Futebol Masculino

As mulheres que estão ajudando a reconstruir a Chapecoense

SIRLI

Desde 29 de novembro do ano passado, Chapecó virou uma cidade internacional. Fica fácil perceber isso pela movimentação na Arena Condá nos últimos dias. Os sotaques se misturam chamando um nome em comum: “Sírli”, “Sirlí”, “Sirrrrli”.

O alvo dos chamados é Sirli Freitas, assessora de imprensa da Chapecoense, que atende a todos eles com a mesma gentileza. Quisera eu ter a mesma paciência e poder de organização que Sirli – e seu companheiro de trabalho, Fernando Mattos – têm tido com mais de 240 jornalistas de pelo menos 10 países do mundo inteiro que estão em Chapecó para cobrir o ressurgimento da Chapecoense após a tragédia  que vitimou 71 pessoas na queda do avião que viajava para Medellín para disputar a tão sonhada final da Copa Sul-Americana.

Mas entre os que chamam pelo nome de Sirli, cobram entrevistas, pautas e informações, poucos imaginam que uma das personagens dessa história é ela própria.

Naquele avião, morreu quase o time inteiro da Chapecoense, diretores e assessores, além de dezenas de jornalistas – e do marido de Sirli, Cleberson Silva.

Ele era assessor de imprensa da Chape, enquanto Sirli trabalhava para a prefeitura e acompanhava também o time como fotógrafa do jornal Diário Catarinense há oito anos. A notícia veio como um grande baque para ela, que é mãe de um garoto de oito anos e de uma menina de três.

SIRLI_FAMILIA
Sirli com o marido e os filhos

“Até hoje é difícil acreditar. Fico querendo ligar para ele e contar: ‘amor, você não tem ideia do que está acontecendo! O mundo inteiro está aqui!’”, disse às ~dibradoras.

Na mesma semana do trágico acidente, Sirli já começou a ajudar o clube e os inúmeros jornalistas que inundavam a cidade em busca de informações. Em meio a tanta dor, ela própria foi o conforto de muitos.

Alguns dias depois, veio a oficialização: o presidente do clube, Plínio De Nês Filho, a convidou para assumir o posto.

“Isso que está me motivando, me dando forças. Eu tenho dois filhos, então a primeira coisa que eu pensei foi: eu preciso de uma segurança, plano de saúde e tal, e isso o clube oferece. E está sendo ótimo pra mim.”

“Porque em casa eu me sentia vítima. As pessoas iam lá, me consolar, eu estava muito mal. Aqui eu estou ajudando, estou conseguindo ajudar todo mundo. Então eu estou me sentindo muito mais forte. É o que está me ajudando.”

“Está me fazendo bem, porque aqui era o lugar de trabalho dele, então as pessoas falam dele, pessoas que eu não conheço, mas conheciam ele vêm me contar histórias dele, me mostram vídeos, então isso está sendo bom.”

A rotina da última semana não poderia ter sido mais corrida. Inúmeras coletivas de imprensa para apresentar os 22 novos jogadores contratados pela Chape, os preparativos para o jogo em homenagem às vítimas neste sábado, as dezenas de pedidos de entrevista em todas as línguas possíveis. Mas o trabalho tem sido recompensador.

Sirli diz que tem orgulho de fazer parte desse momento do clube e que não é só Chapecoense que está se reconstruindo.Está tudo em construção. Eu estou me fortalecendo aqui e na minha vida pessoal também. Quero me reconstruir junto com o clube. Quero crescer, criar meus filhos junto com esse novo time que está vindo, com a nova Chapecoense.”

SIRLI_CHORO
O sofrimento de Sirli na Arena Condá em um dia de homenagens às vítimas na semana da tragédia

Marketing

Saindo da Arena Condá e atravessando a rua, fica a sede do clube. Ali está Juliana Sá Zonta, que também não tem tido uma vida fácil nos últimos meses. Com o início da reconstrução do time e do planejamento do marketing de 2017 começando ainda no ano passado, ela ajudou a pensar nos detalhes da “nova Chapecoense” que está ressurgindo neste sábado.

Fanática pela Chape desde o berço, Juliana – ao contrário de muitos da sua geração, que optavam pelo Grêmio ou pelo Internacional, os clubes da capital vizinha – acompanhava o time até mesmo nos tempos de vacas magras, quando a equipe sequer disputava uma competição nacional e apenas entrava em campo três meses ao ano.

“Eu vivo esse clube desde criança. Meu pai é um dos maiores fãs da Chape, desde os tempos em que o time era bem mais modesto, ele já era o time do meu coração”, contou. “Eu vinha para todos os jogos, eu torcia, vivia esse clube. E vim trabalhar aqui por causa disso. Eu amo esse time, e agora eu amo ainda mais, porque eu vivo a essência dele.”

Faz exatamente um ano que Juliana se juntou à supervisora de marketing Clarissapara formar uma dupla rara de mulheres nessa área do futebol. No dia da tragédia, Juliana estava, inclusive, cuidando dos trâmites do segundo jogo da final, que teria de ser transferido para Curitiba por causa do tamanho do estádio da Chapecoense, que não comportava a decisão de uma competição desse nível, de acordo com as regras.

JULIANA
Juliana na sala do marketing, onde trabalha com outra mulher, a supervisora Clarissa

Agora, ela cuida para que a imagem do clube siga sendo aquela do “time de guerreiros”, que sempre surpreende a todos ao conquistar os resultados mais improváveis.

“Desde a tragédia, nós ainda não tivemos nenhuma competição, então as pessoas estão esperando ver a Chapecoense de novo. Precisamos mostrar a eles que a Chapecoense está de volta. (Este sábado) É um dia especial, com homenagem, será muito legal para os torcedores e para a cidade.”

Acompanhando o time desde pequena, Juliana já teve muitos momentos de alegria e muitos outros de sofrimento com a Chape – e ela não tem dúvidas de que agora não será diferente.

“Todas as jornadas que nós tivemos desde que nascemos em 1973, foram encaradas como oportunidade únicas para nós, acho que encararemos essa como a gente encarou todas as outras. Não será uma mais difícil, será tão difícil quanto todas as outras que já enfrentamos nos últimos 40 anos. Enfrentaremos com a mesma força.”

Força que não faltará a ela, nem a Sirli, nem às outras 12 mulheres que trabalham em cargos administrativos no clube. Uma significativa representatividade para um time que acolhe todos e todas com o mesmo carinho. São elas a prova de que a Chape – e o futebol – é para quem quiser torcer, amar, trabalhar…viver.

4 Comments

  1. As mulheres sao atores-chave na nossa resposta ao furacao Matthew, no Haiti, ocupando cargos desde diretora da organizacao no pais ate da engenheira que projeta os Espacos de Acolhimento para Mulheres. Esses espacos recem-construidos abordam as necessidades de protecao que surgem apos uma emergencia, oferecendo abrigo, apoio psicossocial, treinamento de protecao e uma area para organizar grupos de mulheres.

    1. Até hoje fico pensando nessa tragédia, que tristeza imagino que deve ser difícil para as famílias e até mesmo para a cidade! Belo exemplo dessas mulheres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>