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Dibres na Arquibancada: Futebol de pai para filha, não importa a rivalidade

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*Por Angélica Souza

A minha relação com o futebol nasceu de um jeito esquisito, eu tenho lembranças remotas de meu pai assistindo a partidas na televisão e eu dizendo: tira disso, isso é muito chato. Isso deve ter acontecido quando eu era bem pequena, porque acredito que a partir dos 6 ou 7 anos eu já estava completamente tomada pelo esporte e tudo que o envolvia: jogar (que para nós era brincar), torcer, ter álbuns, querer camisa, gritar nomes de jogadores, comemorar. Enfim, tudo mesmo.

Como minha mãe – que torce para o BRASIL – dizia, eu era uma criança que fazia dois turnos na brincadeira. Um com as meninas com as bonecas, casinha, barbies, desfiles, e outro com os meninos jogando futebol, brincando de lutinha. Aproveito para dar parabéns e obrigada a ela, porque em casa não tinha brincadeira de menino ou menina. Todo mundo podia brincar do que bem entendesse, o importante era gastar toda a energia.

Só que para completar a relação “esquisita”, eu “me fiz” palmeirense em uma casa de dois corintianos: meu irmão, dois anos mais velho, e meu pai. Sabe aquela história da má-influência dos amigos? Pois é, é isso que mais pai diz. ☺ Na minha rua, meus melhores amiguinhos eram palmeirenses, e estávamos em 1992, o Palmeiras ainda estava na fila de quase 16 anos, mas já era o time que nos dava muitas alegrias, que me unia à turma toda da rua.

E lá foi a Angeliquinha – que já era do contra desde o início de sua passagem pela terra – torcer para o time rival da família – além do meu pai e irmão, todos os meus primos, tios e tias eram corintianos. E o que faz um pai em uma hora dessas?

O meu pai, como outro apaixonado por futebol, não titubeou, fez de tudo e mais um pouco para que, desde pequena, eu vivesse todas as emoções que o só o futebol pode nos proporcionar. Tem que amar muito a filha para fazer isso!

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Além de me levar ao futebol dele com os amigos toda semana. Enquanto ele jogava com os amigos, eu e meu irmão ficávamos brincando em um campinho ao lado. Eu me lembro dos inúmeros jogos que ele me levou ao estádio, no Palestra Itália, Pacaembu, Morumbi. E é importante reforçar que naquela época não tinha futebolcard, internet… para comprar um ingresso de Libertadores, eram filas e mais filas, mas ele sempre conseguia. E lá íamos nós da Zona Leste para tudo quanto é estádio de São Paulo. Quando era Palestra, íamos de metro, quando era Morumbi, atravessamos a cidade de carro, naqueles trânsitos infindáveis das quartas-feiras de Libertadores.

E nesses estádios, ele sempre comigo. Ficava até feliz quando o Palmeiras ganhava, só para não me ver triste. Nós éramos tão companheiros de estádio que algumas vezes também ia com ele aos jogos do Corinthians. Lembro de um jogo da Fazendinha, Corinthians x Portuguesa. Fomos a pé de casa, talvez tenha sido o último jogo oficial por ali.

Como é na tristeza que as pessoas mais se unem, lembro da final da Libertadores de 2000. Não conseguimos ingressos para ir à final de 99, infelizmente.

Naquela quarta-feira, eu era só ansiedade. Toda aquela Libertadores tinha sido incrível, vencemos pelo segundo ano consecutivo o Corinthians, nos pênaltis, na semifinal. No meu prédio, abarrotado de corintianos, levávamos a televisão do meu quarto para o salão de jogos e assistíamos aos jogos todos juntos. Era uma diversão só, dos momentos que só o futebol entrega. Quando o Galeano fez aquele gol de barriga, virando o jogo, eu quebrei uma cadeira na comemoração. Acho que foi o meu primeiro momento de explosão máxima com o futebol.

Enfim, estávamos na final, meu pai comprou os ingressos para irmos ao Morumbi. E assim fomos, no dia 21/06/2000, uma semana antes do meu aniversário de 15 anos. Seria um presentão – seria.  

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Eu lembro da chuva e do trânsito caótico que foi do Tatuapé até o Morumbi, sem trégua. No caminho, meu pai fazendo suas rotas alternativos (waze nem pensava em nascer) e manobras radicais para garantir que não nos atrasaríamos.  

Ao chegar aquela clássica confusão para estacionar que só o Morumbi pode nos oferecer – acho que não mudou muita coisa desde então. Entramos, estádio lotado, estávamos nas cativas e de lá, vimos um 0x0 muito tenso, meu pai sempre mais calado, mas no fundo torcendo para que tudo desse certo para mim. Como o primeiro jogo tinha sido 2×2, em Buenos Aires, fomos para os pênaltis com esperanças pois tínhamos São Marcos. O final todos já sabem, perdemos. Meu pai me consolou. Lembro dele dizendo: é isso aí, filha, acontece. Uma pena, mas acontece. Caminhamos até o carro, no maior silêncio que eu já ouvi em uma saída de estádio.

E assim foi, dos 8 a mais ou menos uns 16 anos, quando já estava liberada para ir ao estádio sozinha (sem um responsável) com meus amigos. Desde então, ele parou de ir aos jogos do Palmeiras comigo, mesmo assim, continuamos ótimos parças de futebol. Jogos da Seleção, Olimpíadas e claro, meus jogos, quando eu chamo para me ver jogar, ele sempre está lá.  E imagina quem acordaria às 5h30 da manhã de um domingo para acompanhá-lo para correr atrás da tocha Olímpica no Museu do Ipiranga? Pois é. Eu!

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Meu pai não só me amava muito, mas sem dúvidas, sabia da importância que é para um torcedor ir ao estádio, torcer, chorar, gritar e viver in loco, o futebol. Toda essa experiência me tornou uma torcedora cada vez mais apaixonada não só pelo Palmeiras, mas também por assistir aos jogos no estádio. Gostar de futebol, me fez ter uma relação bem próximo ao esporte, que hoje valorizo muito. Já joguei tênis, handball, hoje ainda jogo futebol e corro, aliás, vez ou outra meu pai corre comigo também!

 

4 Comments

  1. O Darcião é um pai fera demais! E você, Angeliquinha, faz com que a gente (que é curíntia) até se simpatize, tipo quando você me leva pra ver os jogos do “nosso palmeirinha”. Às vezes é contra o curíntia e aí o Zidanilo faz bagunça e a gente empata, mas eu sempre torço pra você sair feliz e a gente tomar umas breja comendo espetinho. Te amo, minha amiga do futebas comunistinha

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