Futebol Feminino

Desculpa, Formiga.

formiga_despedida2

A jogadora que mais vestiu a camisa da seleção brasileira, entre homens e mulheres: 160 jogos.
A única atleta brasileira a disputar seis edições de Olimpíadas.
A jogadora mais velha a disputar uma Copa do Mundo.
A maior recordista de Mundiais – disputou seis, só a japonesa Homare Sawa conseguiu o mesmo feito.
Ao todo, mais de duas décadas dedicadas à seleção brasileira.

Essa é apenas uma pequena parte do currículo de Miraíldes Maciel Mota, meio-campista da seleção brasileira de futebol feminino que encerrou sua carreira de 21 anos vestindo a amarelinha neste domingo aos 38 anos, conquistando o sétimo título do Torneio Internacional com uma goleada por 5 a 3 sobre a Itália.

Ao ser substituída nos minutos finais, Formiga deixou o campo ovacionada, como não poderia deixar de ser. Na entrevista à beira do gramado, mal conseguia falar. E, no choro dela, sentimos a perda que estamos tendo neste 18 de dezembro. Por mais de duas décadas, seleção brasileira e Formiga foram uma coisa só – não existia uma sem a outra. Como podemos pensar no futebol feminino sem ela em campo?

“É uma honra pra mim poder ter lutado tanto pelo futebol feminino, mas chegou a minha hora. Infelizmente chegou.”

Devemos a ela nossos eternos agradecimentos por tudo o que fez em quase 22 anos de seleção. Mas, mais do que isso, nós devemos a ela um pedido de desculpas.  

formiga

Quantas vezes ouvimos falar sobre Formiga? Ela coleciona essa lista interminável de feitos e recordes – mas tudo isso, por muito tempo, ficou esquecido, escondido – ignorado.

Hoje mesmo, antes do jogo, nos principais sites esportivos do país, não havia uma linha sobre o dia que marca a despedida de uma das maiores atletas que o Brasil já teve. Nenhuma manchete de agradecimento, nenhuma reportagem contando sua história, nenhum vídeo recuperando seus melhores momentos. 

31438169092_a7dc82697f_z

Por essas e outras que hoje, mais do que agradecer, precisamos te pedir desculpas, Formiga.

Você que deu seus primeiros ~dibres dentro de casa, arrancando as cabeças das bonecas para poder jogar à revelia daqueles que te diziam que “isso não era coisa pra menina”.

Que persistiu e não desistiu diante de todas as dificuldades do futebol feminino no país – a falta de clubes, a falta de estrutura, a falta de investimento. Faltava tudo, mas de você não faltou dedicação e luta para que a realidade hoje pudesse ser melhor para as meninas que escolhessem seguir os seus passos – e os seus passes.

E foram muitas as que contaram com eles dentro de campo. De 1995 até aqui, ao menos seis gerações dividiram os gramados com você, invejando seu fôlego e sua velocidade e se inspirando na sua gana e vontade de vencer sempre.

Não foi à toa que você recebeu esse apelido. Uma mutante dentro de campo, assim te definiu a capitã da seleção de 2004, Juliana Cabral. Você se multiplica no gramado, defende, ataca, rouba bolas, dá assistências, faz gols. René Simões, o técnico da geração da prata olímpica de Atenas, disse que, considerando homens e mulheres, nunca treinou uma jogadora tão completa quanto você.

E ainda assim, nós levamos tanto tempo para entender sua importância. Assim como o futebol feminino no Brasil, você não foi valorizada como merecia. Foi só nesses últimos dois anos que o país começou a conhecer mais a sua história, os seus recordes. Foi só em 2016 que, em meio aos “Olê Olê Olá, Marta, Marta”, as 70 mil pessoas que estavam no Maracanã lembraram de gritar seu nome. E agora que você está se despedindo, nós começamos a compreender a falta que vai fazer.

30900541933_1d37c75031_z

Por isso, desculpa Formiga. A gente te deve esse pedido há muito tempo. Desculpa por termos demorado tanto para reconhecer sua grandeza. E por termos, por tanto tempo, ignorado o futebol feminino por aqui.

Na Olimpíada do Rio, você se despediu mais uma vez chorando. “Peço que não desistam da gente, porque a gente nunca vai desistir”.

Hoje, somos nós que choramos por não podermos mais contar com você em campo. Mas sabemos que, de alguma forma, você estará conosco fora dele.

Hoje, a seleção brasileira perde um pedaço da sua alma. Mas, da mesma forma que você sempre seguiu em frente, ela também haverá de seguir – e ainda mais forte, para honrar o legado que você deixou.

Obrigada, Formiga.

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *