Futebol Feminino

A realidade desagradável exposta por Diana Taurasi, agora maior pontuadora da WNBA

tausari2

*Por Mayra Sartorato

Primeira escolha do draft de 2004, ano em que ficou com o título de rookie. Três vezes campeã do maior campeonato de basquete do mundo – e MVP em duas destas finais, além de uma vez durante a temporada regular. Quatro vezes medalhista de ouro em Olimpíadas. Cinco prêmios de cestinha. Pentacampeã na Euroliga de basquete. Campeã da NCAA (liga universitária de basquete). E, agora, maior pontuadora da história da maior liga de basquete feminino no planeta.

(Veja o momento do recorde aqui)

Infelizmente, se você não acompanha este tal campeonato pelo serviço americano ou pelas redes sociais, não sabe de quem estamos falando.

Diana Taurasi é, incontestavelmente, uma das melhores jogadoras de basquete do mundo. Neste domingo, jogando pelo Phoenix Mercury, ela anotou os 14 pontos que a separavam de Tina Thompson, até então líder da WNBA neste quesito. Ao terminar a noite com 19 tentos diante do Los Angeles Sparks, ela consagrou o que alguns de nós já sabíamos.

Infelizmente, não muitos.

Apesar de seu talento em arremessos de longa e média distância e de sua liderança com a camisa 3 do Phoenix Mercury, Taurasi tem um defeito: ser uma mulher. Porque se fosse um homem, estaria estampando hoje todas as capas de jornais e sites esportivos e seria reverenciada como de fato merece: uma das melhores jogadoras que o basquete já viu.

Sua carreira na liga americana tem uma média de 18,3 pontos por jogo, 7.494 no total.

Taurasi

Ela é a líder de sua franquia em 16 categorias: temporadas jogadas, partidas, minutos, pontos, média de pontos, acertos de quadra, tentativas de arremesso, três pontos, três pontos tentados, lances livres feitos, lances livres tentados, rebotes, rebotes defensivos, assistências, roubos e tocos.

É a segunda jogadora da WNBA a anotar 5 mil pontos, mil rebotes e mil assistências.

É a jogadora que mais rápido alcançou os 4,5 mil pontos, mil rebotes e 900 assistências, com 224 jogos, e a mais precoce a chegar aos 4 mil pontos (197 partidas).

Foi a primeira da história da liga a fazer 500 pontos em 5 temporadas – e aí, continuou batendo neste número por mais três anos.

É a única na história da WNBA a fazer 800 pontos em uma temporada, feito que repetiu duas vezes.

 

Neste domingo, no momento em que conseguiu o recorde, o jogo parou para que ela fosse reverenciada dentro de quadra. Kobe Bryant, um dos maiores jogadores da história do basquete, estava na arquibancada e a aplaudiu de pé. Outros astros da NBA a parabenizaram pelo feito. LeBron James, por exemplo, não se cansou de elogiá-la em vídeo divulgado em suas redes sociais.

“Essa mensagem vai para a número um e única Dina Taurasi, maior pontuadora da história da WNBA. Você está de parabéns por tudo o que fez e faz, inspirando muitas meninas e mulheres na WNBA. E também pelo que faz pelo basquete em geral”, afirmou ele.

“Muito respeito a você, queria ter estado em Los Angeles para ver isso. Mas parabéns, você tem um talento inacreditável e é uma pessoa incrível. Tem todo o meu respeito. Todo o amor.”

kobe_taurasi
Kobe Bryant aplaudiu o feito de Diana Taurasi em Los Angeles

Mas mesmo com todos esses feitos, com todo esse talento, a imprensa quase não fala dela. Na manhã desta segunda-feira, por exemplo, ela não é manchete em nenhum dos maiores portais esportivos dos EUA.

Por isso, quase ninguém sabe de seus recordes, de sua dedicação ao Mercury, da temporada que ficou de fora da WNBA por reivindicações salariais ou do fato de que precisa jogar tanto nos EUA quanto na Rússia para se manter financeiramente como jogadora de basquete.

Afinal, mesmo com todos esses números alcançados, ganha pouco mais de 107 mil dólares por temporada nos EUA.

Parece muito?

taurasi3

Raul Neto, atleta brasileiro de 25 anos, jogou menos da metade dos jogos da temporada pelo seu time na NBA neste ano e, em média, ficou apenas 8,6 minutos em quadra em cada uma dessas partidas, sem ser titular em nenhuma. Ele não é detentor de nenhum recorde na liga. E, ainda assim, ganha 840 mil dólares.

O caso de Taurasi, resumidamente, expõe uma realidade desagradável: mesmo para os maiores nomes do basquete feminino, o dinheiro – e o reconhecimento – não é o nem de perto o mesmo.

A atenção da imprensa, então, é incomparável.

4 Comments

  1. Concordo muito com os argumentos do texto. O problema é que o interesse do público é pequeno. Quando morava em NY eu tinha o carnê de temporada do Liberty. O estádio recebia um público minúsculo, ainda mais minúsculo se comparado aos Knicks, time horroroso e caro, que não ganha nada há 200 anos. É claro que as coisas andam junta, se ninguém fala, fica mais difícil as pessoas se interessarem. Mas o problema, o machismo, está muito entranhado, e se o público não se interessa, os sites não vão dar destaque, mesmo. Não achem que estou defendendo os sites, não é isso, apenas estou lamentando que além do desprestígio da mídia e dos patrocinadores, também haja desinteresse do público.

  2. Boa noite, Renata. A título de curiosidade: quantos pay-per-view de WNBA você comprou nos últimos anos? Não e uma provocação, é que você sabe melhor do que eu: a imprensa dá mais cobertura aos assuntos que mais interessam ao público, especialmente agora que não vive de assinatura, mas de tráfego, audiência (+audiência = +anunciantes). Então se a NBA tiver, digamos, 100x mais audiência que a WNBA, é normal esperar que a imprensa dê 100x menos atenção para o evento, porque nem 1% do público se importa.

    Será que o público tem cooperado para o sustento e visibilidade do esporte feminino? Muitos se indignaram com a diferença salarial de Marta e Neymar durante as últimas Olimpíadas, mas essas mesmas pessoas não se dão o trabalho de ir a um estádio ver futebol feminino mesmo com entrada franca. Só apontar que o esporte feminino não recebe a mesma atenção, ou que as atletas ganham menos que os atletas, não adianta. É preciso que as pessoas, notadamente as mais indignadas, comecem a colaborar e dar audiência. E dinheiro, de preferência.

  3. O problema, caros colegas, está no nosso olhar. Já pararam para se perguntar porque o jogo dos homens nos interessa mais? É uma questão de aprendizado, da forma como aprendemos a olhar e apreciar o jogo. No jogo masculino se dá importância à força, à extrema rapidez na execução, nas enterradas. No jogo feminino, damos mais atenção ao esquema tático, rotações, bandejas. Mas fomos criados a vida inteira com o olhar voltado par os homens, para sua força física, sua rapidez, e apenas achamos ruim quando vemos que se joga o jogo de formas diferentes. Não aceito e nunca vou aceitar esse argumento: ah, é porque não dá dinheiro. O que precisa mudar, principalmente, é a forma como a gente aprecia jogos esportivos; nesse caso especial, o basquete. Se você vir qualquer postagem da WNBA na página da NBA do instagram, verão o show de misoginia dos homens, alguns mandando Taurasi voltar para a cozinha. Portanto, penso que o $ é o resultado de um sistema patriarcal que volta os nossos olhares a determinadas coisas, em detrimento de outras. É preciso descolonizarmos esse sistema de olhar para que aprendamos a apreciar os jogos femininos. E, principalmente, precisamos do apoio das mulheres. Vejo páginas no Twitter NBA das minas, mulheres que curtem NBa etc, mas pouco tem se dito da WNBA.

    É uma tristeza ver estádios vazio quando se tem Maya Moore, Diana Taurasi, Britney Grinder, Elena Dele Done, Sue Bird, Briana Stewart, Cappie Pondexter, Candace Parker, entre tantas, tantas outras…. Precisamos aprender que as mulheres jogam de forma diferente – não é melhor ou pior, mas diferente. Não há comparação porque são pontos de partida distintos. AMO a Wnba e torço pelo basquete feminino! Essas mulheres merecem nosso aplauso, de pé!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *