Futebol Feminino

Choro, nervos à flor da pele e lição de fair-play: os bastidores da semifinal entre Corinthians x Rio Preto

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(Crédito da foto: Corinthians Audax)

Os berros da atacante Darlene ecoavam pelo hall de entrada da Arena Barueri, onde a alguns metros dali, Corinthians e Rio Preto disputavam uma vaga na final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Principal jogadora do time do interior, ela foi expulsa logo após o gol corintiano e não conteve sua irritação com o árbitro Rodrigo Gomes.

“É um absurdo o que estão fazendo, eu não fiz nada. Estão acabando com o jogo”, gritava ela, gesticulando para a televisão, que mostrava a partida no SporTV.

Corta. Minutos atrás, o jogo transcorria equilibrado, com boas chegadas das duas equipes e uma tensão no ar a cada falta que juiz marcava, parando a partida. Foi quando, em uma bola de escanteio, a estrela da zagueira Pardal brilhou mais uma vez em jogos decisivos – ela, que marcou um dos gols do Corinthians na final da Copa do Brasil em 2016, foi a autora do gol salvador corintiano diante do Rio Preto, de cabeça. O primeiro jogo foi 2 a 1 para a equipe do interior, mas o Corinthians levava a vantagem no agregado pelo gol marcado fora de casa.

O gol da corintiana foi marcado aos 16 minutos do segundo tempo e, no instante seguinte, quando as jogadoras do time da casa ainda comemoravam, foi possível avistar um cartão vermelho sendo erguido no meio-campo. Era para Darlene, a principal atacante do Rio Preto.

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Pardal comemora o gol da classificação (Crédito: Divulgação Corinthians Audax)

Segundo a súmula, a jogadora teria dito “eu vou acabar com a minha carreira, mas eu dou na sua cara”. E, após sua expulsão, teria cuspido no rosto do árbitro.

Darlene não conteve sua revolta pelo cartão vermelho. Ela passou muito tempo ainda gritando contra a arbitragem quando já estava no hall de entrada da Arena, vendo o jogo pela televisão. Às dibradoras, ela explicou sua irritação.

“Acho que a gente sempre vem lutando, chegando nas finais…” – ela não conteve o choro. Ainda engasgada e visivelmente emocionada, prosseguiu: “É bem complicado, porque a gente luta, luta, luta, para uma pessoa chegar e acabar estragando tudo. A gente escutou muita coisa já. Fomos campeãs em 2015, vice do Brasileiro em 2016, campeãs do Paulista em 2016 e chegamos na semifinal em 2017 e a gente nunca foi respeitado.”

O jogo ficou ainda mais tenso, quando Edilaine, aos 32 minutos do segundo tempo, também foi expulsa por reclamação. No banco, era possível ver o nível de irritação das atletas do Rio Preto, que protestavam contra cada apito da arbitragem. E dentro de campo, o nervosismo também era perceptível.

A partida seguiu com boas chances para o Corinthians e algumas chegadas do Rio Preto, que tentava se virar com duas a menos em campo. O estádio estava quase vazio, mas a torcida corintiana presente se fazia ecoar pelas arquibancadas com os tradicionais cantos usados em jogos do masculino. E ela pode celebrar com maestria o apito final do jogo, que confirmou a vaga para o Corinthians na final.

As jogadoras correram na direção da torcida para comemorar. Menos uma delas – Byanca, a artilheira do campeonato, que saiu em disparada para o vestiário. A jovem atacante havia aplicado um de seus ~dibres tradicionais antes do fim do jogo, a lambreta, na defensora do Rio Preto, que não gostou nem um pouco e já estava prestes a tirar satisfação com ela. Rápida na corrida, a artilheira corintiana se abrigou no vestiário para evitar a confusão.

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A lambreta de Byanca Brasil (Crédito da foto: Corinthians Audax)

No campo, teve mais uma jogadora do Rio Preto que acabou expulsa por reclamação depois do fim do jogo. Suzana foi protestar contra o árbitro, que saía escoltado pela polícia, e acabou levando o vermelho.

A reportagem entrou em contato com Regildênia de Holanda Moura, a quarta árbitra da partida, que defendeu a atuação da arbitragem no jogo.

“No jogo de ontem, o árbitro foi impecável. Não tem o que falar, ela (Darlene) reclamou, falou aquilo para ele. Quem viu na televisão, sabe. Admiro muito a história do Chico, da Doroteia, porque não é fácil o futebol feminino, é uma garra muito grande que eles têm. Mas é um time conhecido por perder a cabeça. A Darlene é jogadora de seleção brasileira, e ela cuspiu no árbitro, não tem o que dizer”, afirmou Regildênia.

Darlene, no entanto, garante que sua expulsão foi equivocada.

“Eu não vou dizer que foi no jogo (que ele errou). O gol foi um lance normal, a menina cabeceou e fez o gol. Mas na minha expulsão, ele errou. Eu tenho certeza que ele vai colocar a cabeça no travesseiro e Deus vai cutucar ele. Eu fiquei muito nervosa, eu jamais faria uma coisa dessas, pode perguntar para qualquer árbitro, eu reclamo, falo, mas em nenhum momento eu dirigi a palavra a ele. Eu fiquei muito nervosa. Normal do futebol. Ninguém gosta de perder, eu sou muito competitiva e não gosto”, disse às dibradoras.

Choro, comemoração e fair-play

Mas para quem achava que uma partida tensa dessas terminaria mal – ou “em porrada”, como se costuma dizer (e ver) no futebol masculino -, o fim da história foi um pouco surpreendente.

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O choro de Darlene após a partida; neste momento, ela estava na porta do vestiário do Corinthians, esperando para falar com as jogadoras (Crédito da foto: Bruno Stefano)

As confusões e críticas à arbitragem ficaram dentro de campo. O choro e a revolta do Rio Preto ficaram no vestiário. E o que se viu no corredor que interligava os lados dos dois times no estádio foi uma lição de fair-play.

Algumas jogadoras do Corinthians, como Grazi e Pardal, foram até a porta do vestiário do Rio Preto para acalmar os ânimos das colegas. Conversaram com a comissão técnica e não esconderam a solidariedade pelo momento triste da derrota.

Mas quem permaneceu ali até mais tarde pode ver o que talvez tenha sido o momento mais bonito da partida – que aconteceu depois dos 90 minutos.

A atacante Darlene, que por muito tempo esteve revoltada com o que aconteceu no jogo, saiu do vestiário do Rio Preto e ficou à espera da saída das jogadoras do Corinthians. Não, ela não queria briga. Queria pedir desculpas – pelas palavras, pelos xingamentos, pelo descontrole na saída do campo quando foi expulsa.

E o pai dela – que também é técnico do Rio Preto – já estava chamando a jogadora para o ônibus, quando ela insistiu: “Eu vou falar com as meninas, espera”.

Foi o técnico corintiano, Arthur Elias, que saiu do vestiário para conversar com a atacante rival. Em um abraço demorado, os dois deram a lição de fair-play que ficou da partida: o que acontece dentro de campo, fica dentro de campo. Darlene parabenizou aquele que foi seu ex-técnico pela vitória. Arthur agradeceu e elogiou a garra do time de sua ex-atleta. No fim, quem tem que vencer mesmo é o futebol e as amizades que ele traz.

Técnico finalista

Aos 35 anos, Arthur Elias mostra sua competência mais uma vez montando um time fortíssimo que, de novo, chega à final de uma competição nacional.

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No ano passado, em sua primeira temporada à frente do recém-formado projeto do Corinthians Audax, ele caiu na reta final do Brasileiro, mas foi à decisão da Copa do Brasil e faturou o título. Desta vez, quer ver a história se repetir no Brasileiro.

“Foi na raça, mas foi também no nosso trabalho da temporada inteira. A equipe vem construindo uma estrutura muito boa de forma de jogar, grupo muito unido”, disse às dibradoras ao término do jogo, quando ainda comemorava com suas atletas a classificação.

“No jogo em Rio Preto, nós não conseguimos fazer o que a gente treinou. Mas é a dificuldade do adversário também, respeito muito essa equipe do Rio Preto, o histórico que elas têm dentro do futebol feminino, a valentia dessas jogadoras, a qualidade. Vencemos um adversário muito duro. Acho que foram quatro grandes equipes que chegaram, grandes jogos, acho que não vai ser diferente na final. Um clássico que a gente espera lutar muito e merecer ser campeão, isso que é o mais importante.”

O treinador corintiano disse não ter visto o lance da expulsão de Darlene, nem ouvido o que ela teria dito ao árbitro, mas também deixou sua crítica à arbitragem.

“O que eu tenho dito bastante para a arbitragem é que a gente precisa ter um critério aqui no Brasil de deixar o jogo correr um pouco mais”, pontuou.

“O jogo lá em Rio Preto teve 160 reinícios, de falta, de laterais, isso atrapalha o que a gente quer ver de jogo bonito, mais jogado, vistoso. O Rio Preto perdeu um pouco a cabeça… mas elas já fizeram demais, né, estão chegando aí em todos os campeonatos nas finais, então deixa um pouquinho para nós.”

Do lado de dentro do vestiário, só o que se ouvira era comemoração. Os gritos de “Corinthians”, os tradicionais sambas reproduzidos na felicidade das jogadoras, que conseguiram uma classificação suada dentro de campo. Agora, a final vem em forma de clássico. Santos e Corinthians se enfrentam em dois jogos, sendo o primeiro já nesta quinta-feira, na Vila Belmiro, em um confronto que promete demais.

No último sábado, mais de 7 mil pessoas estiveram no estádio santista para acompanhar a bonita vitória por 3 a 2 sobre o Iranduba, que garantiu o Santos na final – no primeiro jogo, foram 25 mil em Manaus. Que venham mais estádios cheios, mais jogos bonitos e disputados, mais transmissões de TV e, com eles, a visibilidade que o futebol feminino merece.

One Comment

  1. Parabéns ao corinthians. Essa revolta das jogadoras do Rio Preto foi desnecessária e não ajuda nem um pouco no esforço das atletas por mais reconhecimento e valorização do futebol feminino. Depois desse jogo eu confesso que gosto menos da Darlene. Tomara que ela esfrie mais a cabeça durante campeonatos futuros, ainda mais em jogos da seleção… Mas enfim, é bola pra frente. E que pagode gostoso foi esse no vestiário hehehe

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