Futebol Feminino

De volta pra “casa”: O primeiro dia de Formiga na Bahia

*Por Juliana Lisboa, direto de São Francisco do Conde (BA)

Lá pelo meio do coletivo do São Francisco, o primeiro de Formiga no time baiano, perguntei para as jogadoras poupadas o que elas achavam de treinar no mesmo clube que a jogadora da seleção brasileira. “Um privilégio”, disse a meia Vivian, de 18 anos, sem desgrudar os olhos do campo. A boca continuava aberta, como se procurasse mais palavras, mas nada vinha. “É, um privilégio”, repetiu a atacante Dara, de 19.

Formiga nunca jogou pelo São Francisco, que, com 15 títulos consecutivos, é o maior campeão baiano de futebol feminino. Nascida em Salvador, ela saiu do estado ainda muito menina – 13 anos! – para jogar profissionalmente. Aos 38, às vésperas de disputar a sexta Olimpíada, a jogadora mitológica volta à Bahia para reforçar a equipe na segunda fase do Campeonato Brasileiro. Antes disso, no sábado, participa do amistoso com o Ypiranga, da cidade de Irecê.

FORMIGA. MEIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL FEMININO, TREINA EM SÃO FRANCISCO DO CONDE, TIME QUE VAIAJUDAR A DEFENDER NA SEGUNDA FASE DO CAMPEONATO BRASILEIRO DA MODALIDADE Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 15/03/2016
Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Formiga faz seu primeiro treino na Bahia

Além de ajudar o São Francisco a avançar às semifinais, Formiga ainda se propõe a trazer mais visibilidade ao futebol feminino na Bahia.

“Eu nunca joguei no São Francisco, mas sei o quanto torceram por mim aqui no time e na Bahia em geral. Saí de Salvador muito novinha, então, para mim, é muito importante voltar para cá nesse momento. Apesar de não ter jogado aqui, conheço muitas jogadoras, como a Claudinha (meia) e a Mirian (goleira)”.

De volta ao treino: Formiga demorou para se apresentar ao jogo. A meia parecia mais interessada em estudar a forma das colegas se entenderem do que impor seu ritmo acelerado. Até a hora que saí – infelizmente não pude assistir tudo! – a jogadora, tão acostumada a chamar a responsabilidade em campo, praticamente não tocou na bola.

O que não significa que sua participação não tenha sido importante. Sei que comparar uma jogadora veterana da seleção brasileira com meninas ainda amadoras não é lá muito justo, mas algumas coisas são bem visíveis. A primeira delas é a constituição física: mesmo magrinha, Formiga é puro músculo, e bem resistente a lesões. O próprio técnico do São Francisco, Mario Augusto Filgueiras, confessou que ainda perde atletas por esse motivo, e que muitas vezes está ligado à falta de massa magra.

“Algumas já chegam machucadas por causa do número de campeonatos que disputam e, também, da prática do futsal, que tem muito mais impacto do que o futebol de grama”, completou o treinador. Mesmo com preparador físico e sessões de musculação, várias meninas demoram para ganhar resistência.

FORMIGA. MEIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL FEMININO, TREINA EM SÃO FRANCISCO DO CONDE, TIME QUE VAIAJUDAR A DEFENDER NA SEGUNDA FASE DO CAMPEONATO BRASILEIRO DA MODALIDADE Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 15/03/2016
Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE 

Outra coisa que chama atenção é a técnica da jogadora. Ela corre que nem maratonista, com os pés bem levantados atrás, o que proporciona mais impulso e economiza no gasto de energia – talvez esteja aí o segredo de Formiga correr o campo feito uma maluca!

No mais, o carisma da jogadora é algo que impressiona. Eu não esperava que tanta gente fosse lá cumprimentar a veterana. Fiquei surpresa e muito feliz quando o motorista do jornal em que trabalho pediu para tirar foto com ela. Além dele (e eu, claro!) foram funcionários do estádio municipal de São Francisco do Conde, atletas e colegas de imprensa.

Não sei se é otimismo demais da minha parte achar que esse ‘fã-clube’ de uma jogadora pode sinalizar dias melhores para o futebol feminino, mas se esse termômetro indicar alguma coisa, talvez mais gente, em breve, encare como privilégio prestigiar atletas dessa grandeza.

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