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“Dele herdei a bola, o time e alguns palavrões: eu, meu pai e o futebol”

Nina Lá em casa, o esporte nunca foi coisa (só) de menino. A bola sempre foi nossa amiga, seja ela de futebol, de basquete, de vôlei, de tênis, pingue-pongue, de gude… Talvez por ser a caçula e ter nascido oito anos depois do meu irmão, os brinquedos dele também foram um pouco meus e nada me foi negado.

O amor pelo futebol foi passado de gerações. Do lado materno, tinha uma avó que torcia pelo Ararita e distribuía guarda-chuvadas nos rivais nas arquibancadas de Porto Feliz enquanto seu marido era jogador do E.C União, o time rival da cidade. Já do lado paterno, um avô português fanático pela Lusa que não conseguiu catequizar nenhum dos seus filhos homens a torcerem pelo mesmo time que ele – e meu pai é um desses. Me contou, certa vez, que gostava muito do São Paulo e de ver o Roberto Dias jogar. Tinha vergonha de torcer pra Portuguesa, mas também tinha medo de assumir sua paixão tricolor com medo de apanhar.

Sempre jogou bola na rua, na várzea. Aos 15 anos, passou em uma peneira na Portuguesa e, todo contente, pegou sua bicicleta pra ir ao treino no dia seguinte. O irmão mais velho quando soube que ia jogar bola em vez de trabalhar, deu um tapa na orelha do coitado que meu pai voou no chão e foi buscar consolo no meu avô. O velho perguntou “como foi o teste na Portuguesa?”, meu pai respondeu “eu passei, mas não fui ao treino porque o Zé me bateu”. Seu Cardoso, muito chucro, emendou “fez muito bem, afinal, você não é são-paulino? Que vá jogar no São Paulo, então”.

Bom, mesmo sem se tornar um atleta profissional, meu pai foi amador a vida toda. Era um zagueiro botinudo que não perdia a viagem, mas sabia bater bem na bola. Era daqueles de jogar muitas vezes por semana e conta que no primeiro ano de vida do meu irmão, ele não passou um final de semana em casa. Jogava pelo tal time União de Porto Feliz e todo sábado e domingo estava no interior para cumprir seu compromisso com a bola. No final da temporada, foram campeões, mas olha, minha mãe era uma santa!

Papai, estilo uruguaio, na várzea
Papai (à direita), estilo uruguaio, na várzea

Falando nela, Dona Rosa era bem corintiana e acho que a maior alegria da vida da minha mãe foi ter morado uns bons anos na Rua São Jorge, a poucos passos do Sport Clube Corinthians Paulista. Ela adorava o Marcelinho Carioca e nós três (pai, irmão e eu, a parte são-paulina de casa) privávamos a coitada de torcer pelo seu time no mesmo recinto em que estávamos. Perdão, mãe, mas a senhora era muito pé-quente.

É claro que toda essa trajetória de família no futebol contagiou meu irmão que até hoje, aos 42 anos, não abandonou a bola, a várzea, as operações no joelho e as inúmeras sessões de fisioterapia. Ele diz que a bola é sua terapia e sem ela, ficaria louco. Tudo bem, dá pra entender.

Comigo também não poderia ser diferente, afinal, não é fácil ter somente uma televisão em casa e vê-la ser dominada pelo seu pai que, durante todo o final de semana, assistia a todos os campeonatos possíveis, sem trégua. Eu não tive como escapar dessa paixão, graças a Deus!

Com meu pai por perto, a bola sempre foi minha companheira. No quintal de casa, na rua, nos treinos femininos, na coleção de figurinhas que Seu Toninho sempre me ajudou a colecionar, na arquibancada pra ver o Tricolor jogar, no rádio de pilha, nos passeios de domingo pelo campo do Guaiaúna e etc.

Dia dos Pais
Juntos, na bancada!

Meu pai nunca me disse “você não entende o jogo” ou “você não pode jogar”, pelo contrário. Ele sempre me estimulou a aprender e me contou as histórias do passado para que eu pudesse entender o contexto de tudo que envolve o mundo da bola, me ensinou a provocar, a xingar e a debater o esporte. Nunca me proibiu de vestir meiões e jogar futsal, me ensinou a levantar a bola com o pé direito e treinar embaixadinhas e me dizia “chuta as canelas dele, filha” quando o Rodrigo cismava em me ~dibrar nas brincadeiras do quintal.

Ele é a minha maior referência e, quando eu estou em um jogo de futebol, especialmente do São Paulo, eu sinto que estou perto do meu pai. Já faz alguns anos que não vamos ao Morumbi juntos, mas é impossível vestir a camisa do meu time e não lembrar do meu pai, o cara que me ensinou a ser a torcedora que sou (talvez falando um pouco menos palavrões que ele).

A presença do meu pai no meu imaginário esportivo de criança é algo tão forte e tão marcante que eu espero, do fundo do coração, que todas as meninas possam sentir o mesmo estímulo que eu tive de seus pais. Que eles deixem suas filhas fazer o que quiserem, seja brincar de boneca (algo que eu também fiz) ou de lutar judô, andar de patins, fazer ballet ou jogar futebol. Que eles possam mostrar a bola como uma companheira para as meninas. E deixo aqui uma dica: para evitar bagunça e quebradeira dentro da sala de casa, usem almofadas no lugar da bola e façam as cortinas como redes do gol. Meu pai sempre brincou dessa forma comigo e era maravilhoso!Morumbi

Obs: Neste Dia dos Pais, fui ao Morumbi com meu irmão (foto ao lado). Meu pai mora a 700km da nós, mas antes de pisar no estádio, falamos com o velho por telefone e presenciamos uma vitória suada do nosso Tricolor em cima do Cruzeiro. Fica aqui a lembrança e uma vitória de presente pra esse baita pai que é o Seu Toninho!

 

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