Futebol, Futebol Masculino

~Dibres na Arquibancada: Arrepios, emoção e a melhor sensação do mundo – minha primeira vez no estádio

Por Ariane Freire de Sá, em colaboração para as ~dibradoras

Mesmo gostando de futebol desde pequena, eu nunca pude ir a um estádio. No início, o problema era convencer minha mãe, que acabava me rotulando como a princesinha que eu não queria ser. Não era fácil ouvir várias vezes que “estádio não é lugar para uma moça”, que “isso era coisa de homem” e que eu “deveria querer ir para o shopping ou alguma festa, não para um jogo”.

Defender suas vontades e opiniões fora de casa é muito fácil, você se fortalece com outras pessoas que estão na mesma luta e a cada parede você encontra alguma forma de passar por cima e gritar que seus objetivos são mais importantes do que opiniões e argumentos clichês que não te convencem mais em nada. Mas defender o que você acredita batendo de frente com quem você ama é mil vezes mais difícil, lutar dentro de casa é a verdadeira batalha porque você não quer magoar as pessoas que sempre estão ao seu lado. É difícil explicar que você quer voar quando tentam de proteger até dos ventos mais leves.

É difícil dizer que você não quer essa proteção e que agora ela está sufocando sua vida, sua pessoa, seus sonhos…. É difícil querer algo que está fora do roteiro que você deveria estar seguindo, três irmãs vieram antes de você e com elas deu tudo certo, por que eu ia querer algo diferente? Tudo isso é uma bomba de sentimentos que uma hora ou outra explode e aí você chora sozinha trancada no quarto.

Tudo parece desabar a todo momento, mas uma coisa que minha mãe nunca gostou foi me ver chorando. É como se me ver chorar fizesse ela entender que aquilo realmente é importante para mim, mostrasse minhas fraquezas e dissesse que algo estava me machucando de alguma maneira. Mesmo doendo e sendo horrível chegar ao ponto de desabar em lágrimas, isso me ajudou. Minha mãe aceitou que eu fosse para o estádio e se essa era minha vontade, “ok”.

As outras etapas também foram complicadas, mas o pior já tinha acabado. Conseguir ingresso não é fácil, ainda mais quando um grupo tem acesso privilegiado a eles semanas antes de abrir venda para o público em geral. E também é bem chato ter que esperar os ingressos chegarem nas bilheterias físicas para eu conseguir comprar dentro dos critérios de meia entrada que a lei me garante.

Além da loucura pra conseguir uma companhia pro jogo, porque ou suas amigas torcem pra times rivais ou simplesmente não gostam muito de futebol. Meu pai seria a companhia ideal, se não tivesse medo das brigas que nossa mídia brasileira e democrática adora divulgar. Enfim, mesmo com todas as dificuldades uma hora eu achava companhia, mas não conseguia comprar ingresso. Na outra, tinha ingresso à venda e não tinha companhia. E assim a vida ia seguindo.

Finalmente o destino me ajudou. Meus padrinhos vieram me visitar na minha cidade! Levar meu padrinho para assistir um jogo e conhecer um estádio lindo e sensacional parecia a ideia perfeita, lembrando que ele gosta de futebol e adoraria conhecer a cidade. Como eu sempre fui xodozinho, um convite da afilhada foi bem convincente para aceitar, mesmo que não fosse o time dele.

E como nessa altura do campeonato já estava tudo mais favorável, consegui comprar os ingressos e finalmente ir assistir o jogo em um estádio, que por sorte foi melhor ainda ao terminar o placar com três gols do meu time e um para o rival.

Entrar em um estádio é coisa de louco. Coração palpita acelerado e a emoção não cabe no peito. Você olha para porta com numeração do seu ingresso e do outro lado já enxerga o campo, começa a ouvir o grito da torcida e tudo parece um pouco meio sonho meio real. Passar por essa porta é mais intenso ainda, você definitivamente entra em outro mundo e descobre algo muito maior do que você conseguia imaginar olhando por fora.

A Arena é enorme. Muitas luzes por todos os lados e um giro 360º te faz ficar perdida em um minuto. São muitos lugares, muitas pessoas, cantos, torcidas, vibrações. O céu está limpo e você também consegue olhar a cidade em volta. Chega a dar arrepios. Os locais privilegiados geralmente são os mais próximos do campo, nas cadeiras inferiores, mas confesso que a vista lá do alto também é de ficar babando e te garante uma visão espetacular de tudo: do campo, das arquibancadas, da rua, das torcidas! Tudo vale a pena quando você está ali dentro.

A arquibancada é um sentimento coletivo. Gritamos pelas faltas, cobranças, passes e também sofremos juntos. “Como o juiz não viu aquilo?”, “Saí daí, chuta pro gol”, “Não fica aí, vai pro outro lado”. Como eles não ouvem nossos conselhos se estamos tão próximos? Tudo está a flor da pele e cada detalhe é importante para que o jogo dê certo. A defesa do goleiro merece aplausos. Cantos e hinos recomeçam com mais força.

Respiração quase parando cada vez que os jogadores se aproximam do ataque. A emoção de um gol é algo surreal. Você pula, grita, abraça e sente todo mundo gritando e comemorando ao mesmo tempo aquela jogada, já sente como se fosse a vitória! A arquibancada vibra, os gritos são mais fortes do que tudo e aquilo é uma energia absoluta, alegria envolvente. Gritar o gol do seu time em um estádio é uma das melhores sensações do mundo, vale a pena conferir. 

É algo bem mais do que assistir um jogo. É a própria experiência de você estar dentro do jogo. É olhar para o lado e encontrar irmãos, amigos e amigas que você não conhece, mas vibra na mesma energia e está junto para somar na voz, no grito, nas palmas e na torcida como um todo. A vida é feita de experiências e é isso que faz tudo valer a pena.

Conseguir assistir um jogo do meu time foi difícil. Não tenho irmãos para me acompanha aos jogos e meu pai também nunca quis me levar, talvez por eu ser menina, talvez por medo das brigas entre torcidas ou pelo fato de ele nunca próprio ter ido. Mesmo assim, meu pai sempre foi minha companhia para assistir aos jogos em casa e se tenho um time hoje é pelo amor que sempre vi ele ter pelo dele, que de fato hoje também é o meu.

O que eu tenho a dizer depois dessa longa história é que vale a pena. Vale muito a pena chegar até lá, olhar para o estádio lotado, cantar com a torcida e vibrar de alegria na hora dos gols. Se você nunca foi, vá pelo menos uma vez. E se você já foi, continue indo – e se morar em São Paulo e for corintiano(a) me chama pra ir contigo que eu vou adorar.

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