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As conquistas e lições da primeira treinadora em tempo integral da NFL

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Já é 2017, mas alguns espaços parecem ainda ser “proibidos” para mulheres. Até aparecer a primeira a quebrar essa barreira e abrir caminho para que tantas outras venham ocupar um espaço que, no fundo, sempre foi delas também.

Foi assim no futebol, por décadas proibido para elas no Brasil, e está sendo assim no futebol americano dos nossos vizinhos do Norte. Foi necessário quase um século de NFL (a National Football League, fundada em 1920) até que aparecesse a primeira mulher a conquistar um cargo de treinadora em tempo integral de uma equipe da principal competição da modalidade.

Kathryn Smith assumiu o posto de técnica especial de controle de qualidade do Buffallo Bills em janeiro do ano passado e está completando agora um ano no cargo. Foi a primeira mulher a conquistar o espaço em tempo integral de uma comissão técnica no futebol americano. Sua função é bastante estratégica na equipe – ela separa vídeos e informações sobre os jogos da própria equipe e sobre os próximos adversários para auxiliar o técnico a elaborar as melhores táticas para vencer as partidas.

Quando o nome de Smith foi anunciado, a repercussão foi internacional e houve grande alvoroço nos Estados Unidos. Aquela que era para ser apenas mais uma treinadora na comissão dos Bills virou A notícia do ano. Fosse qualquer outro homem, com mais ou menos experiência, iria passar batido pela mídia americana. Mas era uma MULHER. Era uma revolução. Depois de 96 anos, a Liga de Futebol Americano teria pela primeira vez umA treinadorA – em tempo integral (antes dela, em 2015, Jennifer Welter havia atuado como técnica interna de linebackers do Arizona Cardinals na pré-temporada).

Smith não chegou ali a toa. Foram 12 anos trabalhando no futebol americano – ela começou no New York Jets, fazendo estágios, até galgar uma posição nos Bills. E até a própria treinadora ficou impressionada com a repercussão daquilo que para ela era apenas “um novo emprego” – que foi conquistado com muito suor e merecimento.

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“Quando eu olho para trás agora, vejo que a reação é ‘compreensível’, mas não era o que eu esperava. Acho que foi algo maior fora dos Bills, porque ninguém sabia quem eu era. Mas aqui não foi algo fora do comum. Eu trabalhei com (o técnico) Rex Ryan e outros jogadores e treinadores já me conheciam”, disse ela.

“Quando a notícia se espalhou para fora daqui foi que nós percebemos: Uou, isso é mais do que achávamos que era.”

Os jogadores 

Agora, há de se pensar que, para os jogadores, que se acostumaram a lidar apenas com homens dentro e fora de campo, uma mulher por ali era uma grande novidade – e não houve como evitar o “estranhamento”.

“Quando eu cheguei aqui pela primeira vez e a vi, pensei: bom, ela deve estar aqui aprendendo, assim como nós. Mas logo ela mostrou que sabia das coisas. Se você perguntar qualquer coisa a ela, ela sabe”, disse o cornerback Kevon Seymour.

“No início, você chega e pensa: Uou, uma técnica mulher. Mas logo a gente viu que era apenas mais uma técnica.”

“Ela está sempre ali quando você precisa perguntar qualquer coisa. Ela domina isso. Dá para ver que leva o trabalho muito a sério”, disse o safety Jonathan Meeks.

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A torcida 

É claro que, como uma das raras mulheres que estão rodando no campo em um jogo da NFL, Smith não consegue passar ilesa aos comentários ofensivos da torcida.

Horas antes do início de uma partida contra os Seahawks em Seattle, ela estava ali no gramado quando o vídeo flagrou torcedores gritando: “Ei, garçonete! Garçonete! Pode me trazer uma Pespi, por favor?”.

Esses não foram os únicos comentários ofensivos direcionados à Smith, nem serão os últimos, infelizmente. Mas ela, como todas nós mulheres, já aprendeu a abstrair o que vem de fora e simplesmente nem ouve os gritos da torcida. “O que a gente pode fazer é desligar os ouvidos e focar no jogo.”

Mais mulheres 

Após um ano no posto, Smith avalia que seu trabalho tem sido produtivo e de grande aprendizado. E ela espera poder abrir portas para outras mulheres alcançarem cargos na NFL.

“É importante que seja uma coisa de pé de igualdade. Eu acho que as mulheres devem ter as mesmas oportunidades de trabalho e ser exigidas da mesma maneira que os homens. Não é certo que alguém não consiga um trabalho por ser mulher – nem que consiga um trabalho apenas por ser mulher”, afirmou.

“Quando você olha ao redor da liga e em outras organizações, você vê mulheres nessa área. Não necessariamente em comissões técnicas, mas em outras variedades de departamentos em clubes e organizações. Eu não sou a única mulher da equipe aqui que trabalha com os jogadores. Isso está crescendo.”

Mas a grande dificuldade por lá tem sido ainda abrir mais portas para mulheres no nível mais alto do futebol americano – justamente na NFL.

“É mais comum ver mulheres trabalhando no nível das competições universitárias e aí isso vai passando para a NFL. Mas acho que vai continuar a crescer e vai evoluir nesse sentido”, disse.

Ela acredita que é importante abrir mais estágios e oportunidades de entrada para ajudar as mulheres a crescerem e desenvolverem um trabalho na NFL, assim como os homens conseguem.

“Eu acho que no longo prazo seria a melhor maneira de fazer isso, porque seria uma maneira mais orgânica e natural de progredir”, disse.

No fim das contas, o que queremos é exatamente isso: igualdade de oportunidades. Deixem a mulher ~dibrar: no campo de futebol, no de futebol americano, na quadra, na piscina, no tatame e aonde mais ela quiser. Tudo o que Smith precisou foi uma chance de mostrar que ela poderia estar ali. E a lição que ela nos deixa é essa: todas nós podemos. Podemos chegar aonde quisermos. Não vamos deixar que ninguém determine até onde podem ir os nossos sonhos – só nós podemos fazer isso.

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