Futebol Feminino

As lições da primeira derrota da seleção brasileira sob o comando de Emily

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O Brasil entrou em campo nesta terça-feira para enfrentar seu maior desafio desde que Emily Lima assumiu o comando da seleção, em novembro do ano passado. A adversária era ninguém menos que a atual campeã olímpica, Alemanha, que jogava em casa, no Stadion am Hardtwald, em Sandhausen, e com a torcida toda a favor.

Resultado: a primeira derrota da treinadora nos oito jogos que fez até agora. O placar terminou em 3 a 1, e poderia ter sido mais. Sofremos com a pressão das alemãs, sentimos a força delas, buscamos reação, mas nos rendemos. Em nenhum momento conseguimos domínio do jogo, ou demonstramos superioridade. Em nenhum momento deu para acreditar na virada. O único gol brasileiro saiu de um lance individual – e só.

Mas calma: nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.

A derrota de hoje não é sinal de que tudo vai mal, de que o Brasil só ganha de times fracos e se desequilibra contra seleções mais fortes. Ou então de que jamais conseguiremos vencer a poderosa Alemanha – ou o poderoso Estados Unidos, nossos maiores algozes. Não, não e não. Passada a derrota, é preciso analisar friamente o que aconteceu para chegarmos a esse resultado.

A primeira coisa que deve ser levada em consideração são as próprias escalações que foram a campo. O Brasil não pode contar com algumas de suas principais jogadoras. Marta, Mônica, Camilinha, Andressinha, Debinha, Bruna Benites…todas estão nos Estados Unidos e não foram liberadas por esse jogo não ser em uma data Fifa. Rafaelle, na China, também não foi liberada.

Cristiane, que estava no PSG e terminou a temporada há um mês, pediu para não ir pelo excesso de cansaço dos jogos acumulados. E, além de tudo isso, estamos no meio da temporada por aqui, em plena semifinal de Campeonato Brasileiro, e as principais atletas nacionais convocadas estão vindo de um acúmulo de jogos fortes – como Djenifer e Kamila, pelo Iranduba, Maurine pelo Santos, Gabi Nunes pelo Corinthians…

Fomos para a Alemanha com um time que dificilmente seria titular em qualquer outra situação. E mais: com um time que teve dois dias de treino antes de enfrentar as atuais campeãs olímpicas na casa delas.

Agora falemos das nossas adversárias: um time fortíssimo, com uma treinadora que começou o trabalho após a Olimpíada de 2016 herdando o excelente legado de Silvia Neid – Steffi Jones era sua assistente e teve tempo para aprender a filosofia de jogo que é implementada na seleção alemã. Uma equipe que estava completíssima, em preparação para a Eurocopa, que começa a ser disputada daqui duas semanas. Uma equipe que encarava essa partida como teste máximo para a competição, em que também, para variar, entra como favorita.

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Marozsan é a craque da seleção alemã, que deu trabalho no amistoso contra o Brasil

Nunca é legal perder, nunca deve-se ficar satisfeito com uma derrota. Mas também nunca um trabalho dever ser jogado todo fora por causa de um revés.

As mudanças que Emily tem implementado na seleção brasileira são visíveis. Um jogo mais compactado, com defesa se aproximando do ataque, com menos chutão e mais ligação terrestre, com mais velocidade do meio-campo para o ataque. Hoje, diante das alemãs, pouca coisa disso saiu. O Brasil ficou recuado, entrou na “roda” das adversárias e não soube sair. Não havia conexão do meio-campo para o ataque e poucas vezes ameaçamos o gol das donas da casa – enquanto, do nosso lado, Bárbara fazia uma excelente partida, sendo exigida demais pelas campeãs olímpicas.

Emily tentou mudar taticamente o jogo, fez alterações na equipe,  trocou mais da metade do time, mas ainda assim, nada deu certo. Os melhores lances brasileiros vieram de Ludmilla – que, por sinal, foi a autora do gol de empate ao insistir numa jogada e roubar a bola da goleira. Chu, pelo lado esquerdo, tentava se aproximar do ataque, mas não havia muita articulação ali na frente.

Tivemos falhas na defesa, principalmente no primeiro gol de Dallmann, quando ela sobrou livre para chutar no rebote e balançar as redes. Quando deixamos Kayikci chegar algumas vezes – acertar as duas traves de uma vez – e fazer o segundo. Quando ficamos vimos Marozsan chegar na área e chutar. Esta que, por sua vez, é das melhores jogadoras dessa Alemanha e que se viu, muitas vezes, livre para gostar do jogo contra o Brasil.

Mas o grande ponto aqui é que, diante de todas as adversidades, conseguimos fazer um bom teste contra aquele que hoje é um dos três adversários mais difíceis que o Brasil enfrentaria em qualquer competição mundial.

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“Eu cheguei no vestiário e parabenizei as meninas. Pela obediência que elas tiveram no jogo, depois de dois dias de treino que a gente teve. E elas conseguiram fazer o que foi proposto, foi muito bom. A gente sabe que a Alemanha está há 30 dias treinando, se preparando para um Europeu, e nós estamos formando a equipe pra nossa Copa América. Saio daqui satisfeita. O que eu temia era a obediência tática e vejo que elas estão entendendo o que a gente está propondo e estão fazendo o que dissemos”, disse Emily após o jogo.

“Não é fácil a gente criar contra a Alemanha. Nós com uma equipe sub-23 e elas me mostraram que elas também podem estar aqui, e isso pra mim é muito bom. Que elas não imaginem que só tem um grupo de 20, 30 meninas, elas enfrentaram de frente, fortes uma Alemanha. Num balanço geral, elas estão de parabéns!”

Poderia ter sido melhor? Poderia, mas talvez uma vitória ou empate ali jogasse fumaça sobre alguns erros que precisamos corrigir. Uma marcação que precisa ser mais compacta, um meio-campo que precisa saber ligar mais o time, um ataque que seja mais efetivo, mais agressivo, afinal. É um time em construção e que hoje estava sem suas peças principais – mas, ainda assim, mostrou resistência. Mostrou que não se entrega fácil. E que tem muito potencial para enfrentar times grandes de igual para igual, sem se intimidar.

Que Emily agora analise o que deu certo e o que precisa ser corrigido a partir dessa primeira derrota para construir as próximas vitórias que virão daqui para frente. Os próximos desafios serão tão motivadores quanto esse último: Estados Unidos, Japão, Austrália, três de algumas das principais seleções do mundo atualmente, em um torneio amistoso em terras americanas no fim do mês. Esse, sim, que deverá ter o grupo completo da seleção, com Marta e companhia, e que deverá ser o grande teste desse trabalho de Emily Lima desde que assumiu o Brasil.

Não há nada perdido até agora. Mas alguma confiança já foi conquistada, é possível dizer.

 

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