MMA

Cris Cyborg, a mulher invencível que está mudando a história do MMA feminino

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Crédito: Getty

O nocaute técnico que deu a vitória e o cinturão peso-pena do UFC para Cristiane Cyborg na madrugada deste domingo não foi só em cima da adversária Tonya Evinger. Foi em cima de todo o preconceito que ela já enfrentou no MMA e que, por muito tempo, a impediu de ter o reconhecimento que merecia no cenário internacional da modalidade.

No passado, Cyborg chegou a ouvir de Ronda Rousey que “era uma fraude”. Ouviu de Dana White, o chefão do UFC, que “parecia um homem”. E precisou esperar – e insistir muito – para conseguir sua categoria e seu espaço na principal competição de MMA do mundo.

Ao vencer a americana Evinger no terceiro round, a brasileira que leva no apelido o nome de “biônica” (e que é considerada por muitos uma ‘mulher-máquina’) deixou de vez sua marca na história do UFC.  Ela não sabe o que é perder no MMA profissional – são 18 lutas e 18 vitórias -, mas até agora não havia tido a chance de disputar um cinturão. Isso porque sua categoria, do peso-pena, enfrentou muita resistência no UFC e só foi finalmente criada agora – por causa dela.

Assim, a paranaense se junta à baiana Amanda Nunes como a segunda brasileira campeã do UFC e ostenta agora o tão sonhado cinturão.

Mas entre socos e nocautes, Cyborg teve de persistir muito para conquistar o seu espaço. Hoje, porém, é possível dizer que ela fez a diferença para que o MMA feminino chegasse em outro patamar.

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Crédito: Divulgação UFC

Cyborg sempre gostou de esportes e jogava handebol na infância, mas descobriu o MMA já na juventude e decidiu investir nele, à revelia da mãe. Sua primeira luta foi em 2005 e lá sofreu sua única derrota antes de se profissionalizar oficialmente. Logo se mudou para os Estados Unidos em 2008 para se dedicar ao esporte e foi despontanto no cenário do MMA como uma das principais lutadoras do mundo.

Juntamente com Ronda, ela foi uma das pioneiras que brigou para que o UFC criasse categorias femininas. Mas ao contrário da americana, ela não se contentou com o mínimo oferecido pelo UFC (a criação de uma categoria peso-galo) – e virou grande desafeto de Ronda por conta disso. Em 2012, quando Dana White anunciou a luta pelo cinturão até 61,5kg feminino com a atleta dos Estados Unidos, Cyborg não quis baixar seu peso para poder fazer parte dessa categoria.

Posteriormente, ainda foi criado o peso-palha feminino (até 52,2kg), mas a categoria reivindicada pela brasileira – peso-pena, até 65,7kg – ainda era ignorada. Enquanto isso, ela foi conquistando mais vitórias no Invicta FC e firmando seu nome como uma das maiores lutadoras do MMA, assim como Ronda Rousey.

Até que em 2015, ela firmou seu contrato com UFC e passou a fazer lutas de peso casado. Mas não desistiu do sonho de criar mais uma categoria feminina na competição e conquistar o cinturão.

“Eu não posso ser só mais uma no UFC, se eu disser ‘amém’ para tudo, vou ser mais uma. Eu quero fazer a diferença, melhorar o esporte. Não quero ser só a campeã do mundo, quero fazer a diferença, assim como pedi para que as mulheres tivessem mais categorias no UFC”, disse ela há duas semanas em coletiva de imprensa por vídeoconferência.

Agora, como campeã, Cyborg deixa todos os seus fantasmas para trás. Ela, que foi bastante criticada após o episódio em que foi pega no doping em 2012 e acabou suspensa do esporte por um ano, conseguiu se reerguer de maneira triunfal e ainda aproveitou o momento para reforçar suas conquistas e o preconceito vencido.

“Cris Cyborg vs The World”, era o que dizia a camiseta que vestiu em suas redes sociais em posse do cinturão, no maior estilo “contra tudo e contra todos”.

“12 anos invicta! O UFC finalmente pode dizer que a melhor lutadora do mundo é campeã. Obrigada, Dana White”, celebrou ela.

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Crédito: Divulgação Cris Cyborg

Mas o mais importante de tudo é a conquista para o esporte feminino. O MMA delas por muito tempo foi sinônimo de Ronda Rousey, mas há muito tempo ele não é só Ronda. São muitos nomes surgindo e fazendo história – e tanto Amanda Nunes, quanto Cris Cyborg fazem parte dela.

“Eu acredito que o MMA feminino não pode ser só um rosto, tem várias atletas. Fizeram muito o rosto do MMA ser a Ronda, mas ela perdeu e não voltou mais. Quando a gente faz um rosto e ele sai, acaba ficando um posto vago. Eu estarei ali com o cinturão, representando todas as mulheres, assim como as outras lutadoras representam as mulheres. Acredito que o rosto do MMA são todas as meninas”, pontuou a brasileira.

Cyborg conseguiu muito mais que um título – ela conseguiu uma nova categoria para o UFC feminino e mais espaço para elas na competição. Independente dos resultados, seu nome ficará para sempre na história do MMA.  

“Vou continuar lutando, se eu achar que está errado, eu não vou ficar calada. Acredito que eu tenho que melhorar o esporte para as atletas que virão no futuro. É muito egoísmo pensar no agora e não considerar o futuro para as que ainda virão.”.

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