Futebol Feminino

Com o apoio de Sissi e Formiga, jogadoras e veteranas fazem apelo à CBF por mudanças no futebol feminino

Há exatas duas semanas, a CBF anunciou a demissão da técnica Emily Lima da seleção brasileira, e a medida repercutiu bastante na mídia nacional e internacional. Com a confirmação da volta de Vadão para o comando da equipe – o mesmo treinador que havia sido demitido há 10 meses -, uma mobilização de ex-atletas e lendas do futebol começou para pedir voz às mulheres dentro da confederação.

Nesta sexta-feira, uma carta assinada por nomes do calibre de Formiga (a jogadora que mais vestiu a camisa da seleção brasileira entre homens e mulheres e que acumula mais de 20 anos na equipe), Sissi (a craque que brilhou pelo Brasil na década de 1990), Cristiane (a maior artilheira da história das Olimpíadas, entre homens e mulheres), Marcia Tafarel (uma das pioneiras da seleção), Juliana Cabral (a capitã da prata em 2004), entre outras, foi divulgada com um apelo à CBF para colocar mulheres em cargos de decisão – especialmente no futebol feminino.

Com o apoio de outros grandes nomes internacionais, como Mary Harvey, goleira campeã olímpica pelos Estados Unidos e ex-diretora de desevolvimento do futebol na Fifa (a primeira mulher a ocupar um cargo de tamanha importância na entidade), Hope Powell, treinadora da seleção feminina da Grã-Bretanha na Olimpíada de 2012, Moya Dodd, ex-jogadora da Austrália e uma das primeiras mulheres a fazer parte do Comitê Executivo da Fifa, e Mayi Cruz Blanco, ex-chefe do Departamento de Desenvolvimento do Futebol Feminino na Fifa, as mulheres lendárias do futebol se uniram fora dos gramados para tentar, no maior dos “clichês”, marcar o mais bonito de todos os gols de suas carreiras.

O movimento é forte e chegou a repercutir em um dos jornais com maior audiência do mundo – o New York Times escreveu a matéria “Jogadoras de futebol do Brasil em revolta contra a Confederação” falando justamente sobre a crise da modalidade que a CBF insiste em ignorar.

Elas citam o “péssimo tratamento das mulheres como líderes e jogadoras” pela CBF, o “fracasso dela em providenciar oportunidades relevantes para as jogadoras avançarem até posições de liderança”, a “falta de mulheres” nesses papéis na entidade, e “o fracasso em apoiar e estimular o desenvolvimento do futebol feminino em todos os níveis” e pedem que reformas sejam feitas em prol da igualdade de gênero no futebol.

Juntas, elas tentam fazer coro a todas as mulheres que já passaram pela seleção e tiveram suas vozes silenciadas pela CBF – como aconteceu de novo recentemente, quando 24 das 26 jogadoras do Brasil assinaram uma carta pedindo a permanência da comissão técnica e foram ignoradas mais uma vez pelos homens que tomam as decisões por elas e para elas, sem se importar efetivamente COM elas.

No documento divulgado hoje, as ex-jogadoras sugerem algumas mudanças, como a inclusão de “mulheres em todos os níveis de tomada de decisão, especialmente no seu Conselho”, da mesma maneira que a FIFA passou a fazer nas reformas implantadas no ano pasado. Além disso, elas pedem a “criação de um Comitê de Futebol Feminino dentro da CBF” e ressaltam: composto de experts em futebol feminino.

A seleção de prata de 2004 – Juliana Cabral, a capitã, assinou também a carta

É importante destacar sempre isso: o futebol feminino precisa ser comandado por quem entende de futebol feminino. E não é à toa que o adjetivo do gênero é sempre usado aí quando se fala do futebol delas. Talvez um sonho distante seja o de não precisar mais usá-lo, de termos o mesmo futebol igual para tod@s. Mas hoje a realidade é bem distinta. Trabalhar com o futebol deles é bem diferente e exige o conhecimento das questões específicas da realidade deles. Não por coincidência, quem coordena o futebol masculino na CBF é Edu Gaspar, um ex-jogador e ex-dirigente de um clube grande do futebol masculino.

Mas no feminino não acontece o mesmo. O coordenador da modalidade na CBF é Marco Aurélio Cunha, que sempre se gabou de seus 30 ou 40 anos de experiência no futebol – o gênero aqui ele parece ignorar, da mesma maneira que faz com os pedidos das jogadoras. Ninguém discute aqui o conhecimento dele sobre o futebol. O que é discutível (e muito) é seu conhecimento sobre a realidade das mulheres nele.

Agora, com a volta de Vadão, há um total de zero especialistas (ou experts, pra soar mais chique) de futebol feminino na CBF. Zero. Vadão, apesar de ter trabalhado por dois anos na seleção feminina, chegou sem qualquer conhecimento sobre a modalidade. Provavelmente conhecendo no máximo nome de uma ou duas jogadoras – Marta e, quem sabe, Cristiane. Trouxe uma comissão técnica inteira formada por homens que também nunca trabalharam com o futebol feminino.

Com ele no cargo, o Brasil foi eliminado nas oitavas-de-final na Copa do Mundo e amargou um quarto lugar na Olimpíada disputada em casa. Mas mesmo diante de tudo isso, foi chamado novamente para formar uma equipe inteira de homens comandando o futebol que é (ou deveria ser) delas.

Já imaginaram se algo similar acontecesse no futebol masculino? Se colocassem, digamos, Emily Lima para ser a coordenadora no lugar de Edu Gaspar? Sissi para ser treinadora da seleção de Neymar?

Provavelmente, se algo desse nível acontecesse no masculino, a revolução bateria à porta da CBF. E está na hora de acontecer exatamente isso no futebol feminino: uma revolução.

Não dá mais para abaixar a cabeça e aceitar que homens pouco preocupados com o desenvolvimento do futebol delas ditem as regras do jogo. E é isso que as  veteranas da seleção e  as craques que honraram essa camisa e passaram tantas dificuldades para ocuparem seu espaço no futebol, estão fazendo agora.

É preciso que todas nos juntemos a elas para ecoar esse grito que está entalado há tanto tempo. RESPEITO PARA O FUTEBOL FEMININO.

Cristiane foi uma das atletas que anunciou aposentadoria após a demissão de Emily

Vejam a carta na íntegra aqui (e em inglês aqui):

Carta aberta das veteranas do futebol feminino endereçando a situação atual no Brasil
Nós, ex-jogadoras da seleção brasileira de futebol feminino (SBFF), estamos muito tristes e angustiadas pelos recentes acontecimentos na CBF no que concerne o futebol feminino e a nossa seleção brasileira, dentre os quais:

  • O péssimo tratamento das mulheres como líderes e jogadoras por muitos anos. Esses são apenas alguns exemplos recentes: a técnica Emily Lima, apesar do apoio das jogadoras, expressado numa carta endereçada à CBF, datada de 19 de setembro, foi abruptamente demitida; e cinco jogadoras de destaque – Cristiane, Rosana, Andreia Rosa Francielle e Maurine – se aposentaram, exaustas dos anos de desrespeito e falta de apoio.
  • O fracasso da CBF ao longo de vários anos em providenciar oportunidades relevantes para as jogadoras avançarem até uma posição de liderança – mesmo quando nós ganhamos nossas qualificações de técnicas, a um alto custo e com o encorajamento da CBF. Até o presente momento, nós tivemos uma ex-jogadora da SBFF (Daniela Alves) trabalhando com a configuração da SBFF, e, apesar das promessas, apenas Emily Lima teve a chance de ter um papel de liderança na seleção feminina.
  • A falta de mulheres em papéis de liderança na CBF; a ausência de qualquer estrutura dentro da CBF que permita que mulheres façam parte da gerência e da administração do futebol; e a ausência de voz daquelas que vivenciaram o futebol feminino, em decisões sobre o futebol feminino.
  • O fracasso em apoiar e estimular o futebol feminino em todos os níveis do esporte, desde a grama do campo até o Brasil como um todo.

Nós, as jogadoras, investimos anos das nossas próprias vidas e toda a nossa energia para construir essa equipe e criar toda essa força que o futebol feminino tem hoje. No entanto, nós e quase todas as outras mulheres brasileiras, somos excluídas da liderança e das tomadas de decisão relativas à nossa própria equipe e ao nosso esporte.

Nós convidamos a CBF a trazer reformas de igualdade de gênero para o Brasil.

No ano passado, a FIFA fez grandes reformas, como a inclusão obrigatória de mulheres em seu próprio Conselho, e a adição de mulheres em todos os níveis de administração do futebol. Membros como a CBF são obrigados a levar em conta a importância da igualdade de gênero na composição de seus órgãos legislativos.

A CBF ainda não tem nenhuma mulher no seu conselho de administração. Não há quase nenhuma mulher na sua assembleia legislativa e administração senior. Não há nenhum caminho relevante para ex-jogadoras entrarem na CBF e ajudarem a gerir o próprio jogo delas.

Nos últimos anos, nós temos vivido e assistido horrorizadas enquanto as mulheres brasileiras foram negligenciadas pela CBF. Os eventos da última semana — onde as vozes das jogadoras foram ignoradas, e algumas agora estão se aposentando em protesto — são o resultado de um longo histórico de portas fechadas. Enquanto alguns validamente escolhem permanecer dentro da equipe e buscam mudar a partir de dentro, o fato de jogadoras terem que fazer tal escolha traz à tona alguns problemas mais graves. Isso nos deixou decididas a falar sobre isso e exigir uma mudança. É chegado o tempo da CBF rever as suas práticas, em linha com as reformas e os princípios da FIFA.

 

Especificamente nós pedimos a CBF que:

(1) Respeite as reformas internacionais de governança, incluindo mulheres em todos os níveis de tomada de decisão, especialmente no seu Conselho.
(2) Construa um caminho inclusivo para o jogo para as mulheres que praticaram o esporte durante toda a vida delas, por meio da:

  1. a) Criação de um Comitê de Futebol Feminino dentro da CBF, composto de experts em futebol feminino, e que tenha poderes para construir a estrutura de como o futebol feminino deve ser desenvolvido, organizado e gerenciado no Brasil.
  2. b) Criação de caminhos relevantes para mulheres ocuparem posições administrativas, gerenciais e como técnicas, dentro da CBF.

Nós somos gratas pela oportunidade de ter jogado pelo nosso amado país por tanto tempo. Nós permaneceremos gratas pelo resto das nossas vidas pela chance de servir nossa nação e nossa equipe, e de chegar tão perto de realizar nosso sonho de sermos campeãs do mundo.

As ações que estamos tomando agora são motivadas por um desejo de que todas as mulheres e meninas que seguem os nossos passos possam ser capazes de alcançar mais do que nós, dentro e fora do campo.

Marcia Tafarel
Sissi do Amor Lima
Juliana Ribeiro Cabral
Miraildes Maciel Mota (‘Formiga’)
Cristiane Rozeira
Francielle Manoel Alberto (‘Fran’)
Rosana dos Santos Augusto
Andréia Rosa de Andrade
Player Alumni of the Brazil WNT

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