Futebol Feminino

Em seis meses, seleção brasileira ganhou uma mulher no comando e uma cara de time

33706034412_76edc4d349_z

Exatamente um ano atrás, nós escrevíamos esse texto sobre um cenário nada animador para o futebol feminino. Víamos mais uma vez Dunga ser demitido da seleção masculina e constatávamos que, enquanto ele havia tido duas chances no cargo mais importante do futebol brasileiro, outras mulheres mais experientes nunca haviam tido qualquer oportunidade para trabalhar em uma comissão técnica da CBF.

Mas a situação hoje, ainda bem, é muito diferente. As mudanças demoraram um pouco a chegar, é verdade, mas finalmente vieram – e, desde novembro do ano passado, tivemos a primeira mulher na história a assumir uma seleção brasileira de futebol. Emily Lima já fazia por merecer há um tempo essa oportunidade.

Desde então, foram sete jogos sob o comando da treinadorA. Quatro pelo Torneio Internacional de Manaus (onde ela não pode contar com algumas de suas principais jogadoras) e outros três amistosos – sendo os dois últimos fora de casa. Sete jogos, sete vitórias. Algumas por goleada, outras de virada. Mas o que mais ficou claro nesses seis meses históricos de seleção é que o time agora tem cara; tem calma; tem tática.

A começar pela saída de bola. Os tão utilizados chutões da goleira e da zaga para frente, que eram bem mais comuns do que gostaríamos com Vadão como técnico, praticamente desapareceram. Nos primeiros jogos em Manaus, inclusive, muitas vezes a seleção passou até por algumas “frias” por isso, quando a bola sobrou na fogueira para Bárbara, mas nada que os treinamentos não endireitassem.

O que se viu de novembro até aqui foi evolução. E evolução constante. Que ficou comprovada principalmente nesses dois últimos amistosos dessa semana realizados fora de casa.

Contra a Espanha, o Brasil saiu atrás no placar e estava perdendo para um time que usa da mesma estratégia que a sua dentro de campo: joga com a bola no chão, tentando envolver o adversário. No início, entramos mesmo na roda das espanholas e dançamos no ritmo delas.

31438178902_1e810ea179_z

Mas aí veio a chacoalhada de Emily no intervalo e mudanças ofensivas importantes no segundo tempo, com as entradas de Darlene, Debinha e Djenifer posteriormente. O Brasil passou a dominar o jogo, e os gols vieram com naturalidade – primeiro com Darlene em jogadaça de Marta, depois com Rafaelle no cruzamento certeiro de Andressinha.

Chegou a surpreender a tranquilidade que a seleção brasileira teve para trabalhar o jogo, mesmo estando atrás do placar. A equipe brasileira que tantas vezes se deixou abalar quando o placar não era favorável – como aconteceu nas oitavas da Copa do Mundo em 2015 e na disputa pelo bronze na Olimpíada do Rio, por exemplo -, agora teve serenidade para colocar a bola no chão e construir a vitória sem desespero.

Isso contra uma das seleções que mais evoluiu nos últimos anos – a Espanha foi campeã da Copa Algarve neste ano, torneio que contou com as fortes equipes de Canadá, Japão, Austrália e Suécia, entre outras.

“No primeiro tempo, nós não tivemos atitude. Aí no intervalo demos uma chacoalhada, foquei na atitude, porque se não tiver isso, não adianta. Elas entraram diferente, organizadas e viram que dava. Aí fizemos alterações e ganhamos muita velocidade pelas beiradas. Isso surtiu efeito e veio mais uma vitória”, analisou Emily após a partida.

Mudanças

Mais do que as mudanças táticas trazidas por Emily, ela trouxe uma mudança de postura. Trouxe confiança para uma seleção que sempre andava desacreditada, que não se via como vencedora. Tanto que uma das primeiras coisas que ela quis mudar foi essa falta de confiança.

“Eu trouxe a Sandra, a coaching, que era justamente para levar isso para elas. Aqui não tem coitadinha, só tem guerreira. O primeiro passo é acreditar que elas podem”, disse Emily no Live das Dibradoras no Facebook antes da viagem para os amistosos.

34416762972_4c59d01916_z

“Eu falei para elas: vocês não são amarelonas, tira isso da cabeça de vocês. Sinto que elas levam esse peso com elas. Eu falei: tira isso da cabeça de vocês, vocês fazem além do que o país faz por vocês. Vamos agora tirar isso, agregar o que foi feito de bom e começar um novo trabalho.”

Um exemplo claro dessa transformação de postura pode ser visto em Andressinha. A meio-campista é jovem, mas tem um talento incontestável e já vinha assumindo posto importante na equipe – até que foi parar no banco durante a Olimpíada sob o comando de Vadão.

Com Emily, Andressinha ganhou novas variedades de jogadas, passou a ter confiança para bater mais faltas, fez um golaço contra a Itália no Torneio de Manaus e deu um passe açucarado para Marta fazer o gol dela no amistoso contra a Islândia na terça-feira – que também foi fora de casa.

“A gente gosta dessa aproximação do meio-campo com o ataque, e a jogada do gol veio toda da Andressinha. Ela carregou a bola, foi levando para frente e achou a Marta para fazer o gol”, pontuou Emily.

Foram 7 vitórias em 7 jogos até aqui, mas a treinadora está longe de estar satisfeita. Obcecada por estudar os adversários e por exigir o máximo de suas atletas, ela ainda quer passar menos “sustos” com a seleção nos próximos jogos.

“Falta bastante trabalho ainda. Mas o mais importante é que elas vêm tentando fazer o que a gente está propondo. Contra a Islândia, o comportamento no segundo tempo mudou de novo. Ainda brinquei se elas querem me deixar maluca no primeiro tempo, fazer com que eu infarte, para depois jogar no segundo”, riu Emily.

31438179962_ddd8265b50_z

Independente dos erros que ainda precisam ser corrigidos, a seleção evoluiu bastante para tão pouco tempo de trabalho – especialmente considerando que os treinamentos são muito escassos para os amistosos. Há uma proposta de jogo agora, uma cara de time.

As próprias atletas têm valorizado bastante o esforço que Emily e sua comissão técnica tem feito para acompanhar in loco os jogos do Campeonato Brasileiro e dos estaduais – uma coisa essencial para um treinador de seleção é acompanhar de perto suas atletas.

São seis meses de trabalho e um início para lá de promissor. Temos um time. Temos uma proposta de jogo. Temos umA técnicA. E o mais importante de tudo: temos razões para acreditar.

Nosso próximo teste será ainda mais desafiador – a campeã olímpica Alemanha na casa dela. Depois, um torneio amistoso dificílimo com Estados Unidos, Japão e Austrália. Mas a certeza é uma só: estamos prontas.

33477475320_688ce9352a_k

SETE JOGOS

Torneio Internacional de Manaus

Brasil 6 x 0 Costa Rica
Brasil 4 x 0 Rússia
Brasil 3 x 1 Itália
Brasil 5 x 3 Itália

Amistosos
Brasil 6 x 0 Bolívia
Espanha 1 x 2 Brasil
Islândia 0 x 1 Brasil

Próximos jogos
4/07: Brasil x Alemanha (na Alemanha)

Torneio das Nações – nos Estados Unidos
27/07: Brasil x Japão
30/07: Brasil x EUA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *