Futebol Feminino

Aos 82 anos, minha mãe encontrou vida no futebol

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Aqueles que não gostam, costumam dizer que “é só um jogo de futebol”. Mas para Dolores Peruzzo Sperry é quase que uma terapia – é ganhar um respiro fresco de vida por 90 minutos toda semana. Aos 82 anos, ela é presença constante na Arena Condá, o estádio da Chapecoense, ao lado da filha, Elisa.

Ela torce, canta, vibra, chora, e se faz notar no meio da arquibancada – não é tão comum assim ver idosos, ainda mais mulheres, no estádio nessa idade. Mas Dolores descobriu essa paixão depois que a filha a levou pela primeira vez à Arena, em 2010. Ali, ela encontrou a vida que buscava – e não largou mais.

“Minha mãe sempre gostou muito de futebol, ela sempre foi muito ativa. Mas não ia aos jogos, ela ficava em casa ouvindo no rádio com meu pai. Só que um dia eu falei: mãe, vamos, você vai gostar. E ela amou. Ela é muito pra frente, tem 82 anos, mas ela é muito ativa. Gosta de tudo que tem vida. E futebol dá muita vida para ela”, disse Elisa às ~dibradoras.

No último domingo, na final do Campeonato Catarinense, Dolores foi só comemoração. Como sempre, as duas foram juntas ao estádio para ver a partida contra o Avaí, que deu o título estadual ao clube de Chapecó. Uma conquista especial e emocionante, a primeira daquele time que ainda busca se recompor depois da tragédia com o avião no ano passado.

“Acho que futebol funciona também como uma terapia para ela. Cada jogo é uma viagem, porque você fica ali aqueles 90 minutos enlouquecida!”

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As duas estiveram juntas também nos dias de sofrimento na Arena Condá, daquele 29 de novembro que não terminou. Quem deu a notícia da queda do avião para Elisa, inclusive, foi sua mãe, em uma ligação ofegante na madrugada.

Foi um choque. Eu acordei 5h da manhã com ela me ligando. Quando eu peguei o celular, ela falava ofegante: você viu o que aconteceu? Você viu que o avião da Chape caiu? Guria, eu quase morri. Eu não conseguia acreditar!”, contou Elisa.

“A gente sofreu muito. Minha mãe estava arrasada. Fomos à missa que teve no estádio, foi muito sofrimento…e a gente ainda sofre muito. Vamos carregar essa dor pra toda vida. É difícil um dia que a gente não chore, porque é difícil, a gente lembra das coisas…”

Mas se juntas elas acompanharam a tristeza da tragédia, juntas também elas estão acompanhando o ressurgimento do clube. Em 20 de janeiro, no retorno da Chapecoense à Arena Condá, elas estavam lá, chorando com as homenagens aos que se foram, e depois celebrando muito o gol de Douglas Grolli que selou o renascimento da Chape.

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O dia da volta à Arena Condá: foi difícil segurar o choro no início, com as homenagens aos que se foram

“A gente tem muita esperança de ver nos novos o brilho dos que se foram. Foi tanto torcer pra Chape subir, foi tanto sacrifício…Foi construir lá de baixo devagar…mas aí quando sobe, quando chegamos ao pico , acontece isso..vai doer pro resto da vida.” 

Futebol, uma tradição

A família de Dolores sempre foi envolvida com o futebol, desde as origens, na pequena cidade de Nanoai, no Rio Grande do Sul. Por lá, só existia Internacional e Grêmio, e como era a época da construção do estádio do Beira-Rio, por um envolvimento especial com ele, Dolores e os filhos viraram colorados.

“Meus avós tinham um hotel em Passo Fundo, e o presidente do Inter foi lá e gostou muito do hotel e convidou meus avós pra irem a Porto Alegre e trabalhar no Beira-Rio. Minha vó, meus tios, foram todos para Porto Alegre trabalhar dentro do Beira-Rio. Eu passava as férias e aí conheci o Gigante do Beira-Rio”, contou Elisa.

“Em 1969 foi a inauguração e eu estava lá com meu pai e minha mãe. Meu avô era o porteiro do Beira-Rio. Então desde os 6, 7 anos, fui para dentro do estádio.”

Daí em diante, Elisa e a mãe nunca mais largaram o futebol. Mas quando se mudaram para Chapecó, o time que hoje é o mais tradicional da cidade ainda estava se estruturando. Quando o estádio inaugurou, Elisa ainda pequena teve a chance de conhecê-lo.

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Eu estudava num colégio e a filha de um dos presidentes (da Chapecoense) começou a convidar a gente para ver o jogo. Ela passava com uma combi na casa de todo mundo e levava todas as meninas para o estádio. Vivi toda a construção do Índio Condá, a antiga, a nova e tudo.”

Só que naquela época, ser mulher em um estádio de futebol não era das experiências mais agradáveis. Não era possível andar pelas arquibancadas sem ouvir o assédio dos homens em volta.

“Chegou uma época que a gente (mulheres) não podia quase ir no campo. Tinha que ir bem antes de abrir o portão. Os homens mexiam com todas as mulheres, era horrível. Hoje você vai super tranquila, ficou normal, mas naquela época era impossível”, relatou Elisa.

Agora, com a evolução dos tempos – e do time -, Elisa vai tranquila ao estádio, leva a mãe, a filha, o filho, a família toda. Em Chapecó, a tradição do futebol virou familiar e é muito comum mesmo ver meninas e mulheres na Arena Condá. É quase impossível identificar a proporção de um e outro em alguns dias.

“Hoje aqui acho que metade é mulher e metade é homem dentro do estádio. E nós queremos ser a maioria ainda. As mulheres aqui são muito fanáticas por jogo!”, pontuou Elisa. 

Se Elisa começou a gostar do esporte por causa do pai e da mãe logo aos 6 ou 7 anos de idade, Dolores começou a gostar do estádio aos 70 e poucos por causa da filha. E no que depender delas, a tradição vai continuar. De mãe para filha, de filha para mãe, o futebol pode ser de todas.

 

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