esporte, Futebol Masculino

~Dibres na Arquibancada: Quando o time se torna parte fundamental da sua vida

botafogo

*Por Janaina Pereira especial para a coluna ~Dibres Na Arquibancada

Nasci botafoguense. Influência do meu pai, Ivo Pereira, torcedor fanático do time (para ele, Garrincha sempre foi melhor do que Pelé. Para mim também, claro). Quando eu era criança, adorava usar as camisetas do Bota. Escudos da Estrela Solitária sempre se multiplicaram em casa. Eu ia ao Maraca com meu pai, e sempre chorava quando o Fogão fazia gol. Detalhe: a gente só ia ao clássico Botafogo x Flamengo, e colecionávamos vitórias. No jogo né, porque campeonato que é bom, nada!

Era começo dos anos 1980. O Flamengo foi campeão do mundo, e um dos meus primos, flamenguista roxo, só me zoava. Eu ficava envergonhada e pensava “será que nunca vou ver meu time ganhar?”. Mal sabia eu que as vitórias do Botafogo seriam muito mais importantes na minha vida adulta do que os campeonatos perdidos durante toda a minha infância. Infância, aliás, em que eu era a ‘menina esquisita que gostava de futebol’. Naquela época, futebol era coisa (somente) de homem. E eu levei muitos anos para encontrar amigas boleiras como eu. Nem por isso deixei de ser a menina que não queria aprender balé e sim jogar futebol e vôlei, mas como isso não podia, ficava o domingo inteiro vendo Show do Esporte, com o Luciano do Valle.

Minha relação com o Botafogo se tornou muito maior quando meu pai morreu. O ano era 1989, e meu pai tinha comprado a camisa oficial daquele time. Ele falava o tempo todo que, finalmente, a gente ia ganhar o Campeonato Carioca. Sr. Ivo faleceu em 7 de março de 1989. Em 21 de junho, o Botafogo ganhava, após 21 anos, o título carioca.

Lembro que vi o jogo no meu quarto e minha mãe no quarto dela. Na hora do gol do Maurício eu surtei. Quando o jogo finalmente acabou, eu e mamãe corremos para a sala, nos abraçamos e choramos muito. Naquele dia sai na rua com a camisa oficial que era do meu pai. Eu queria muito que ele tivesse vivido aquele momento, mas sei que, de alguma forma, ele vibrou com o título. Campeão invicto em cima do Flamengo de Zico e Junior. Sem mais!

A partir dali, ser botafoguense se tornou uma lembrança afetiva do meu pai.

Aquele ano de 1989 mudaria para sempre minha relação com o esporte. É a maior e melhor lembrança que tenho do Sr. Ivo. As corridas de F-1, os jogos de vôlei, as lágrimas a cada ouro olímpico, as lágrimas a cada desclassificação do Brasil na Copa, o Maraca que eu nunca mais voltei para ver um jogo do nosso time. Cresci, mas esse amor me acompanha até hoje.

barça x bayern leverkusen

Queria ser jornalista esportiva, mas os caminhos me levaram ao jornalismo cultural. Ainda assim, tive a oportunidade de assistir ao GP de Mônaco de F-1, uma das maiores emoções da minha vida – foi no histórico GP de Mônaco de 1984, visto pela TV, que eu descobri o automobilismo graças ao meu pai, que me chamou para ver “o cara que vai ser o melhor piloto do mundo”. Sim, era o Ayrton Senna.

Mônaco se tornou a minha corrida preferida. E no dia que estive lá, em 2015, dediquei aquele momento ao homem que me ensinou a amar o esporte. Também fiz uma entrevista marcante, provavelmente a mais badalada até hoje, com Ronaldo Fenômeno, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Aí eu virei o orgulho da mamãe (que passou a gostar de esporte também por influência do meu pai, e mantém até hoje a tradição de termos a Estrela Solitária nos quatro cantos da casa). Isso sem falar na minha mania de visitar estádios de futebol mundo afora – até jogo da Champions League eu já assisti. O amor ao esporte só não é maior do que o amor ao Botafogo, que é um caso à parte na minha vida.

Estava no Rio de Janeiro esta semana e cogitei ir ao jogo do Fogão contra o Atlético Nacional, pela Libertadores. Minha mãe mora próximo ao Engenhão (que eu só conheci ano passado, durante as Olimpíadas, num jogo da seleção feminina de futebol – porque a vida é irônica, né?). Mas eu precisava voltar a São Paulo, onde moro, para trabalhar e, confesso, fiquei com receio de ir ao jogo e o time perder. Olha o drama: desde que meu pai morreu eu nunca mais vi o Botafogo ao vivo e a cores, e a superstição é tanta que prefiro não ver só pro time ganhar!

engenhao

Ontem à noite estava trabalhando e só soube do resultado do jogo nessa madrugada. Chorei ao saber da classificação antecipada para as Oitavas de Final da Libertadores, algo bastante improvável para um time que veio da pré-Libertadores e caiu num grupo super forte. Eu só conseguia pensar como o Botafogo me representa. É tudo sofrido e dramático, uma mistura de força e garra, e aquela situação improvável, de repente, acontece.

Eu, que trilho tantos caminhos improváveis; que sempre lutei muito para conseguir o pouco que tenho, não poderia ter outro time. Não poderia ser diferente. É simplesmente apaixonante ser botafoguense. Hoje mais do que nunca estou me sentindo Gloriosa. Deixa eu aproveitar porque não sei até quando o sonho vai durar – e não me acordem, por favor! Porque tem coisas que só acontecem ao Botafogo e, ainda bem, coisas boas também acontecem ao Botafogo! 

Estamos nas oitavas da Libertadores, classificados com uma rodada de antecedência, vencendo quatro campeões da Liberta, e antes do Flamengo. Obrigada ao meu pai, por me fazer gostar desse clube, que transformou esse dia chuvoso num dia verdadeiramente Glorioso.

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