Futebol Feminino

Após ser alvo de ofensas, jovem desabafa: “Sofri provavelmente a maior humilhação pública que eu possa me lembrar”

Por Júlia Vergueiro e Maiara Beckrich

Ontem sofri provavelmente a maior opressão e humilhação pública que eu possa me lembrar. Tudo porque cometi o terrível e grande crime de usar esse moletom “comunista” da Adidas.

Na noite dessa quinta feira (03), a dubladora de 27 anos Mariana Zink foi alvo de grave discriminação e agressão verbal por parte de um homem no complexo de futebol society Playball Ceasa, na Zona Oeste de São Paulo. Após sair da sua “pelada” semanal, a jovem foi abordada por dois amigos que, aparentemente, se incomodaram com o fato de ela não ter respondido às suas abordagens e de estar vestindo um moletom com estampa de estrelas.

Pra muita gente, o que aconteceu com a nossa amiga na noite de ontem pode parecer uma realidade distante. O depoimento [vide abaixo] dela não deixa de ser chocante pra ninguém, mas infelizmente ele é parte de um universo que nós, mulheres, conhecemos bem. E quando se trata de um ambiente ainda tão masculino, como é o caso dos complexos esportivos de futebol society de São Paulo, a coisa consegue ficar pior e mais comum.

Até quando? Até quando vamos permitir que pessoas descontroladas se sintam no direito de ofender e humilhar quem quer que seja? Até quando mulheres se sentirão impotentes diante de humilhações sem qualquer fundamento?

Após conversar com a vítima Mariana Zink, as ~dibradoras entraram em contato com o Playball Ceasa, e fomos atendidas pela gerente Etiene Crispin, que se mostrou indignada com o ocorrido e disse que isso nunca havia acontecido naquele espaço. Ela ainda garantiu que iria checar as imagens das câmeras, conversar com os funcionários da lanchonete e o segurança para apurar os fatos, além de averiguar o porquê de os mesmos não terem intervindo diante da agressão.

O Playball Ceasa se coloca absolutamente contrária a qualquer prática de preconceito e/ou opressão em seu espaço de convivência.  (Etiene Crispin – gerente do Playball Ceasa)

Denunciamos esse comportamento abusivo direcionado à nossa amiga Mariana na certeza que juntas somos mais fortes e na esperança de que um dia nossas filhas não tenham que passar pela mesma violência.

O espaço do futebol é de todxs e já passou da hora de nós mulheres, nos sentirmos segura nele! Não nos calarão

Veja abaixo o depoimento completo publicado por Mariana Zink no seu perfil do Facebook: 


agasalho zink

Vou contar uma história triste/assustadora para vcs… Não pq eu ache que agora adianta alguma coisa ou esteja procurando vingança, mas preciso falar pq é tudo que eu posso fazer. Pq foi horrível.

Ontem sofri provavelmente a maior opressão e humilhação pública que eu possa me lembrar. Tudo porque cometi o terrível e grande crime de usar esse moletom “comunista” da Adidas.

“Comunista” porque ele tem estrelas. E todos sabemos que estrelas são perigosas.

Estava saindo de um jogo de futebol no Playball Ceasa e fui pagar o ticket do estacionamento no bar. Foi quando dois homens (um deles com idade pra ser meu pai) me abordaram, antes de chegar ao balcão. Afinal… É bem óbvio que, se uma mulher está indo sozinha pagar seu estacionamento, ela está implorando pra que dois machos venham puxar conversa. Essa é a nossa função no mundo: entretenimento masculino.

Como eu estava sozinha, não falei nada. Apenas abaixei a cabeça, dei um sorriso sem graça e pedi licença. Mas obviamente isso não é sinal suficiente para ser deixada em paz. Ignorando o meu desconforto, o fato de que não nos conhecíamos, a minha linguagem corporal e o meu pedido verbalizado de licença, um deles continuou:

_Me diz uma coisa, esse seu moletom aí, é de estrela por quê?

Sigo em silêncio.

_Não vai me dizer que é do PT?

Sigo em silêncio, torcendo pro meu cartão passar logo.

_Era só o que faltava!Alguém usar as estrelas do PT, eu odeio o PT. Vc é muito bonita pra usar essas estrelas.

Sigo em silêncio.

_Me diz aí, vai, quero ouvir que não é do PT!

Pois é, obviamente, deve ser muito difícil abrir sua cabeça oca de macho e cheia de ódio e entender que nem todo mundo tem a mesma opinião política que vc. Mas isso sequer vem ao caso: meu moletom não é do PT, eu não estava usando por isso e ele só tem estrelas brancas. Eu tava usando pq gosto. Só isso. Mas não sou de ferro, então respondi:

_Não, não é do PT. Mas e se fosse?

Soltei o monstro da jaula. Foi a desculpa que ele precisava pra cuspir todas as suas frustrações. Senti que todos os fracassos da vida daquele ser do sexo masculino foram concentradas naquele momento, em seu ódio pelo PT. E pelo meu moletom, claro.

Contrariar macho é perigoso. Essa é a mensagem do patriarcado. Segundos antes, eu me via forçada a baixar a cabeça e aturar um babaca, que invadia meu espaço sem a menor consideração. Mas ele não pensou duas vezes em vir pra cima de mim, no primeiro “A” que falei. Meia palavra minha e ele começou a berrar em alto e bom som, pra quem quisesse ouvir, tudo o que ele achava de mim… Uma desconhecida na fila usando um moletom.

_SUA FILHA DA PUTA COMUNISTA, O BRASIL TA NESSA MERDA DE CRISE POR CAUSA DE PESSOAS COMO VC, SUA COMUNISTA FILHA DA PUTA, VAI PRA PUTA QUE PARIU, SUA VACA, SEUS COMUNISTAS DE MERDA, VCS ESTÃO FODENDO O PAÍS…

Ele surtou. O bar estava cheio de outros amigos dele, que começaram a rir e a gritar junto e eu fiquei com medo. Então saí. Porque estava sozinha, pq tenho 1,58 de altura, pq sou mulher. É muito fácil ser o machão de 50 anos mto foda, rico, e vir brigar com a menina de 27, que desde o começo estava com a cabeça abaixada. Ninguém fez nada.

Não foi engraçado, não foi uma brincadeira. Aquele ódio era tão verdadeiro. E é tão comum. Cheguei em casa chorando, me sentindo impotente, Esse ódio disfarçado de justiça hoje chegou diretamente até mim. Sigo me perguntando de que lado estão os “homens de bem” e de quais lados estamos falando.

Apesar do futebol sempre animado, foi uma noite triste…

 

 

4 Comments

  1. Você precisa processá-lo, levar esse caso adiante.
    Não se trata de vingança, trata-se de contribuir para que mais casos como esse não ocorram, assim como fez o ex ministro Guido Mantega. Isso tem que parar!
    É preciso estabelecer de uma vez por todas que abordar um (a) estranho num espaço público e simplesmente destilar seu ódio sem nenhum motivo não pode ser tolerado pela sociedade.
    Processe-o, cause problemas pra ele, faça-o passar o constrangimento de ver seu nome exposto na mídia de maneira negativa e assim estará desencorajando outros animais como ele a fazerem o mesmo.

    1. Na verdade esqueci de direcionar o comentário a Mariana Zink e não a autora do texto que apenas reproduziu os fatos!

  2. Minha solidariedade a você, incondicional. Gostaria de acrescentar minha opinião, contudo: acho que eles te agrediram não apenas por serem “machos” ou “homens”. Acho que te agrediram principalmente por serem fascistas e isto, com freqüência não tem gênero nem sexo – veja-se o cartaz que uma senhora de idade provecta carregava onde lastimava que a Dilma e outros (de esquerda, por suposto) não tivessem sido enforcados em 1964. Estou triste, muito triste e desesperançado, pois parece que a barbárie está vencendo em todos os campos.

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