontecido, aliás, nos últimos lançamentos de uniforme do clube. Do jeito que os “cuecas” de plantão gostam.

Não há aqui o que se discutir sobre as modelos. Estavam ali fazendo a função para a qual foram contratadas. Há que se discutir O modelo. Apresentar um uniforme dessa maneira atrairia mulheres para comprá-lo? Atrairia mais homens? Há controvérsias nos dois sentidos.

Mas também há uma certeza: apresentar as novas camisas dessa forma reforça a maneira como o futebol nos enxerga: como mero corpo sensualizado.

E aí veio um jornalista endossar a atitude do Atlético e repetir aquela velha ideia do século passado de que “futebol é coisa de macho”. Bastou um tuíte para que ele recebesse uma enxurrada de críticas.

“Enfim entenderam o público-alvo do futebol”, postou o jornalista, retuitando a foto das modelos desfilando de calcinha e com a camiseta do Galo. Obviamente, muitos o elogiaram e concordaram. Mas os questionamentos não passaram em branco. A cada tuíte crítico que recebia chamando sua opinião de “machista”, ele respondia destilando ainda mais preconceito. “Tá na cara que o público da C&A é mulher e o de futebol é homem”, foi uma das respostas.

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Algumas horas depois, diante das críticas, o jornalista em questão optou por “se explicar”. Em um post nada amistoso no Facebook, ele falou aos “débeis mentais e analfabetos que não sabem a diferença entre o que lê e o que interpreta para fazer mimimi na web”.

A verdade é que esse tipo de  comentário não atinge só as mulheres – atinge muitos homens também que já não concordam com uma visão tão retrógrada de um esporte tão popular.

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Tanto é que já apareceram diversas manifestações de torcedorAS e torcedorES do Galo repudiando o desfile sensualizado de mulheres com o novo uniforme – como essa nota de repúdio das mulheres atleticanas aqui e essa outra da torcida Galo Marx aqui.

No fim, se vocês acham que o público-alvo do futebol se resume aos homens (desde que sejam heterossexuais, claro!), quem está perdendo são vocês mesmos. Porque se enxergassem as mulheres, os gays, as crianças, os idosos, etc como alvo, com certeza teriam muito mais público consumindo seus produtos, como já bem debatemos aqui.

Outro caso recente mostra como as coisas estão mudando. Em um jogo da Série A2 do Campeonato Paulista entre Atlético de Sorocaba e Votuporanguense, o jogador Janílson, do time de Votuporanga, acabou expulso pelo árbitro Rodrigo Gomes Paes Domingues depois de ter feito comentários machistas para a bandeirinha Marcia Bezerra Lopes Caetano.

O lateral já tinha levado o amarelo quando se voltou para a bandeira e disse que “futebol é para homem, não para mulher” e depois a mandou “para cozinha lavar louça” – o juiz viu, deu o segundo amarelo, expulsou o jogador e relatou o fato na súmula.

Nada disso foi por acaso. Os machistas de plantão terão de se conformar. Não há mais espaço para eles nem mesmo no futebol. Eles podem até falar, mas não passarão despercebidos – muito menos incólumes. Acha que futebol é coisa só para homem? Acha que mulher tem mais é que ir para o tanque? (In)felizmente, a partir de agora você terá de guardar esse comentário para você – ou aprender a lidar com as (os) críticas (os) – que não serão poucas (os).

E para os que acham que “o mundo está ficando chato”, ficamos com a resposta do amigo do site Trivela, Felipe Lobo: “O argumento ‘o mundo está ficando chato’ em geral quer dizer: ‘como assim não posso mais ser preconceituoso em paz?’”

Agora, mais do que nunca, não passarão. #VAMOSFAZERUMESCÂNDALO

Nota: Após a publicação da reportagem e repercussão do tema, surgiu ainda uma imagem nas redes sociais mostrando a mensagem que a camiseta produzida pela Dryworld trazia consigo: “Give it to your wife” (Dê a sua esposa) com os símbolos de lavagem embaixo. A empresa acabou se retratando pelo fato e ainda reiterou que “a ideia do desfile das mulheres de biquíni veio do Atlético-MG”.

“A Dryworld repudia isso totalmente, repudia esse tipo de postura machista, tanto que a marca é extremamente voltada para a família. Nossos slogans são “sonhe, desafie”, não têm qualquer conotação machista, discriminação à mulher. Temos coleções inteiras para mulheres. Realmente se tratou de uma brincadeira de alguns funcionários da produção, uma gozação, não era para sair da fábrica. Só que isso foi por engano para o lançamento. Pedimos desculpas”, disse Valquírio Cabral, diretor comercial da Dryworld no Brasil, ao site Superesportes.

À empresa, ao Atlético-MG e a todos os outros machistas que endossam essas atitudes, o recado está dado. Acabou o silêncio.

13 Comments

  1. E se simplesmente quem fez o marketing do evento quis utilizar mulher? Eles serão cerceados de seu direito de livre arbítrio? E se cerceados, não seria uma forma de ditadura? E quanto as mulheres, elas foram coagidas a participar? Ou foram porque tiveram interesse no emprego? Se tiveram interesse, não vale a regra do “meu corpo, minhas regras”? Se valer a regra, não é discurso feminista? E se o discurso é feminista, não seria contraditório acusar de “machista” o evento?

  2. O Machismo só está nos olhos de quem vê, sendo que as proprias garotas que desfilaram que visam seu desfile com total conduta profissional assim como os organizadores, não se sentiram ofendidas.
    Por favor, o nosso futebol ja está em decadência com a chamada ”Era do Futebol Moderno” não tragam isso tbm agr de encontrar machismo no que sempre foi tradição no esporte, já não basta estar tão sem graça como esta hj em dia, se isso agr virar problema será outro 7×1 no nosso futebol Nacional…Com todo o respeito que tenho para com as feministas, mas se vcs realmente amam o futebol, os deixe em Paz.

  3. Sensacional! Exatamente o que pensei quando vi o desfile pela tv. Exatamente o que quis dizer quando disseram que o “feminismo está ficando incoerente” e que “futebol é coisa pra macho”. Quem disse? Também quero comprar a camisa do Galo, tb quero o modelo feminino e não vou comprar o produto pq as moças estavam de bumbum de fora. Erro feio de público-alvo, se esse era o argumento, afinal de contas.

  4. Vergonhosa essa apresentação do Atlético, que inacreditavelmente conseguiu piorar com o posicionamento que tiveram.
    Muito bom o texto!

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