Futebol Feminino

A contratação de Robinho não é uma questão técnica – é uma questão moral

No final de novembro do ano passado, o atacante Robinho, à época no Atlético-MG, foi condenado em primeira instância por um crime de estupro cometido na Itália em 2013. O ato teria sido praticado por outras cinco pessoas, e a Justiça italiana entendeu que o jogador brasileiro seria culpado por “violência sexual em grupo” contra uma jovem albanesa.

No primeiro dia de 2018, Robinho publicou uma despedida do time mineiro em suas redes sociais agradecendo pela oportunidade de ter vestido a camisa do clube. Não foi por falta de interesse do Galo em mantê-lo – na realidade, houve uma proposta de renovação feita a ele, mas com uma redução salarial grande, que fez com que o atacante optasse pela saída.

Talvez o tenha feito por saber que a condenação por estupro na Itália não o atrapalharia em nada para encontrar um novo emprego. O Santos foi o primeiro a manifestar interesse na volta do ídolo que brilhou com a camisa alvinegra em 2002 e 2010. E, nesta segunda-feira, a imprensa esportiva noticiou que o São Paulo estaria estudando a contratação do atacante, que viria para repor a perda de Lucas Pratto para o River Plate.

Segundo informações de conhecedores dos bastidores do Atlético-MG, Robinho ganhava um salário de R$ 700 mil por lá. Foi oferecida – e negada – na renovação uma redução para R$ 400 mil. O que mostra que o clube que ficar com ele provavelmente estará disposto a pagar cerca de R$ 500 mil mensais ao atacante (valor equivalente ao que recebem alguns dos melhores jogadores que atuam no Brasil).

O que parece estar passando despercebido para o São Paulo, o Santos e qualquer outro grande clube que apareça nesse meio tempo, é que eles estão oferecendo um salário de MEIO MILHÃO de reais por um homem condenado a 9 anos de prisão por crime de estupro.

A comissão técnica do São Paulo já teria aprovado a vinda do atacante com o aval de Dorival Junior, que trabalhou com Robinho no passado. Jair Ventura, comandante do Santos, também já disse que “gostaria de contar com ele” e que é um atleta que “dispensa comentários”.

Mas o que se esquece é que a discussão sobre contratar ou não contratar Robinho precisa ir muito além da questão técnica. Precisa levar em conta muito mais do que as pedaladas nos adversários e os belos gols do atacante. Precisa levar em conta a conta – não a financeira, mas a conta moral. Como se sentiriam as torcedoras ao verem seu time do coração fazer um contrato milionário com um jogador condenado por crime de estupro? – e um jogador que segue ignorando de todas as formas essa condenação, sem sequer se manifestar sobre ela.

Como já dissemos aqui, não cabe a nós dizer se Robinho é culpado ou não – por enquanto, isso coube a Justiça italiana que entendeu que sim. Ele pode, sim, ser inocente e terá os recursos disponíveis do país para comprovar isso. Mas, por ora, os fatos são que Robinho é um atacante condenado na Justiça por um crime grave cometido contra uma mulher. E, ainda assim, segue aparentemente podendo escolher onde vai jogar e qual salário astronômico irá faturar.

Acho interessante os que vêm a público defender a “segunda chance” para o craque das pedaladas. Provavelmente os mesmos que fizeram coro pela “oportunidade de ressocialização” para o goleiro Bruno (condenado pelo assassinato brutal da ex-mulher, Eliza Samúdio) quando este foi contratado pelo Boa no ano passado. Mas não vejo a mesma complacência das pessoas quando os casos de segunda chance são fora do futebol.

Quantos ex-presidiários ou condenados à prisão você conhece que conseguiram um emprego facilmente? Há alguns anos, conheci um que, após deixar a cadeia por crime de roubo, tentou todas as vagas possíveis, incluindo uma de porteiro no prédio em que morava um desembargador que advogou abertamente por ele, pedindo o voto de confiança dos moradores e, ainda assim, foi rejeitado.

A ressocialização deveria ser um direito de todos. Mas também deveria ser direito das mulheres andar na rua sem medo de ser estuprada, beber seus drinks sem medo de ser abusada, usar as roupas que quisesse sem medo de ser apalpada.

O futebol precisa deixar de ser exceção. Se Robinho cometeu ou não cometeu crime, que se esforce para comprovar a inocência e reverter a condenação. Que os clubes, a imprensa, e o próprio jogador não se esqueçam de que há uma mulher vítima de estupro e que Robinho deve explicações – se não aos times que o querem empregar, ao menos às torcedoras e aos torcedores – por isso. As pedaladas são bem-vindas contra os adversários dentro do campo, mas não contra a dignidade das mulheres fora dele.