Futebol Feminino

Carta aos céticos do futebol feminino

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Proibido por 40 anos, rejeitado pela eternidade. O futebol feminino sempre foi símbolo de resistência. É como se não quisessem que ele existisse – e para ratificar isso, a estratégia já foi bani-lo por lei e agora é ignorá-lo por completo. Mas para o azar dos céticos, a história das mulheres nunca foi fácil, sempre foi de luta, e elas nunca desistiram.

Aí chegamos ao dia – ou melhor, ao ano – em que mais de 15 mil pessoas vão a um estádio para ver futebol feminino (Iranduba x Flamengo, quartas-de-final do Brasileiro, Arena da Amazônia). Depois, foram 25 mil no mesmo estádio, também para ver futebol feminino (Iranduba x Santos, semifinal, Arena da Amazônia). Aí outras 15 mil (ou mais, não se tem o número exato) lotam outro estádio para ver futebol feminino (Santos x Corinthians, final, Vila Belmiro). E você abre os jornais, os sites esportivos, você liga a televisão nos canais de esporte…mas nenhum deles está falando disso.

Alguns dão uma nota de pé de página, mencionam por 15 segundos no ar e só. O que prevalece é a mesma estratégia: ignorar. Ninguém quer ver, não dá audiência, é o argumento de sempre. Só que 15, quase 16 mil pessoas foram ontem à Vila Belmiro para ver o futebol feminino – e só não teve mais gente ali porque o estádio lotou por completo e muita gente não pode entrar. No ano passado, 70 mil lotaram o Maracanã também para o futebol feminino.

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Crédito: Reprodução Instagram Maurine

Os recordes estão constantemente sendo quebrados, ainda que no jornal, na TV ou na internet, ninguém fale sobre a modalidade. Fico imaginando, então, se falassem.

O SporTV tem feito um trabalho excelente transmitindo o futebol feminino nos últimos anos. Agora, em 2017, transmitiu boa parte dos jogos do Brasileiro feminino, colocou mulheres para comentar as partidas, transmitiu a final da Champions League feminina, vai transmitir a Eurocopa das mulheres….mas no resto da programação, parece que é proibido mencionar a modalidade. Todos os dias, dezenas de programas gastam horas falando as mesmas coisas sobre os mesmos times e jogadores. Nenhum deles menciona o que está acontecendo no futebol delas – nem mesmo que vai ter transmissão, que o próprio canal vai passar o jogo. São raros, quase inexistentes, os minutos que gastam falando da modalidade.

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Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo | Santos Futebol Clube

Sendo assim, o nosso papel aqui é ecoar essas vozes que há tanto tempo estão sendo ignoradas e que seguem resistindo em uma modalidade envolvida em preconceito, mas que tem mostrado cada vez mais a sua força. A resposta aos que dizem que o futebol feminino é chato, não atrai público e não desperta interesse de ninguém foi dada – ou melhor, foi repetida – ontem na Vila Belmiro.

A partida era a final do Campeonato Brasileiro entre Santos e Corinthians. O jogo tinha início às 18h30, no limite do horário dos trabalhadores. Mas ainda assim, a Vila Belmiro foi se enchendo aos poucos, até não caber mais ninguém. Houve um momento em que a organização da partida não liberou mais a entrada de ninguém, ainda que houvesse centenas (talvez milhares?) de pessoas na porta querendo ver o jogo de dentro.

“Fiquei de fora com tanta gente que dava para lotar outra Vila. Muitas famílias, bebês, crianças, adolescentes e muitas meninas. Foi de arrepiar caminhar pelos arredores da Vila e ver gente tão diversa se espremendo para acompanhar o jogo nos bares vizinhos ao estádio. Futebol do povo. Futebol das minas”, contou às dibradoras Isaias Carvalho, que esteve na porta do estádio, mas não conseguiu entrar.

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Santistas na porta da Vila, tentando entrar no estádio lotado (Crédito: Isaias Carvalho)

O jogo teve tudo do melhor do futebol. Um primeiro tempo eletrizante, com uma torcida que não parava de cantar, e dois times tentando partir para cima para conseguir o resultado. Até que, em uma falha corintiana, a bola sobrou para a artilheira da competição, Sole James abrir o placar.

Um pouco depois, o lance mais bonito do jogo, um dos melhores do campeonato. Uma dividida na área fez a bola sobrar do lado direito do ataque santista, e Patricia Socho apareceu de surpresa para completar com maestria – um chute calculado, por cobertura, que passou por todo mundo e foi parar no fundo da rede. Menos de 45 minutos completados, e 2 a 0 pra as Sereias da Vila.

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Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo | Santos Futebol Clube

A partida seguiu no segundo tempo com o Corinthians meio perdido, sem conseguir formular jogadas ofensivas de qualidade e apostando muito em cruzamentos que eram rapidamente afastados pela defesa santista. As Sereias, por sua vez, tiveram mais pelo menos duas chances de ampliar, mas pararam na goleira Lele. A vantagem agora é do Santos para o jogo da volta em Barueri, na próxima quinta-feira, dia 20, às 18h.

Mas mais do que o placar, o maior vitorioso desse jogo foi o futebol feminino, que, mais uma vez, mostrou seu potencial a quem ainda duvida dele. O público da decisão já foi o maior registrado na Vila Belmiro neste ano – antes, o maior público havia sido 13.132 de Santos x The Strongest pela Libertadores. Na semifinal, o jogo contra o Iranduba na mesma Vila às 21h no sábado teve quase 8 mil pessoas prestigiando o futebol delas. Antes, o próprio time amazonense já havia quebrado todos os recordes em Manaus, uma cidade onde as equipes masculinas mal conseguem levar mil pessoas ao estádio.

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Arena da Amazônia com 25 mil pessoas para a semifinal do futebol feminino (Crédito: Divulgação Iranduba)

Todas essas são respostas aos críticos, aos céticos, aos preconceituosos, que ainda insistem em depreciar o futebol feminino. Não que ele deva algo a alguém. Pelo contrário, nós que devemos muito a ele. Pela quantidade de meninas que foram afastadas da modalidade pelo nosso preconceito; pela quantidade de mulheres que desistiu do sonho de jogar bola pela falta de oportunidades; pelas inúmeras Martas e Formigas que devem ter se perdido por aí sem clube para jogar, sem campeonato para disputar; e pela quantidade de vezes que deixamos de falar do futebol feminino, a quantidade de vezes que ele deveria ter sido notícia e não foi, que ele deveria ter tido visibilidade e não teve.

Quem sabe no jogo da volta, a torcida do Corinthians consiga dar um show tão bonito quanto foi o da torcida santista. Que consigam comparecer ao estádio, que é bem maior que a Vila (capacidade de 30 mil pessoas) e quem sabe enchê-lo. O horário não é dos melhores, a logística para a chegada também não – mas a semifinal já foi lá em Barueri em um domingo às 18h e a presença do público foi bastante modesta. Dá para esperar mais em uma final, em um clássico, de um clube que tem a segunda maior torcida do Brasil.

Mas o importante é saber que, independente de qualquer coisa, o futebol feminino irá prevalecer. Quanto mais ignorarem a sua existência, mais ele vai resistir, persistir. Elas vão.

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Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo | Santos Futebol Clube

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