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A árbitra que chamou a atenção na Copa do Nordeste: ‘Viram que eu não abaixaria a cabeça e me respeitaram’

Deborah, ao fundo, vê Neilton comemorar o primeiro gol da partida (Maurícia da Matta / ECVitória)

Além de uma goleada  de 4 a 1 (e boa exibição do Vitória diante do cearense Ferroviário), a partida da Copa do Nordeste em Salvador contou com uma participação especial: a árbitra Deborah Cecília Cerqueira, responsável por apitar o jogo.

A pernambucana não é uma aventureira no futebol: no quadro da Fifa desde o ano passado e acumulando certificados em mais de sete anos de formação, Deborah já tinha experiência apitando partidas masculinas, mas foi encarada com desconfiança pela torcida e, como depois viemos a saber, pelos próprios jogadores.

Não é para menos: segundo dados do Correio Braziliense, Deborah é uma entre as 15 árbitras registradas pela CBF. Para se ter uma ideia, esse número equivale a 7% do total de árbitros da entidade, que é 215.

Então dava até para entender que uma mulher no campo fosse novidade, ainda mais na função de ditar as regras. E Deborah mostrou que não se intimidaria com reclamações de jogadores: deixou o jogo seguir e não hesitou em lances polêmicos (ela não marcou um pênalti para o Vitória no início do jogo – o que inflamou bastante a torcida – também não marcou para o Ferroviário em lance semelhante, e ainda anulou um gol).

“A gente pode xingar igual?”, perguntou um torcedor mais velho a uma mulher que estava próxima. “Quando ela errar, pode xingar. Mas sem ser machista”, ela respondeu.

E essa frase, ao meu ver, é bastante reveladora. Acho que vai ser muito difícil um juiz passar um jogo inteiro sem ouvir um “ladrão” coisas mais pesadas, ou mesmo ter as decisões questionadas pela torcida em lances polêmicos.

Para mim, a torcedora foi muito feliz quando disse que os erros de Deborah, se ocorressem, não seriam pelo fato dela ser mulher. Seriam porque ela é uma pessoa que, mesmo profissional, é passível de erros.

No final das contas, a árbitra foi extremamente bem avaliada tanto por torcedores quanto pela imprensa. Alguns rubro-negros questionaram o pênalti, falaram que ela deixou de marcar algumas faltas, mas, no geral, foi coerente. Em algumas rádios baianas, Deborah recebeu nota 9,5 de 10. Nada mal.

No final do jogo, fui conversar com ela e perguntei o que tinha achado da experiência de apitar uma partida da Copa do Nordeste.

“Uma experiência incrível. Eu sabia que seria um desafio, porque é uma competição importante. Estou muito realizada, espero crescer cada vez mais”. E sobre a cobrança? Como dizemos em Salvador, ela não “comeu reggae” (ou seja, caiu na conversa) dos jogadores.

“Eles questionaram muito minhas decisões nos primeiros 10 minutos. ‘Você errou, não é assim, foi falta’. Mas depois eles viram que eu não ia abaixar a cabeça e passaram a me respeitar”.

Deborah é uma das primeiras mulheres a surgirem como árbitra principal de um jogo oficial do futebol masculino desde que Silvia Regina abriu as portas para isso ao conseguir esse protagonismo no início dos anos 2000. De lá para cá, é até relativamente comum ver mulheres bandeirando, mas elas raramente estão no papel principal da arbitragem em uma partida entre os homens. Já está mais do que na hora dessa história mudar.

Espero que esse “susto” coletivo de ver mulheres no futebol vá diminuindo a cada jogo. E que mais árbitras como Deborah possam mostrar que, quando elas apitam, é para respeitar.

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