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Audiência pós-Rio 2016 prova potencial do futebol feminino

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Brasil x Austrália nas quartas-de-final da Olimpíada foi a quarta maior audiência dos Jogos

Em qualquer debate sobre futebol feminino, é comum que os argumentos contrários à modalidade girem sempre em torno daqueles velhos conhecidos: “futebol feminino é chato”; “ninguém quer ver isso”; “ninguém transmite porque não dá audiência”.

Pois bem. Devo admitir que um dia até eu mesma acreditei em algumas dessas saídas fáceis para justificar o porquê o futebol feminino não estava na TV, nos jornais, nos sites, na mídia afinal. Mas “estudando” bastante sobre o tema recentemente, percebi que não é tão simples assim – e que talvez a falta de vontade e o preconceito pesem mais na decisão de não incluir a modalidade na grade.

Explico com dados recentes: na Olimpíada do Rio – que bateu todos os recordes de audiência na TV brasileira – a quarta maior audiência foi a do futebol feminino (nas quartas-de-final contra a Austrália). A semifinal contra a Suécia também esteve na lista dos 10 eventos mais assistidos pelos brasileiros nos Jogos. Mas aí vão dizer: tudo bem, era Olimpíada, todo mundo assiste a qualquer coisa na Olimpíada.

Ok, então vamos ao pós-Olimpíada. Dados divulgados pela CBF e publicados no site Máquina do Esporte mostram que a entidade conseguiu atingir 9 milhões de pessoas apenas com as transmissões ao vivo dos jogos do Torneio Internacional de Manaus, que aconteceu em dezembro do ano passado. A competição – uma das raras de futebol feminino que são exibidas na TV aberta, com a participação de Band e Bandsports – teve um grande alcance com as transmissões da Cbf e registrou 2 milhões de visualizações.

O impacto, porém, não se resume às visualizações. As milhares de curtidas, compartilhamentos e os comentários fizeram com que o alcance se multiplicasse e chegasse a 9 milhões de pessoas, conforme explicou a Máquina do esporte.

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E há que se registrar que o Torneio de Manaus é uma competição pouco tradicional na modalidade, sem muito apelo. O Brasil disputava o título com seleções bem mais fracas, e as principais jogadoras da seleção – como Marta e Cristiane – sequer participaram do torneio. Ainda assim, a audiência disparou. Para números de uma transmissão online no Facebook, esses são muito significativos.

Mais do que isso, o site cita pesquisa do Ibope Repucom mostrando que o crescimento do interesse pelo futebol feminino cresceu mais do que o por qualquer outra modalidade depois da Olimpíada. 51% dos entrevistados disseram estar interessados em saber mais sobre o futebol feminino – contra os 34% que responderam isso antes da Olimpíada.

Isso não necessariamente quer dizer que, se colocarem futebol feminino na TV amanhã, ele vai bater todos os recordes de audiência da história dos canais esportivos brasileiros. Mas mostra, sim, que há um potencial a ser explorado aí. Com um investimento “pequeno” – se comparado ao custo bilionário de direitos de transmissão de campeonatos masculinos ao redor do mundo – seria possível conquistar uma legião de fãs que está aí sedenta para ver futebol feminino e não sabe onde.

Mas aí teria que fazer o trabalho direito – como a CBF, por incrível que pareça, vem fazendo nesse caso específico. Ela não simplesmente apareceu com um link ao vivo no Facebook transmitindo as partidas do torneio de Manaus. Ao contrário, falou dele meses antes, fez a cobertura dos treinamentos da seleção, divulgou matérias e entrevistas com as jogadoras, divulgou em todas as suas redes sociais o horário e o dia do jogo – e o fato de que haveria transmissão em tempo real. O resultado? As pessoas, já bem informados, foram à página da CBF e acompanharam o jogo, deram a ela audiência tão desejada – o que me faz pensar que o mesmo aconteceria caso TVs, federações, e clubes, por que não?, tivessem a mesma iniciativa.

A Federação Paulista de Futebol, aliás, sob a coordenação agora da ex-capitã da seleção brasileira Aline Pellegrino no futebol feminino, começou a fazer o mesmo. Em conversas conosco, a própria Pelle nos disse uma vez: “se nenhuma emissora se interessa e cobre a modalidade, nós vamos cobrir”. E tem que ser assim mesmo.

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Maracanã lotado para a semifinal olímpica do Brasil no futebol feminino

Mas é importante pontuar uma coisa: não adianta transmitir um torneio feminino – ainda que seja uma Copa do Mundo – e não falar dele nunca na programação. Não divulgar o horário do jogo, não falar sobre o torneio em nenhum programa ou nem mesmo no noticiário, não citar por um segundo sequer que “estamos transmitindo um torneio de futebol feminino”. A lógica é simples: se nem a própria emissora, a (con)federação, o clube quiserem vender seu próprio produto, ninguém vai querer comprá-lo ou ter qualquer interesse nele.

É como a técnica da seleção feminina, Emily Lim, nos disse no podcast #65:
“Isso é algo que a gente já enfrenta há muitos anos e a gente sempre mostrou que dá audiência. Estou sem os números agora, mas lembro que em 1997, 1998, o futebol feminino dava bastante audiência, eu tenho esse levantamento dentro de um projeto meu.”

“Acho que futebol é um negócio, isso a gente não pode deixar de dizer. Enquanto o futebol feminino não for um negócio para eles e não estiver trazendo retorno, é isso. Mas a gente não pode ficar se lamentando, a gente tem que ir se movimentando da forma que dá. Porque uma hora eles vão ver essa matéria e vão perceber que dá, peraí que o produto ta melhorando, vamos vender ele melhor”, concluiu.

A oportunidade está aí, nas mãos de quem quiser pegar. Esses dados são apenas mais uma amostra de que há um potencial imenso a ser explorado – sairá na frente quem percebê-la primeiro.

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