Futebol Feminino

A 'revolução do futebol' que está mudando a vida de mulheres no Irã

Algum tempo atrás, me deparei com uma notícia sobre mulheres jogando futebol no Irã. Na hora, confesso, me solidarizei com elas antes mesmo de ler a matéria: já imaginou ser mulher e jogar futebol em um país que não permite sequer que mulheres viajem sem autorização dos maridos?

Qual foi a minha surpresa quando eu descobri que, ops, as mulheres que jogavam futebol no Irã ouviam basicamente as mesmas coisas e o mesmo preconceito que as mulheres que jogam futebol aqui – com a diferença de que não somos um país muçulmano.

Foi conversando com Katayoun Khosrwyar, uma iraniana nascida nos Estados Unidos, que descobri que Brasil e Irã têm coisas em comum em termos de futebol feminino. E, pelo papo com ela, deu até para achar que eles já estariam um pouco na nossa frente quando o assunto é base.

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Tudo começou quando Kat, como ela gosta de ser chamada, foi para o Irã visitar a família aos 17 anos de idade. Lá, começou a jogar futsal em um time e logo passou a ouvir aquelas perguntas típicas dos homens – que não têm nexo algum: “Você joga futebol? Mas como? Você corre?”. Eles não entendiam como mulheres poderiam ser capazes de jogar. Alguns, aqui no Brasil, ainda não entendem.

Há 10 anos morando no Irã, Kat é umas das protagonistas de uma “revolução do futebol” entre as mulheres em um país que ainda cultiva muitas restrições aos direitos femininos. E é pelo esporte que elas estão tentando – e, de certa forma, conseguindo – mudar essa realidade.

“Para jogar futebol, as mulheres precisam conciliar treinos e estudo, não é uma coisa fácil. Isso faz com que elas ganhem um respeito maior da sociedade”, disse Kat. Ela atuou pela seleção iraniana e hoje é técnica da sub-14 do país.

Proibido de ser praticado pelas mulheres desde a Revolução Iraniana de 1979, o futebol feminino voltou com força a partir de 2005, quando uma seleção foi montada para disputar um campeonato da Ásia Ocidental. Hoje, ele tem se tornado cada vez mais popular, atraindo milhares de meninas que começam a dar seus primeiros chutes desde cedo.

Mais do que isso, o futebol feminino no Irã tem chamado a atenção para tabus tradicionais envolvendo mulheres no país. Há duas semanas, por exemplo, a capitã da seleção de futsal do Irã, Niloufar Ardalan, não pôde viajar para disputar a Copa Asiática na Malásia. Você há de se perguntar: por quê? Pasme! Porque o marido não deixou – sim, isso ainda existe e, no Irã, por lei, mulheres precisam de autorização dos maridos para saírem do país. O tema ganhou destaque em vários jornais pelo mundo todo e gerou debate no próprio país.

A justificativa para não assinar a permissão de viagem à esposa foi porque “ela precisava estar em casa para acompanhar o filho no primeiro dia de aula”. Conhecida como “Lady Goal”, a jogadora de 30 anos não escondeu sua insatisfação.

“Como mulher muçulmana, eu queria lutar para que a bandeira do meu país fosse erguida (nos jogos); não estava viajando por lazer ou diversão”, disse ela à imprensa local.

“Gostaria que as autoridades criassem uma solução que permitisse a atletas mulheres defenderem seus direitos nessa situação. Entendo que é a lei, mas nossa seleção precisa de mim. O governo poderia abrir uma exceção temporária para atletas profissionais disputarem partidas internacionais. Como mulher, mãe e uma atleta profissional iraniana, eu gostaria de receber esse apoio.”

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‘Revolução’

Apesar de ainda não poderem estar nas arquibancadas em jogos de futebol masculino, dentro de campo as iranianas já ocuparam seu espaço no esporte. O pontapé inicial foi dado dez anos atrás, quando se formou a primeira seleção feminina desde a proibição da modalidade no Irã na década de 1980.

O time foi um dos motivos pelos quais Kat resolveu ficar no Irã. Ela tinha 17 anos em 2005 quando foi visitar a família e acabou sendo escolhida para fazer parte da seleção. “Eu jogava nos Estados Unidos e, quando vim para o Irã, comecei a jogar futsal, porque não tinha futebol de campo. Eu tive sorte, porque naquele ano, fizeram a seleção e fui convidada para ficar.”

Àquela altura, a seleção americana já era bicampeã da Copa do Mundo de futebol feminino, mas Kat preferiu ficar no Irã em vez de voltar e jogar nos EUA. “Os Estados Unidos já estão estabelecidos, o time de futebol feminino de lá já ganhou tudo. Eu queria fazer algo revolucionário. E queria fazer algo para ajudar meu outro país, para que elas fossem capazes de competir em alto nível”, afirmou.

No início, Kat conta que sofreu bastante com o preconceito dos homens, que não acreditavam que mulheres seriam capazes de jogar futebol. Qualquer semelhança com o Brasil (não) é mera coincidência. “Era um choque e ainda é para algumas pessoas ver mulheres jogando.”

“Estamos tentando fazer nosso país se adaptar e mudar esse pensamento de que mulheres não podem jogar futebol. Estamos mostrando que mulheres são fisicamente capazes de jogar os 90 minutos, que elas podem driblar e fazer coisas incríveis, assim como os homens”, completou.

Frustração

Com a seleção iraniana montada a partir de 2005, as mulheres do país começaram a sonhar mais alto: elas queriam disputar os Jogos Olímpicos. A oportunidade viria em 2012, nos Jogos de Londres, mas uma regra imposta pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Fifa transformou o sonho em frustração.

Já imaginou você gastar seis anos se preparando, treinando, abrindo mão de tudo na vida para poder disputar a Olimpíada e, em uma tarde, ver uma imposição sem sentido acabar com tudo? Acontece que a seleção iraniana estava prestes a entrar em campo contra a Jordânia pelo segundo jogo classificatório para os Jogos, em 2011, quando recebeu a informação de que não poderia jogar com o hijab, tradicional véu islâmico que as mulheres usam para cobrir o cabelo, porque isso iria contra as regras da Fifa – desde 2007, ela não permitia o uso dele “por questões de segurança”.

O que a Fifa não entendeu é que o hijab não era “um véu imposto para as mulheres muçulmanas”. Ele é símbolo de uma cultura, de uma religião e que, portanto, deve ser respeitada como tal. Entrar em campo sem o hijab seria negar a cultura de seu próprio país para as iranianas. Uma falta de respeito sem tamanho. E elas não obedeceram a Fifa – e choraram muito pelo adeus ao sonho olímpico de maneira tão precoce.

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“Tínhamos treinado por anos para poder gerar aquele grande impacto e isso foi simplesmente tirado de nós. Tivemos que sair porque o mundo não estava pronto para ver mulheres jogando com hijab.”

A regra mudou em 2014, ufa. “Acho que agora, toda vez que jogamos com hijab, eles veem que nós somos tão competitivas e tão fortes quanto os outros times e que nós estamos ali pra vencer também. E com o tempo, vão perceber que é apenas um véu cobrindo o cabelo, nada além disso.”

O time de 2011 se desfez, e agora o Irã está começando de novo. Atualmente, cerca de 4 mil meninas iranianas jogam nas categorias juvenis, e o país conta com cinco seleções – adulta, sub-19, sub-16, sub-14 e seleção de futsal. Apesar disso, Kat conta que o futebol feminino no Irã ainda sofre com a falta de estrutura. Mas elas estão firmes e fortes no planejamento para fazerem bonito na Copa de 2019 e na Olimpíada de 2020

Futebol feminino: Irã x Brasil

O mais curioso dessa conversa veio quando a Kat me contou sobre como a Copa do Mundo feminina foi vista no Irã e sobre como os homens lá olhavam para a televisão e pensavam: “Nossa, essas mulheres jogam melhor que os homens! Queremos ver vocês lá na próxima!”

Foi quando comecei a contar para ela como a Copa feminina foi vista aqui. Ou melhor, não foi vista. Como nenhuma TV passou, nenhum jornal se importou, nenhum site noticiou, praticamente. E ela ficou BOQUIABERTA – ok, não dá para ver pelo telefone, mas ela passou alguns segundos em silêncio e depois disse: “Isso é inacreditável! Não em um bom sentido, mas em um péssimo sentido. Vocês são apaixonados por futebol, eu achava que estariam vendo a Copa em todo lugar”.

Sonho nosso, Kat. Quando contei para ela que as jogadoras não tinham clube para jogar, que até outro dia não tinha campeonato nacional, que só agora havia alguma melhoria por causa da seleção permanente, ela se disse “chocada”. E ainda nos deu uma lição.

“Mas essa seleção permanente, isso é só para pouquíssimas jogadoras. É 1% das meninas que querem jogar no Brasil. Imagina se eles oferecessem isso para todas as meninas, imagine quão rápido o futebol feminino iria crescer no Brasil?”. Imagino. E pena que fica só na imaginação por enquanto.

Quanto ao Irã, Kat está otimista com relação ao futuro do futebol feminino por lá. Com cada vez mais apoio no país, ela diz que as mulheres estão quebrando preconceitos e logo estarão disputando títulos em competições internacionais de alto nível. Espero que nós, por aqui, também estejamos.

“Leva um tempo porque nós somos um país islâmico e isso é muito novo para essa região – ver mulheres tão apaixonadas pelo futebol. Mas nós temos muito apoio agora, especialmente das famílias. Estamos 100% prontas e queremos ganhar.”

E se você ainda duvida do potencial das iranianas no futebol, dá uma olhada nesse lance delas no futsal.