Futebol Feminino

Amistosos contra Nova Zelândia: Brasil de São Paulo x Brasil de Cuiabá

Depois de muito tempo, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino estava de volta a São Paulo, a principal capital do país. O jogo contra a Nova Zelândia estava marcado para acontecer no Estádio do Paulo Machado de Carvalho, reduto do futebol paulista e também a casa que abriga as histórias dessas mulheres em um espaço fixo no Museu do Futebol. O sábado estava bonito, o sol apareceu mais firme à tarde e o ingresso para ver Marta, Formiga, Cristiane e companhia era quase de graça: R$ 10. Era a oportunidade que precisávamos para impulsionar a modalidade, apoiar as jogadoras e levar as crianças para verem de perto a habilidade dessas mulheres da bola.

Pouco antes do jogo começar, a bilheteria funcionava a todo vapor. Pensei: “acho que teremos um bom público hoje”. A impressão otimista se foi assim que entrei no Pacaembu e vi metade das arquibancadas fechadas e isoladas. Apenas as cadeiras localizadas no meio do gramado estavam livres para a torcida: de um lado a arquibancada, do outro o camarote. Apesar do sol firme daquela tarde, o estádio estava gelado, frio, bem típico de São Paulo mesmo.

A torcida ensaiava algumas canções de apoio ao time, exaltavam Marta e companhia, mas não tinha liga. Algumas torcedoras berravam a plenos pulmões, com a bola rolando: “Cris, olha pra cá! Me dá um tchau. Criiiiiiiiiiiiiis”. Complicado pedir aceno pra jogadora que está focada na partida. Achei bem estranho!

Cris rafael ribeiro

A conclusão é que o time perdeu de 1×0 da mediana equipe da Nova Zelândia e jogou mal. Muitos erros de passes, jogadas pouco trabalhadas, muita afobação pra concluir e poucas chances claras criadas. Uma decepção em todos os aspectos, desde os 3.000 pagantes na arquibancada (que mais pareciam 300) até o desempenho do time nas quatro linhas.

Em entrevista com a atacante Cristiane no podcast das dibradoras na última segunda-feira (30), a jogadora nos revelou que a equipe sabia que o jogo de sábado tinha sido muito ruim e que nada deu certo dentro de campo. Sobre o pequeno número de torcedores, Cris se mostrou conformada ao declarar que essa é a realidade do futebol feminino no Brasil. “A gente não espera muito da torcida porque sabemos como a modalidade é tratada pelo público em geral. Tem gente que não acompanha a seleção e quando vai ao estádio só nos xinga”, declarou.

Cuiabá, 02 de dezembro, 20h – Arena Pantanal

Arena Pantanal

Para nós de São Paulo, o segundo amistoso contra a mesma Nova Zelândia começava às 21h. Por conta do horário de verão, os torcedores cuiabanos veriam a partida às 20h de uma terça-feira. O valor do ingresso era mais que o dobro de São Paulo, custava de R$ 30 a R$ 40.
A seleção sabia que estava devendo bom futebol e foi a campo determinada a apagar aquela derrota recente.

Quando o jogo começou, foi lindo! A arquibancada estava cheia, colorida, saudando a seleção e todos cantaram o hino nacional com as jogadoras. Muitas famílias, mulheres e crianças tomavam conta do espaço. A festa estava (quase) formada, afinal, o narrador do Sportv anunciava que, mesmo com o jogo já rolando, ainda havia filas nas bilheterias para entrar no estádio. Quanta diferença!

O Brasil começou bem o jogo, indo pra cima, com bola na trave, tabelas e boas chances criadas. Mas, após uma bobeira da goleira Bárbara e da zaga brasileira, as neozelandesas abriram o placar. Será que perderíamos mais uma vez pra esse time sem tradição nenhuma?

Na volta para o segundo tempo tudo mudou. Parece que o papo no vestiário surtiu efeito. Empatamos o jogo logo no início da segunda etapa com uma cabeçada maravilhosa de Poliana. A torcida festejou com o time e o empurrou. Elas sentiram o apoio vindo da arquibancada e a fraqueza do adversário. Sendo assim, foram pra cima, do jeito que a gente gosta, do jeito que deve ser.

Mais uma cabeçada, desta vez de Erika (a reserva polivalente) virou o jogo. Um chutaço da Formiga (a melhor em campo!) de fora da área ampliou o placar. Coraçãozinho na comemoração e a ooooooooooooooolllllaaaa rolando solta na Arena Pantanal.
Se estava tudo lindo, ficou melhor quando a nossa Rainha Marta recebeu um belo passe de Bia e com um toquinho leve, sutil, encobriu a goleira e mandou pro gol. O quarto! Pra fechar com classe, as reservas que entraram no segundo tempo – Thaisinha e Debinha – tabelaram dentro da área e o quinto gol veio. Debinha reserva? Não pode! Ela deu outra cara pro jogo. Olho nela, Vadão!

Foi lindo dentro de campo, foi lindo na bancada. Que bom saber que abraçaram o futebol feminino e as meninas em Cuiabá. Mais de 7 mil pessoas estavam lá, aplaudindo e apoiando, pagando mais caro que São Paulo e em um início de semana, à noite.
Esperamos – e acreditamos – que o público de Natal também receba nossa seleção com essa vibe contagiante no Torneio Internacional que se inicia dia 9/12.

Cuiabá_CBF

É muito fácil cobrar nossas jogadoras, mas apoiar ainda é raro por aqui. Desculpem por sábado, Seleção. Nós decepcionamos vocês, muito mais do que o contrário. Para Cuiabá, fica nossa admiração e agradecimento. Não é à toa que o povo dessas bandas do Brasil é muito mais solícito, caloroso e receptivo do que nós. Vocês fizeram por merecer os gols e a vitória. Mereceram esse presente.

VEJA OS GOLS DA PARTIDA:

 

Créditos fotográficos: Abdalla Zarour/Mato Grosso Mais, Rafael Ribeiro/CBF e Rogério Florentino Pereira

2 Comments

  1. Massa demais esse público de Cuiabá. Que outras cidades também recebam bem a seleção assim!

  2. Olá Dibras. O jogo em SP foi extremamente mal divulgado. Tudo era propício. Time titular com todas estrelas, adversário vencível, gramado ótimo, localização e acesso bons, além do horário convidativo. A CBF não gasta money nem tempo para divulgar as suas seleções. A confederação de rugby conseguiu mais de 10 mil pessoas, uma semana depois, em uma sexta 21h.

    Definitivamente, enquanto a confederação negligenciar seus próprios “produtos” (afinal, se querem falar tanto de dinheiro), o fut feminino estará sucateado.

    Sites como o de vocês, do Futebol para Meninas, do Planeta Futebol para Meninas etc fazem o possível para fomentar a modalidade. Mas falta interesse e a contraparte dos clubes, federações, do governo, e claro também, dos veículos de comunicação.

    Enquanto as pessoas não entenderem que através do esporte podemos melhorar muito o país, em vários âmbitos, vamos ficar enxugando gelo. Cidadania, educação, respeito ao diferente, tudo pode ser aprendido com o esporte.

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