esporte, machismo

A invisibilidade das mulheres no esporte

montagem

Antes de ler esse texto, convido todos vocês a fazerem um teste. Escolha três sites esportivos brasileiros de sua preferência e vá até a página principal deles. Agora contabilize quantas matérias você encontrar que envolvam mulheres e esportes femininos – atenção, não vale as que forem relacionadas às “musas”, namoradas, peguetes ou futuras peguetes de fulano ou ciclano

(…)

Quantas encontrou?

A) 1
B) 2
C) 3
D) 0

Na minha busca, somei 2. Mas confesso que tenho feito esse teste frequentemente e não são raras as vezes que eu não encontro NENHUMA matéria sobre esportes femininos nos principais sites esportivos do país. Se você ampliar a experiência para os programas esportivos de TV de sua preferência ou para as editorias esportivas dos seus jornais preferidos, vai notar que o resultado não vai fugir muito disso – infelizmente.

Se a gente passar o ano todo fazendo essa busca, vai acabar achando que nada acontece nos esportes femininos ao longo desses 12 meses – ou que eles praticamente inexistem em temporadas regulares, só “reaparecendo” de quatro em quatro anos durante os Jogos Olímpicos.

O argumento que se usa para justificar a “não cobertura” de eventos das modalidades femininas é que “não há interesse do público”. Ao que, imediatamente, o consciente responde: e como é que o público poderia se interessar por algo que ele nem sabe que existe? Que nem sabe que acontece? Nem sabe quando vai ter, quem vai jogar, o que vai acontecer?

O futebol feminino, por exemplo, foi um dos esportes que mais rendeu audiência durante a Olimpíada (a quarta maior audiência dos Jogos foi a partida entre Brasil e Austrália pelas quartas-de-final). Mas depois dela, é quase impossível encontrar qualquer matéria sobre a modalidade – nem mesmo a despedida de uma das maiores atletas de todos os tempos, Formiga, foi notícia em boa parte dos veículos esportivos.

Como um projeto que visa trazer mais visibilidade para os esportes femininos, nós mesmas tentamos suprir essa ausência das matérias na mídia tradicional e levar ao público as histórias das mulheres e as notícias sobre o que está acontecendo nas modalidades. Mas até mesmo para nós, “especialistas”, que estamos acostumadas a garimpar o Google todos os dias em busca dessas novidades, é extremamente difícil encontrar detalhes sobre as competições femininas. Sobre o dia a dia os esportes delas.

Nos últimos dias, por exemplo, estávamos tentando reunir um calendário com os principais eventos do esporte feminino no ano. Aí ontem me deparei com uma notícia de um portal trazendo uma lista com os “40 principais eventos esportivos para ficar de olho em 2017”. Pensei: minha salvação! Vai ajudar bastante.

Mas aí fui rolando, rolando, rolando o mouse para baixo. Fui até o fim – e contabilizei 3 (TRÊS) eventos esportivos femininos. Foram eles: Grand Prix de vôlei, Eurocopa Feminina, Mundial de Handebol feminino.

Eles citaram também outras competições e Mundiais que envolvem categorias femininas e masculinas ao mesmo tempo – como os Grand Slams de tênis, o Mundial de Atletismo, o de Esportes Aquáticos, o de Judô e o de Ginástica Artística – mas na foto e na descrição, apenas esse último dava destaque a uma mulher (a americana Simone Biles), enquanto todos os outros chamavam a atenção para Djokovic, Wawrinka, “os melhores nadadores”, “os judocas”.

Mas e o Brasileirão de futebol feminino? A Libertadores feminina? A Copa do Brasil? A Superliga de vôlei? A Liga feminina de Basquete? E o Super Sevens feminino de rugby? E tantos outros esportes e competições que a gente nem consegue lembrar simplesmente porque nem sabe que existe?

É claro que nenhum outro esporte, seja masculino ou feminino, jamais conseguirá se equiparar ao fenômeno do futebol, mas será que se em vez da cobertura diária de redes sociais de jogadores, pudéssemos ver uma entrevista com uma jogadorA aqui, uma cobertura da competição feminina lá, uma reportagem sobre as modalidades delas acolá, não poderíamos despertar mais interesse e, consequentemente, atrair mais investimentos para o esporte feminino?

Li uma vez em um livro que “Se repetirmos uma coisa várias vezes , ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal.” Acho que é isso que acontece nesse caso. A gente está tão acostumado a SÓ ver notícias de esportes masculinos, a só acompanhar esportes masculinos, que a gente nem estranha mais o fato de estarmos no século 21 e não vermos sequer UMA mulher estampada nas notícias esportivas – de novo, sem contar as “musas” e “namoradas” -, ou sequer UMA matéria sobre esportes que não sejam de homens.

Já é 2017, não custa tentar algo diferente. A visibilidade para os esportes femininos é essencial para que as mulheres consigam conquistar seu espaço – e, há muito tempo, elas já fazem por merecê-lo.

Neste ano, as ~dibradoras virão com uma novidade por aí. Com uma campanha de crowdfunding no catarse, tentaremos viabilizar um programa mensal no Youtube e no Facebook para trazer a vocês as notícias sobre o esporte feminino que você não vê por aí. Fiquem ligados :)

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