Futebol Feminino

~Dibres na Arquibancada: A Milonga não pode parar!

*Por Nathalia Santos, torcedora do Juventus, especialmente para a coluna ~Dibres Na Arquibancada

Quando você acha que tem sua vida sob controle. É assim que uma paixão pega você, totalmente desprevenido. Quando me convidaram para escrever sobre mim, o futebol, o Juventus e tudo o que eu sei até aqui, essa foi a primeira coisa que eu pensei que queria dividir com vocês, porque tenho certeza que é a forma mais fácil e que todo mundo consegue entender, quando tentamos explicar o que nos motiva a fazer o que fazemos por um time, ir a um estádio de futebol, dispor de tempo, energia, dinheiro, voz, suor, lágrimas e de vez em quando até sangue, por um time de futebol.

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Essa denominação: time de futebol. Ela soa tão vazia e talvez por isso quem não vive uma bancada não consiga entender essa paixão. Não é só um time de futebol, não são os onze jogadores, reservas, técnico, comissão técnica, diretoria mafiosa. Não. É a família que está ao seu lado todo santo jogo, é a memória de imagens, sons e cheiros, toda vez que você entra no seu templo sagrado. É uma história da sua família, que vem se fortalecendo de geração em geração. É uma forma de expressão, de escape, uma ferramenta de luta.

Ninguém, que não viva de bancada, vai entender o que é isso.

Eu não sei precisamente quando foi a primeira vez que eu pisei em um estádio de futebol. Juro. Eu sei que faz muito tempo, sei que eu fui escondida, matei aula pra isso, sei que até então “não era lugar de mulher”. A minha memória é a coisa mais horrível do mundo pra fatos, nomes e datas. Mas me lembro das sensações, dos cheiros e da emoção.

Quem me levou a primeira vez ao estádio não foi meu pai, mas sim meu grande amigo, meu primeiro irmão de bancada. Irmãos de Palestra Itália, um estádio tão maravilhoso, tristemente chafurdado em cadeiras de plástico. O meu pai esteve comigo em muitos jogos, fomos juntos à Vila Belmiro, ao Pacaembu, ao Morumbi. Ele, primeiro de todos, entendeu que bancada é lugar de mulher sim!

Eu sou apaixonada por estádios (os de verdade) e aonde vou gosto de conhecer tantos quanto possível e em 2012 tive o prazer de conhecer um que dizem ter capacidade para 4.000 pessoas, mas obviamente que cabe muito mais gente que isso. Claramente estou falando do Estádio Conde Rodolfo Crespi, localizado na Rua Javari, no. 117, a casa do Juventus.

Eu, que não tenho a melhor memória, quando pisei nele pela primeira vez fui arrebatada por tantas lembranças, tantas histórias contadas pela minha avó e pela minha bisavó, que viveram boa parte de suas vidas naquela mesma rua no antigo Cotonifício Rodolfo Crespi. Origem Operária.

Meu primeiro jogo do Juve foi numa quarta-feira às 15h00, porque esse é o horário que se costuma marcar jogos neste Templo do Futebol que carece de iluminação noturna. Foi embaixo de chuva (parece uma zica minha tomar chuva em jogo), e temos imagens maravilhosas aqui:

Saibam que é preciso muito amor e muita milonga pra acompanhar os jogos do Juve. Precisa gostar de acordar cedo também, pois atualmente os jogos de domingo acontecem às 10h00. Eu não vou entrar na discussão sobre isso aqui, mas, de fato, é preciso muita paixão!

Feita essa breve introdução, acho importante tratar de outro assunto: torcida. As pessoas que estão ali ao seu lado na bancada são, pelo menos por 90 minutos, sua família. Ali dentro estão todos em comunhão com um único objetivo: incentivar o time.

Algumas pessoas separam sua paixão pelo time da torcida por motivos que, de novo, não tenho caracteres suficientes para discutir aqui. Eu não acho isso possível. Sequer existiria time sem aquelas pobres almas abandonadas no cimento frio, declamando sua paixão e sofrendo incondicionalmente, juntas.

E por que entramos em terreno nebuloso? Poderia falar sobre problemas da gestão publica e sua dificuldade em entender que torcedor não é bandido, ou sobre como as diretorias tratam o futebol como mero espetáculo e vendem nosso patrimônio para empresários parasitas, enfim, as possibilidades são infinitas. Mas vou me prender a um ponto só: mulheres.

Somos poucas mulheres torcedoras. No Juventus, considerando o volume geral, isso foge um pouco à regra, mas ainda assim, mesmo sendo um dos focos de resistência e luta contra o estado opressor, contra o fascismo, toda forma de preconceito e desigualdades não é um ambiente livre de machismo e algumas vezes até inóspito, que pode afastar as mulheres da sua participação. Seria totalmente injusto falar que mulheres não são bem vindas nas arquibancadas da Rua Javari, mas como em todos os demais locais, ainda é preciso certa batalha.

Ainda que seja uma resistência velada, inofensiva, aquela que “nem se percebe” ela existe e de vez em quando ela aparece para mostrar os dentes.

Em um episodio recente, nós, algumas das mulheres da arquibancada juventina, resolvemos fazer um manifesto próprio, contra a idolatria ao ex-goleiro Bruno. Era um manifesto de mulheres, escrito por mulheres, diante de uma situação em que jamais poderíamos nos calar e ali na bancada estávamos exercendo o nosso direito de torcedoras de usar aquele espaço, que é de voz, transformação, de manifestação social, para nos expressarmos.

2012 Juventus x Marilia

Assim que, aos poucos, surgiram egos feridos, alguns especialistas em processo penal, para discordar da nossa atitude com base em discussões jurídicas no padrão botequim e outros (poucos, felizmente) pra reforçar que nós não tínhamos nenhum direito de fazer manifestações sem prévia autorização coletiva – leia-se do grupo masculino de torcedores já que o núcleo feminino estava em pleno acordo.

Naquele momento ficou mais claro do que nunca que, mesmo em um ambiente diferente dos demais, formados por uma torcida que entende a importância do futebol na sociedade e que sempre defendeu uma estrutura horizontal, autônoma e inclusiva, mesmo ali o machismo ainda está entranhado de tal forma que a primeira reação de alguns foi a de nos rechaçar.

Indo além, ainda que esse tenha sido o episódio mais marcante, o cotidiano não está de forma alguma livre do machismo. Desde os caras que deixaram de lado a milonga na arquibancada para se dedicarem a perseguir mulheres com shorts e calça legging no estádio, até os hábitos de cantar músicas com letras que nos colocam totalmente à margem da torcida – o proibidão da Javari é o melhor exemplo e, lamento, não posso reproduzir ele aqui – infelizmente ainda não se pode dizer que a luta terminou, nem mesmo em um dos melhores lugares do mundo, a Javari.

Mas vou deixar de lado a nuvem negra que criei sobre o texto porque acredito muito no poder dessa torcida, no poder do futebol como ferramenta transformadora e quero encerrar esse texto voltando a falar de paixão.

Como torcedora apaixonada, viciada em futebol, em canchas, no Juve ou nada, posso dizer, queremos cada vez mais ocupar o nosso espaço e o fim do escanteio curto, se não for pedir demais.

IMG_1130Além disso, reforço aqui que é de conhecimento geral que se você se posicionar atrás do gol na Rua Javari significa que você tem que cantar, não tem torcida nenhuma pra se associar, pagar mensalidade, nada. Só cantar. Mas cantar de verdade, com coração, com alma, até ficar sem voz. TODOS OS JOGOS. E é esse amor, essa família, essa crença que mantem o Juve. Não é a mídia fanfarrona fazendo vídeos engraçadinhos na Javari, não é o turista, e obviamente não é a exploração desses empresários ardilosos e a incapacidade de montar um time que preste.

Uma das músicas mais maravilhosas que se entoa por aqui diz que a “resistência não desistirá” e eu acredito demais nisso. Voltaremos.

Forza Juve per sempre.

PS1: Existem alguns outros “conhecimentos gerais” que precisam ser esclarecidos: Seo Antonio é um fofo, mas por favor, não faça sua ida ao Javari uma excursão de padaria (entendedores…)
PS2: E não tirem foto com o busto do Pelé, ele é ofensivo. A foto CORRETA é com o Professor Nori, façam o favor.

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