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“Eles ficaram surpresos e não sabiam o que dizer”: a importância da participação das ex-jogadoras na CBF

Cristiane e Formiga participaram da reunião na CBF por conferência (Foto: FIFA)

Não é preciso andar muito pelo pomposo prédio que abriga a Confederação Brasileira de Futebol na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) para perceber-se num lugar estranho – se você for mulher, claro. Logo no hall de entrada, um manequim vestindo a camisa 10 da seleção brasileira com o ouro olímpico já dá as boas-vindas. Mais imagens da seleção masculina compõem a entrada do chamado “Museu da Seleção Brasileira”. E os nomes dos homens grafados na parede (os presidentes das federações de futebol do país) dão a pinta de que aquele lugar é mesmo inóspito para elas.

Ou era. Ao menos essa é a intenção das mulheres que estiveram ali na última terça-feira – seja de corpo ou de voz: a de mudar essa história e fazer delas protagonistas, em vez de apenas espectadoras.

Juliana Cabral, a capitã da prata olímpica de 2004 (esta que não está no Museu da Seleção) e a professora e pesquisadora de futebol feminino Silvana Goellner, estiveram na CBF para se reunirem com o presidente Marco Polo Del Nero  juntamente com suas companheiras de campo e de luta – as ex-atletas que moram nos EUA Sissi e Marcia Tafarel, e as jogadoras Cristiane e Formiga. Elas levavam consigo a revolta acumulada em 30 anos de descaso com o futebol feminino e uma lista de propostas para mudar essa realidade com quem a vivenciou na pele.

A entrada da CBF tem o museu da seleção, mas traz apenas a medalha olímpica dos homens

Da CBF, estavam presentes na reunião o presidente Marco Polo Del Nero, Manoel Flores, diretor de competições, Gilberto Ratto, do marketing, Rogerio Caboclo do financeiro, entre outros dirigentes da entidade. Provavelmente, esse foi o primeiro contato da história entre os “Homens do Presidente” na CBF com as “mulheres” do futebol feminino – aliás, o primeiro contato deles com o futebol feminino como um todo. Não à toa a expressão que dominou essa reunião foi a de surpresa.

“Eles ficaram surpresos com o que a gente trouxe, em alguns pontos eles ficaram bem surpresos com relação às informações que nós tínhamos. Não sabiam o que dizer”, afirmou Marcia Tafarel às dibradoras.

Segundo a ex-jogadora, as situações em que os dirigentes da CBF ficaram sem resposta aconteceram principalmente quando o assunto era pagamento de direitos de imagem e também quando falaram sobre a importância da Copa do Brasil.

“Principalmente quando a Cris tocou no assunto de direito de imagem e ela perguntou “por que para uma vinha um valor e para outras vinham outros”. Eles não souberam falar o porquê. Outra coisa que eles não souberam informar é sobre o desconto em folha, o desconto no pagamento. Para umas meninas vinha um valor descontado e pra outras vinha outro”, contou.

“Citamos o número de clubes que deixaram de participar da Copa do Brasil pela extinção da competição e não tiveram atividades porque não pertenciam a um ranking da CBF pra fazer parte da A1 e da A2. A gente colocou que a criação da série A e da série B pro Campeonato Brasileiro não deveria ter acabado com a Copa do Brasil. É preciso sim ter mais uma competição que deveria ter sido fomentada de uma forma diferente para que os clubes que não participam da A1 e A2 tivesse oportunidade de participar.”

Os dirigentes da CBF ali presentes não sabiam o que dizer. Isso porque poucos deles (se algum) conhecem a realidade do futebol feminino – e aí está a importância de ter gente como Tafarel, Ju Cabral, Sissi e cia, na gestão da modalidade dentro da CBF. Gente que sabe o que acontece e sabe os caminhos para as mudanças.

Marcia Tafarel foi assistente pontual da seleção feminina no Mundial de 2015

Mais do que propor ideias, as ex-jogadoras querem fazer acontecer. E, para isso, elas pediram ao presidente da CBF o espaço que sempre lhes foi negado: para que o futebol feminino fique nas mãos de quem entende dele. Nessa parte da conversa, as críticas à postura do coordenador de futebol feminino, Marco Aurélio Cunha, foram inevitáveis.

“Acho que a parte que eles ficaram mais calados, sem dar muita conversa e muito diálogo foi a parte em que nós tocamos sobre o coordenador da seleção (Marco Aurélio Cunha). Eu citei que eu vivenciei alguns dias com a seleção no Mundial do Canadá e coloquei a minha visão sobre algumas coisas que eu achei indelicadas do coordenador da seleção. Alguns fatos que nós colocamos relacionados a entrevistas que ele deu, o desrespeito com as atletas que se aposentaram da seleção, citando a idade delas como um fator, fora as que ele deu antes, falando que os uniformes estavam muito mais bonitos e as meninas estavam se cuidando mais, usando maquiagem, cuidando do cabelo, que futebol feminino com isso só teria a crescer, então esses tipo de comentário foi extremamente infeliz.”

“Eu citei que a gente estava cansada de ver pessoas que não tem envolvimento com a modalidade e que vinham do masculino pra cuidar do feminino e que não tem identidade nenhuma com a modalidade”, pontuou Tafa.

E diante de tantas verdades ouvidas, ao menos uma mudança foi confirmada: pela primeira vez desde 1988 (quando a primeira seleção brasileira foi convocada), haverá um Comitê formado apenas por mulheres e pessoas envolvidas com o futebol feminino para desenvolver a modalidade na CBF. Esse era um dos pedidos das ex-jogadoras na carta que assinaram antes da reunião.

Juliana Cabral, capitã da prata de 2004, diz que saiu esperançosa da reunião

“É um processo. Acho que o primeiro passo foi dado. Nós tínhamos 5 medidas iniciais, essa era uma, de se ter comitê com ex-atletas, atletas, pra ter esse canal direto com a modalidade, a outra era para que as 11 ações aprovadas pelo comitê de reformas que elas fossem colocadas em prática,outra para ter a mulher em todos os níveis de poder, na parte técnica, de gestão, de governança, e a outra era fazer um diagnóstico da modalidade. Hoje a gente não sabe quanto é investido em quê, por exemplo”, explicou Juliana Cabral às dibradoras.

“A primeira medida aceita é a criação do comitê, isso ficou decidido na reunião. De início esse comitê vai ser formado por quem estava ali, mas a ideia é que todas as regiões do país sejam ouvidas, então esse grupo vai ser reformulado pra que todos tenham voz. A ideia é começar a trabalhar a partir daí. A gente sai esperançosa  de que as coisas estão dando primeiro passo e que esse passo possa ser importante para a caminhada do desenvolvimento da modalidade dentro do país.”

E agora?

A criação do comitê para o futebol feminino nesse formato é inédita, mas essa lembra uma iniciativa recente que foi muito comemorada de início e pouco colocada em prática. Dois anos atrás, em meio ao escândalo de corrupção da Fifa que envolveu nomes da CBF, a entidade criou um comitê de reformas para tratar do futebol feminino. Algumas ex-atletas e especialistas na modalidade fizeram parte dele, mas as propostas discutidas ali não saíram do papel.

Por tudo isso, as ex-atletas mantêm os pés no chão na hora de comemorar a conquista desse espaço na CBF. “É um passo dado, mas a gente não sabe até que ponto é esse passo. Se a gente não tem o poder da decisão, da batida do martelo, não sei. No que a gente entendeu de início: esse grupo é para ajudar o futebol feminino a se desenvolver. Isso tudo é um processo. A gente lá dentro vai sentir se vai ter voz de poder ou não. É isso que a gente quer”, observou Juliana Cabral.

Para Marcia Tafarel, há um motivo a mais para se ter esperança agora.

“A gente tem a força da mídia e eu acho que isso ajuda para que as coisas aconteçam. Obviamente a gente fica com pé atrás porque a gente sabe que as promessas em 30 anos foram feitas e não foram cumpridas, muitas delas não foram cumpridas. Então a gente tem que ter esse acesso à mídia e a mídia cobrando as pessoas lá da CBF para que as coisas aconteçam. Antigamente a gente não tinha a mídia a nosso favor, a gente não tinha acesso, mas hoje em dia a gente tem a internet, e a mídia pode cobrar e fazer com que isso seja diferente”, finalizou.

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