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‘Cada dia é uma luta, não vamos desistir’: união histórica de torcedoras dá recado ao machismo no futebol

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I Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada reuniu centenas de torcedoras no Museu do Futebol

Frequento o Museu do Futebol há uns bons anos e acompanho a programação da casa sempre que posso. Participei de muitos encontros sobre futebol feminino, com participações de ex-jogadoras e outros debates sobre temas importantes. Um dos mais especiais foi aquele dia da abertura da exposição “Visibilidade Para o Futebol Feminino”, que contava a história da modalidade, algo bem desconhecido do grande público.

Mas no último sábado (10/6) o Museu do Futebol estava diferente de tudo que já vi e participei por lá. Era algo sem tamanho, difícil de classificar. O auditório foi tomado por mulheres dos mais diversos cantos do país. E o que elas tinham de mais especial? O escudo que carregavam no peito e o amor que as movia para conquistar mais um espaço: o de torcer livremente na arquibancada.

Representantes de cerca de 50 torcidas organizadas participaram do I Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada no Museu do Futebol. Durante todo o dia, elas foram ouvidas, encorajadas e puderam propor melhorias para que o estádio também seja um espaço que pertença a elas. Muitas delas – rivais no estádio – já se conheciam. Mais do que ter em comum seu amor pelo clube, elas tinham também o mesmo preconceito enfrentado nas arquibancadas.

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Basicamente, as torcidas organizadas são bem antigas, algumas tem mais de 40 anos e a participação de mulheres dentro delas ainda incomoda – os homens, é claro. Laryssa Quirino tem 21 anos e faz parte da Young Flu há três. A torcedora nos contou que o núcleo feminino sempre existiu, mas ele sempre é descontinuado a cada troca de direção. A organizada do Fluminense nem é tão rígida como as demais, mas elas ainda são minoria e acabam estigmatizadas como “vagabundas que estão lá apenas para sair com os homens”.

Mulher pode gostar de futebol, de beber cerveja, ir ao estádio, usar a roupa que ela quiser e eu também posso ficarMuseu5 com eles ou não. Eu mesma sou casada com um integrante e nos conhecemos na torcida”, contou Laryssa.

“Já somos minoria, mas precisamos nos unir e estar juntas, deixando a rivalidade de lado”, disse Nathalia, integrante da Sangue Jovem, torcida organizada do Santos.

As falas das meninas pediam para que a cada integrante nova que chegasse à torcida fosse recebida com carinho, sem criar disputas entre elas. Também era necessário descontruir (palavra muito usada durante todo o dia) julgamentos comuns do tipo “aquela menina só está aqui para ficar com os caras” ou então “nossa, olha só como aquela menina está bêbada”. Livia, torcedora da Fogoró (Botafogo) lançou o sincerão no microfone e foi muito aplaudida. “Eu torço e bebo na mesma intensidade! Vamos usar roupa curta, amanhã vai ter shortinho na arquibancada porque estamos num calor de 40 graus no Rio de Janeiro e vamos sem julgamentos. Se alguma menina beber e vomitar, vai ter outra colega ali, segurando o cabelo dela”, finalizou.

Gabi, torcedora do Vitória e membro da Brigada Marighella, também roubou a cena ao contar que certa vez, na bancada, começou a puxar músicas para apoiar o time, mas ninguém a acompanhava.

Percebi que, depois que um homem puxava os cantos, todo mundo ia junto. Fui silenciada na arquibancada por ser mulher e ninguém queria cantar o que eu puxava”. Também revelou que foi desafiada por outros torcedores a dizer qual era a função do volante dentro do time e soltou: “Meu amigo, eu quero é que se foda o volante, eu quero é ver gol do Vitória!”.

Também foram relatadas histórias felizes como a da Flávia, da torcida Raça Rubro-Negra do Flamengo, que está há 15 anos na diretoria da organizada e se disse grávida da “Raça-Ela”, ou melhor, da Rafaela, sua filha que nascerá em poucos meses. A Camila da Força Jovem do Goiás também se orgulha dos anos que acumula na bancada e conta com o apoio da diretoria para a presença feminina e eventos encabeçados por elas.

Thayna, que faz parte da Loucos pelo Botafogo ressaltou que na organizada, desde 2006 há mulheres ocupando cargos importante no grupo e duas delas fazem parte da bateria. “Quem diria que isso aqui poderia acontecer. Imaginar isso, 10 anos atrás, seria impossível. Como imaginar que viríamos pra São Paulo debater esse assunto com nossas rivais?”

Ericão é uma das sócias-fundadoras da Fogoró e se orgulha muito disso e do que conquistou lá  dentro. “Resistimos muito porque queríamos participar das caravanas e das ‘viagens de guerra da torcida’. Ir assistir a um jogo na Vila Belmiro sempre foi tenso e perigoso, mas eu fui a pioneira a aceitar o desafio e com isso abri espaço para outras mulheres que queriam fazer o mesmo”, revelou.

Tremular bandeira, viajar e tocar na bateria não é permitido para mulheres.

Esse é um ponto que causa muita discussão, afinal é muito claro que mulher dentro de uma organizada tem seu papel bastante definido. Em algumas torcidas, elas só podem organizar eventos sociais para arrecadar dinheiro para o clube, cozinhar em festas, limpar a sede (sim, muitas torcidas propõem essa função para mulheres) e é só isso, basicamente.

São proibidas de adotar algumas condutas por “ideologia” de cada comando e, por exemplo, tremular a bandeira do movimento, fazer parte da bateria e ocupar cargos diretivos ainda são honrarias restritas aos homens. A imensa maioria das mulheres também quer ter sua participação nessas ações e o discurso também seguiu essa linha, até uma torcedora que faz parte da Gaviões da Fiel dizer que conseguiu seu espaço dentro de outras áreas da torcida, sem precisar tremular uma bandeira. O discurso seguiu pela linha do “qual é o nosso papel na torcida e o que queremos ser?”, evidenciando que balançar uma bandeira não é tão necessário assim.

Minutos depois, Dadá Ganam Ferreira, uma das organizadoras do evento, subiu ao palco e bradou por igualdade. “Quero tocar minha bateria e tremular minha bandeira, sim. Somos torcedoras e não devemos abaixar a cabeça para nenhum marmanjo”. Dadá torce pelo mesmo Corinthians, mas seu desejo é diferente da outra garota que não valorizou o ato de ter a bandeira da torcida segurada por uma mulher. E que bom que o debate serviu pra isso, para ouvir e falar sobre diversos pontos de vista.

Outro grande tabu que as meninas querem quebrar é o de poder acompanhar jogos e participar de caravanas de seus times fora da cidade de origem. Os chamados “jogos de guerra” ainda são restritos aos homens sob a alegação de ser perigoso para elas. O que não deixa de ser verdade, mas a escolha de ir e vir cabe a elas e é isso que elas pedem. A orientação dos perigos pode ser dada pelos componentes da torcida, mas elas querem ter o direito de poder decidir se devem ou não acompanhar o time nas viagens.

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A torcedora Deb, da Pavilhão 6 do Clube do Remo, veio de Belém para São Paulo somente para participar do I Primeiro Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada e citou uma grande ação encabeçada por sua torcida. “Eu sou de uma das cidades mais violentas do país, mas a gente fez uma coisa muito bacana durante o clássico Remo x Paysandu, quando estendemos 10 metros de faixa pedindo mais respeito para as mulheres no estádio e uma representante de cada torcida deu a volta em torno do estádio com a faixa”.

Participação da ANATORG: não convenceu

Havia homens participando do encontro. Poucos (quase nenhum) representantes do sexo masculino de cada torcida estavam lá, o que é uma pena. Essa seria uma grande oportunidade para eles ouvirem o discurso das minas e compreenderem um pouco mais sobre o que elas enfrentam para ter respeito dentro de uma organizada.

A maior concentração do sexo masculino estava lá a convite do evento representando a ANATORG – Associação Nacional das Torcidas Organizadas – e eles puderam, quase no final do dia, falar um pouco sobre o trabalho da organização e dar algumas opiniões (desastrosas) sobre a participação das mulheres nos estádios.

Um deles, que já fez parte da Torcida Estopim, do Corinthians, chegou a comentar que se uma organizada não permite que uma mulher balance a bandeira, ela deveria procurar uma outra torcida que permitisse que ela fizesse isso. Tomou uma sonora vaia, é claro, e justificou que isso faz parte da ideologia de cada torcida e que a Estopim, por exemplo, sempre deixou a mulher fazer o que quisesse lá dentro.

“Mas como vocês vão mudar essa realidade? Não tem como”, ele dizia e ouvia gritos da plateia: “vamos sim, cada dia é uma luta e não vamos desistir”. Quase que peguei o microfone pra dizer a ele todos os diversos direitos que as mulheres conquistaram após muita luta, sem precisar do conformismo que ele sugeriu: direito ao voto, direito de trabalhar, liberdade sexual, etc.

No final das contas, eles reforçaram que apoiavam a luta das meninas por mais espaço dentro das organizadas e que ficaram impressionados com a quantidade de mulheres que lá estavam e com os discursos empoderados. Na cadeira ao lado, Dadá amamentava seu filho e pegou o microfone para abrir a série de perguntas a eles e foi direto ao ponto na primeira questão: “Quantas mulheres fazem parte da comissão na ANATORG?”. Pronto, nem preciso dizer qual foi a resposta, né?! Zero.

Como eles são responsáveis por representar as organizadas e promovem diversos seminários para que os membros participem, elas sugeriram que seja obrigatória a presença de uma mulher nas reuniões para que elas também possam acompanhar o que se discute por lá. Por conta disso, achei que, no final das contas, a participação dos caras fez algum sentido. Só por isso mesmo.

Propostas para melhorar

No final do evento todas as ideias levantadas pelas minas ao longo do dia foram resumidas numa lista. A organização do Museu, encabeçada pela pesquisadora Aira Bonfim, produziu uma ata com cada sugestão para que isso sirva como um estatuto a ser seguido daqui pra frente e também como um manual de sugestões para as entidades responsáveis pelo futebol. Abaixo os tópicos:

  • Polícia preparada para revistar mulheres e presença de policiais femininas dentro do estádio
  • Promover encontros regionais como esses para discutir e melhorar ainda mais a participação das mulheres dentro das organizadas
  • Propor a criação de uma Delegacia da Mulher dentro do estádio com o intuito de coibir o assédio sexual e moral na arquibancada
  • Espaço para que as mulheres possam levar seus filhos com banheiros adaptáveis para trocá-los
  • Acessibilidade para deficientes
  • Campanhas unificadas entre as torcidas. Definir um tema a ser trabalhado em cada mês e fazer com que as organizadas endossem o coro (exemplo: campanha contra assédio, violência contra a mulher e etc)
  • Propor a criação de fardamentos especiais para as mulheres (tamanhos adequados)
  • Ter a liberdade de ser vestir como quiser na arquibancada
  • Conquistar espaços de fala dentro das torcidas (tremular bandeira, tocar bateria, ocupar cargos diretivos)
  • Combater o machismo entre homens e mulheres
  • Ter uma representação feminina na ANATORG
  • Cobrar os clubes de investir no futebol feminino e ter torcida organizada apoiando as mulheres dentro de campo
  • Ter representação feminina nas diretorias dos clubes
  • Contar com auxílio da organizada para participar dos eventos (algumas meninas vieram por conta própria para São Paulo e outras foram auxiliadas por vaquinhas)
  • Contar com a participação de representantes masculinos das torcidas nos debates

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Para terminar esse longo relato, reforço a mensagem que Gabi, a torcedora do Vitória, entoou no microfone do Auditório do Museu do Futebol durante seu momento de fala: “Se liga, se liga, se liga seu machista, porque a arquibancada vai ser toda feminista!”. Ô se vai!

 

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