Futebol Feminino

De campo de areia à melhor estrutura de futebol feminino do Brasil: 5 motivos que fizeram o Santos campeão brasileiro

santos_campeao
Santos venceu o Corinthians por 2 a 0 na Vila e 1 a 0 em Barueri e conquistou o título. Foto: Roberta Nina (dibradoras)

O título brasileiro conquistado na semana passada não veio à toa. O Santos é um dos poucos clubes que trata o futebol feminino com o respeito que a modalidade merece. As Sereias da Vila contam com a melhor estrutura do Brasil entre as equipes femininas, e o troféu da última quinta-feira veio para coroar o trabalho sério que vem sendo feito no time santista.

Mas nem sempre foi assim. O clube que já contou com estrelas como Marta e Cristiane também já treinou em “campo” de areia, em gramado bem esburacado e com uniforme masculino. Muita coisa mudou principalmente na última década, desde que o atual presidente Modesto Roma Júnior – que antes havia sido diretor de futebol – assumiu o compromisso de levar a sério o futebol feminino do Santos.

Não por coincidência, as próprias Sereias articularam uma camisa especial de comemoração do título brasileiro com os dizeres “Obrigado Modesto”. Nas palavras da artilheira da competição, a argentina Sole James, ele é quem “faz a diferença” no projeto do Santos.

“Não tenho palavras pra agradecer a esse homem. Foi quem me trouxe, que me deu uma estrutura que nunca tive no futebol feminino. Eu joguei em dois times aqui antes, acho que o Santos tem esse homem, que ama o feminino e faz muita coisa para a modalidade. Dá toda a estrutura, igual à do masculino. Ele que faz a diferença”, afirmou.

sole
Camisa “Obrigado Modesto” foi iniciativa das jogadoras para agradecer ao presidente santista pelo apoio ao futebol feminino. Foto: Roberta Nina (dibradoras)

Mas como nada é por acaso, resolvemos contar aqui os “segredos” que fizeram o Santos alcançar o título de campeão brasileiro de 2017.

1. Evolução

O futebol feminino existe no Santos desde 1997, mas teve de fechar as portas em 2012 por falta de verbas – o patrocinador saiu e não houve mais quem bancasse as jogadoras. Ainda assim, mesmo nos tempos áureos, o clube penava e oferecia condições bastante complicadas para as jogadoras.

Em entrevista às dibradoras, a própria Marta revelou que treinava em campo de terra batida quando jogou no Santos (entre 2009 e 2010) – ela, que já era a melhor do mundo à época.

“Lógico que o futebol feminino teve anos difíceis, campos de terra batida, cheio de buraco, sem grama. Tivemos muitos anos difíceis, mas a gente vai crescendo”, admitiu Modesto Roma, responsável por reerguer o projeto do futebol feminino em 2007 no clube.

A zagueira Alline Calandrini esteve no Santos desde o início desse projeto e conta que, na época, o que as atletas ganhavam do clube era apenas o uniforme – os que sobravam do masculino, que, naturalmente, ficavam enormes para elas.

“O Santos não dava nada além disso. A prefeitura era quem bancava, dando R$ 5 mil para o técnico dividir com as jogadoras. Não dava R$ 200 para cada uma. A gente treinava na areia, depois treinávamos num campo em São Vicente e íamos até lá de bicicleta. Eram quase duas horas pedalando pra chegar para o treino”, contou a atleta em entrevista ao podcast das dibradoras.

“O campo, vocês não têm noção, era alto, era baixo, tinha várias irregularidades, era muito difícil.”

A situação, segundo Calan, ficou assim em 2006, mas começou a mudar em 2007, depois de elas conquistarem o Paulista e a Liga Nacional (mesmo nessas condições). O Santos, então, quis fazer um jantar de premiação para as jogadoras – e foi aí que elas perceberam: era a chance que estavam esperando.

maria_santos
Maria com a taça de campeã brasileira. Foto: Roberta Nina (dibradoras)

 

“A gente sabia que era essa nossa única oportunidade. Lembro que a gente fez uma força-tarefa, cada uma fez escova na outra, emprestou vestido. A gente não tinha esse lado vaidade, levamos salto, brinco, a gente tinha que conquistar os velhos, de algum jeito, pra quebrar a imagem que eles tinham do futebol feminino. Eles tinham uma imagem feia da gente, tivemos que mostrar o lado feminino. A gente sabe que tem clube que tem preconceito com a modalidade porque acha que é algo muito masculinizado.”

A partir daí – e com grande apoio de Modesto Roma, diretor de futebol do Santos à época -, as mulheres foram conquistando pouco a pouco seu espaço no clube.

“Ganhamos o uniforme, passamos a treinar no campo do clube, começamos a ir almoçar e jantar no refeitório…Aí a prefeitura saiu e quem bancou a gente foi o Santos. Foi tudo aos poucos, nós começamos a ser tratadas como atletas”, contou Calan.

O projeto, porém, fechou suas portas em 2012, sob a gestão de Luís Álvaro Oliveira RIbeiro (o famoso Laor) por “falta de verba” – foi o argumento usado na época – e só retornou à ativa em 2014, já sob a gestão de Modesto na presidência. Ele, então, tratou de fazer evoluir a modalidade no clube.

santos_comemora
Foto: Roberta Nina (dibradoras)

Neste ano, Modesto inaugurou um alojamento todo equipado para as jogadoras, anunciou a criação de uma categoria de base e reforçou a profissionalização das atletas, que hoje contam com toda a estrutura do masculino:

“Hoje temos uma estrutura melhor, uma comissão técnica profissional montada completa só para o feminino, o departamento médico todo a disposição delas, alojamento de primeira linha, jogadoras profissionais, com registro em carteira… isso é evolução”, afirmou Modesto às dibradoras.

A evolução culminou no título conquistado no Brasileiro em cima do Corinthians. Alline Calandrini teve de assistir à final do banco – ela se machucou no início do ano e teve de passar por cirurgia no joelho, o que a tirou de toda a temporada -, mas não deixou de comemorar muito com suas companheiras.

2. Continuidade

O Santos recomeçou o projeto do futebol feminino em 2015 mas passou os dois primeiros anos sem nenhuma conquista. Mesmo montando um time de peso, com jogadoras de qualidade, a equipe santista acabava sempre batendo na trave, eliminada das competições antes mesmo de chegar na final.

Mas nem por isso o Santos desistiu da modalidade. Assim como fizera na década de 2000, o clube manteve o projeto e foi fortalecendo seu investimento nele. O grande diferencial talvez tenha sido justamente esse: acreditar no potencial do futebol feminino.

maurine
Foto: reprodução instagram Maurine

E os frutos estão sendo colhidos agora. Na semifinal, as Sereias da Vila levaram quase 8 mil pessoas para a Vila Belmiro. Na final, o estádio lotou, com 16, 17 mil pessoas lá dentro e outras centenas lá fora, sem conseguir entrar. O troféu veio e agora a expectativa é que o projeto continue para valorizar o esforço de todos os envolvidos no sucesso das Sereias.

Agora é trabalhar com seriedade e não deixar a peteca cair. É saber trabalhar a imagem de todas as meninas com o futebol feminino e crescer. A gente tem o Paulista pela frente, Libertadores e colocando o futebol feminino no lugar que ele merece”, disse às dibradoras Mateus Roma, filho de Modesto e companheiro dele na luta pelo futebol feminino.

Um dos planos do Santos para garantir que o projeto não termine – especialmente porque esse é um ano de eleição, e Modesto pode sair – é a criação das categorias de base no futebol feminino.

“Você só consegue garantir a continuidade quando você cria uma estrutura com raiz, quando não tem raiz é fácil arrancar o mato. Então é isso que a gente está tentando criar: a raiz para que o futebol feminino possa ter um futuro”, disse Modesto.

vila
Vila Belmiro Lotada para a final contra o Corinthians. Foto: Ricardo Xis (@radiocoringao)

3. Respeito à modalidade

Departamento médico, psicólogos, nutricionistas, estrutura de treino, de academia, refeitório, alojamento…todos esses itens não deveriam ser considerados “diferenciais” na rotina de um atleta. São coisas básicas que qualquer jogador ou jogadora precisa para atuar em alto nível. E, por respeitar a modalidade como ela merece, o Santos providencia tudo isso.

O que o Santos proporciona é respeito às jogadoras. Nós temos uma infraestrutura que é o que elas merecem. E o reconhecimento dessas atletas ao trabalho do meu pai e de toda diretoria de futebol feminino vem fazendo é o reconhecimento de uma seriedade”, disse Mateus Roma.

“A gente tem que avançar muito no futebol feminino, infelizmente. Em 2011 foi o melhor momento do futebol feminino brasileiro com a Copa do Mundo e naquele ano acabou as Sereias. Foi uma interrupção muito triste. Agora, a gente não pode se lamentar, a gente tem que pensar daqui pra frente e cada vez mais crescer o futebol feminino e consolidar. É fazer ter 16 mil pessoas sempre na Vila Belmiro.”

santos_comemoracao
Foto: Divulgação Santos FC

4. Investimento

Com a consolidação do futebol feminino como parte intrínseca do Santos, o orçamento destinado a elas foi aumentando aos poucos. Atualmente, a folha salarial do time gira em torno de R$ 90 mil, a maior do Campeonato Brasileiro neste ano.

Mas mais do que dinheiro, o Santos proporciona ao time feminino a experiência de ser profissional, algo que é muito raro no cenário da modalidade. Isso inclui o pagamento de todos os direitos às jogadoras, carteira assinada e toda a estrutura que elas precisam para jogar.

É triste pegar as súmulas do jogo de hoje e ver que, de um lado, tem tudo com a letra P (menos as jogadoras de base), e do outro lado tudo com a letra A. A letra P é para as jogadoras profissionais e a letra A são das amadoras”, afirmou Mateus Roma.

“No jogo do Campeonato Paulista que teve aqui, Santos x Corinthians, eu estava ali acompanhando e a Aline Pellegrino (coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista) estava aqui também. Eu liguei pra Aline e falei: ‘aqui na escala dos árbitros, tá escrito que o jogo é amador’. E ela me respondeu ‘infelizmente o campeonato é amador’. A gente tem muito a caminhar, a gente espera que, independente de quem vier (no lugar do Modesto na presidência), se a gente se reeleger ou não, a gente espera que o futebol feminino seja valorizado, que se leve a sério.

santos_time
Foto: Divulgação Santos FC

5. Visibilidade

A última grande diferença do Santos com relação aos outros clubes de futebol feminino – especialmente comparando com outros times de camisa – é a visibilidade que ele proporciona às atletas.

É claro que a visibilidade da mídia tradicional ainda faz falta – as Sereias conquistaram o título na quinta e raríssimos foram os programas esportivos que mostraram isso na sexta -, mas o Santos tenta suprir isso fazendo sua parte. Matérias especiais com as jogadoras na TV Santos e até mesmo uma coletiva especial das jogadoras Maurine e Dani com o zagueiro David Braz foram ações que promoveram o time feminino neste ano.

“A gente foi conseguindo nosso espaço com conquistas, com visibilidade. Tinha um departamento de marketing também correndo atrás, divulgando a gente. Foi uma construção de imagem e de resultado pra gente chegar onde a gente chegou”, pontuou Calandrini.

santos_coletiva2
Coletiva de imprensa promovida no Santos com David Braz, Maurine e Dani (Foto: Divulgação Santos FC)

Agora, depois do título do Brasileiro, o Santos promoveu uma volta olímpica das jogadoras campeãs no Pacaembu, no intervalo do jogo do time masculino contra o Bahia. Além disso, ainda criou uma ação de marketing com a venda de copos comemorativos do título, no estilo daqueles que fizeram sucesso na Olimpíada e na Copa do Mundo no Brasil.

“A gente acredita que o que foi feito com o futebol feminino recentemente – de botar 30 mil pessoas em Manaus, de 7.500 na final, 16 mil na semifinal, é esse o trabalho que consolida o futebol feminino. Que não permite que o futebol feminino caia no esquecimento”, pontuou Mateus Roma.

Afinal, se o próprio time não acreditar e promover a modalidade, quem é que vai fazer isso por eles?

************************************************************************************************************

Assista os vídeos das finais do #BrasileirãoFeminino produzidos pela Santos TV:

Primeiro jogo da final – Vila Belmiro: Santos 2×0 Corinthians/Audax

Segundo jogo da final – Arena Barueri: Santos 1×0 Corinthians/Audax (vídeo pré e pós-jogo)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *