Futebol Feminino

A história oculta do futebol feminino no Brasil: um dia de resenha com as (esquecidas) pioneiras da seleção

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Sob o sol de inverno do Rio de Janeiro, em um campo society bem longe dos holofotes da Cidade Maravilhosa, ecoam os sonoros gritos de Rosilane Camargo Motta. “Vai, se arrumem logo aí, vamo logo”, diz ela a um grupo de crianças de 8, 9 e 10 anos no banco de reservas ao lado do gramado. “Bora, bora, olhem pro jogo antes de passar a bola”, diz, virando-se para o campo, onde jogavam os adolescentes de 14 e 15 anos.

A voz de ordem para as crianças e jovens do projeto social que coordena em Campo Grande, o maior bairro do Rio de Janeiro, é a mesma que um dia comandou as jogadas ensaiadas na lateral-esquerda da primeira seleção brasileira de futebol feminino da história.

Rosilane, mais conhecida como Fanta, não é tão conhecida nacionalmente como deveria por sua importância histórica em uma modalidade que até hoje enfrenta preconceitos do século passado – e que, se conseguiu resistir até aqui, foi principalmente por causa da luta de Fanta e suas companheiras de bola.

Uma delas foi quem me levou até Campo Grande em uma longa viagem pela Avenida Brasil para chegar até o gigante bairro de mais de 300 mil habitantes da zona Oeste do Rio. Leda Maria, comentarista de futebol feminino do SporTV e motorista nas horas “vagas”, também fez parte daqueles primeiros anos de seleção, naquele time que começou a quebrar as barreiras para a modalidade no Brasil.

O caminho foi longo, e o trânsito era grande, mas pela primeira vez me vi desejando mais carros na nossa frente para que aquela “viagem” no tempo do futebol feminino demorasse mais para acabar. Já no carro, Leda começou a contar as histórias de um tempo difícil, mas muito importante para a construção do futebol feminino por aqui.

“O preconceito na época era monstruoso. Era uma coisa que incomodava, você ouvir coisas pejorativas muito fortes, e estar ali só pra desenvolver seu esporte, por gostar realmente daquilo. Eu não jogava por dinheiro, não era profissional, era um lazer”, contou.

“Isso (preconceito) era uma barreira, mas servia de estímulo para continuar, para mostrar que a mulher tem valor, tem talento. E seguimos quebrando barreiras. Essa é minha geração, a geração pioneira, que sofria muito preconceito. O que a gente ouvia não era brincadeira, não. Coisas muito agressivas, não vale nem a pena repetir.”

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Elane (com a bola) e Leda relembram os velhos tempos no campo society de Campo Grande

Na chegada a Campo Grande – e ao campo marcado –, quem nos deu boas-vindas foi a chefe da zaga brasileira no primeiro Mundial disputado oficialmente, em 1991. Vestida já com short de treino e camisa de futebol, Elane dos Santos nos recepcionou já cobrando a falta da vestimenta apropriada: “Ué, não era pra vir jogar? Cadê a chuteira?”

Primeiro veio o papo, depois as lembranças, para só no fim vir o futebol. Fanta deu uma pequena pausa nas atividades como técnica e deixou o gramado para falar conosco – mas não sem antes nos trazer uma relíquia de ouro. Uma pasta cheia de jornais, pôsteres e notícias de 1988 até o início dos anos 2000 sobre o futebol feminino por aqui. As manchetes sobre o primeiro Mundial, realizado como teste na China em 1988, depois sobre o oficial em 1991, sobre a primeira vez do futebol feminino em Olimpíadas, em 1996, sobre o Radar, o time de craques do Rio de Janeiro que abastecia a seleção…sobre tempos gloriosos (e cheios de preconceito, infelizmente), que não voltam mais.

A história estava ali, nas nossas mãos, e podíamos folheá-la. Ao mesmo tempo, dava uma certa tristeza por ver que algumas das notícias ali se repetem ainda hoje. Como aquela “A luta pelo profissionalismo ainda distante”, que estampava o jornal de 20 anos atrás – e que, infelizmente ainda se encaixa até hoje. Outra tristeza foi constatar que, na época, apesar de tudo, os jornais noticiavam o Mundial de futebol feminino. No último, em 2015, quase nenhuma nota de rodapé foi dada sobre a competição.

Passei a tarde toda naquele campo ouvindo essas mulheres relembrando os tempos em que desafiavam os meninos na rua jogando com eles e lutando por um espaço que ainda não podia ser delas. Logo, fomos para a beira do campo e, com a bola por perto, elas não resistiram em dar as primeiras petecadas. Foi quando me vi ali, numa roda com a zagueira e a volante da primeira seleção de futebol feminino que o país teve, assistindo às duas jogando “altinha” com um menino de não mais do que 9 anos – que provavelmente já tinha entendido ali que futebol não tem restrição, é para quem quiser jogar.

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Na conversa, elas foram me contando as dificuldades que continuaram vivendo depois do futebol. Os bicos que faziam, a dificuldade de conseguir uma carteira assinada, a falta de oportunidades para aquelas que foram responsáveis por começarem a escrever a história do futebol feminino por aqui. E fiquei me perguntando como é que tanta gente ainda não sabe dessa história. Não sabem da existência dessas mulheres, do que elas passaram, não sabem que elas ajudaram o Brasil a conquistar um quarto lugar sofrido na primeira Olimpíada em que a modalidade esteve presente (em 1996) e sem apoio nenhum, sem estrutura nenhuma.

O papo com elas teve muitas risadas, teve os bastidores dos primeiros Mundiais disputados e teve muito futebol também – as três entraram em campo de novo para jogar com as crianças e matar a saudade do que mais amavam fazer no passado. Isso vocês verão em breve em um vídeo aqui no canal das dibradoras no Youtube.

Mas a parte mais legal do dia viria depois. Passado o futebol no campo, fomos para a resenha no bar. Aliás, no bar, não, no trailer da Elane, que vende cerveja, sanduíches, churrasquinho e outras coisas em uma praça ali mesmo em Campo Grande. Abrimos um litrão, e logo a conversa começou a rolar solta.

“Lembra quando a gente jogava na seleção, naquele primeiro Mundial, e não deixavam nem a gente ficar com as nossas camisas de jogo? Eles recolhiam as camisas assim que acabava a partida, a gente não tinha nenhum uniforme. Poxa, meu nome tava lá naquela camisa e eu não podia nem guardá-la”, contou Fanta.

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Foi quando Elane lembrou que nem o uniforme de treino elas tinham naquela época. Treinavam com o do próprio Radar, a equipe pioneira do Rio de Janeiro que por muito tempo foi base da seleção.

“E as diárias então? A gente tinha que brigar pra eles pagarem diária pra nós. Era tipo 50 reais, nem isso. Imagina o quanto de dinheiro que chegava para eles e não repassavam pra nós?”

E ai de quem reclamasse, elas disseram. Quem mais brigava ali para receber o que era de direito daquelas mulheres na seleção, acabava não convocada depois. Elane, a capitã do time na época, foi uma das que sofreu a represália.

“Eu tinha que brigar pelas meninas. Eu era capitã, então estava ali sempre cobrando o que era nosso. Mas aí chegou um dia que, de repente, eu não era mais convocada. E nunca mais fui.”

“Chegou um tempo em que nenhuma de nós era convocada, né?”, riu Fanta.

Ela logo não resistiu e levantou para cuidar do churrasquinho. É essa a tarefa que garante seu sustento hoje em dia. “A prefeitura ainda não renovou meu projeto social aqui, então eu não estou recebendo. Mas eu continuo porque moro aqui do lado e gosto de estar ali. Aí comecei esses bicos de churrasqueira, né”, contou.

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“O pessoal sempre gostou do meu churrasco, aí resolvi que dava pra ganhar um dinheiro com isso. O pessoal me contrata, eu levo minhas coisas e cuido da churrasqueira nas festas. Aí vira e mexe tem alguém que descobre que eu sou a Fanta da seleção e aí junta uma galera ao meu redor, começam a perguntar como era, se eu joguei com a Marta, e tal.”

Fanta, aliás, chegou a jogar com Marta no início de sua carreira, quando elas atuaram no Santa Cruz de Belo Horizonte. A hoje craque da seleção brasileira na época ainda era uma menina, mas já deixava todas boquiabertas com sua habilidade. “Ela era rápida demais, não dava nem pra ver ela passando em campo”, disse a veterana.

Ficamos ali até perto de meia-noite, tomando cerveja, vendo o Campeonato Brasileiro (masculino) na TV e comendo o churrasquinho preparado por Elane e Fanta. Falamos sobre o futebol feminino atualmente, sobre a evolução, e a estrutura, que está melhor, mas ainda bem longe do ideal. “Você acha que agora vai, Renata? Acha que o futebol feminino finalmente vai acontecer, vai ser valorizado?”, me perguntou Leda.

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Fanta tomou conta da churrasqueira no trailer de Elane

Eu confesso que não sei a resposta – e que não vivi nem metade das coisas que essas mulheres já viveram ao longo da história do futebol feminino. Mas eu disse que estou otimista. E que acredito que, sim, agora vai. Principalmente porque vejo um movimento grande de pessoas dispostas a cobrar para que isso aconteça. Um movimento da sociedade que percebeu que a mulher tem direito de ocupar esses espaço no futebol e em qualquer outro lugar. “A gente já passou por tanta coisa, já teve tanta esperança…é difícil acreditar que isso pode mudar de verdade”, me respondeu Leda.

Elas estão calejadas, é verdade. Foi muita luta para pouca mudança até aqui. Mas Elane, Fanta e Leda Maria já fizeram a sua parte. É por causa dessas mulheres (e das outras que construíram essa história com elas), que hoje a seleção feminina já tem duas pratas olímpicas, um vice-campeonato Mundial e que segue resistindo em meio a tanto preconceito. É por causa delas que hoje o Brasil pode ter Marta, cinco vezes melhor do mundo, Formiga e tantas outras “ídolas” do futebol. Foram elas que abriram caminho para que hoje a modalidade tenha algum reconhecimento e é por elas que hoje eu digo que tenho esperança.

Temos pela primeira vez uma mulher comandando a seleção feminina, temos jogos batendo recorde de público (25 mil pessoas vendo o Iranduba em Manaus, quase 16 mil vendo o Santos na Vila Belmiro), temos, acima de tudo, uma história de luta que merece ser honrada. Pelas pioneiras do futebol feminino no Brasil e por quem continua lutando até hoje, nós não vamos desistir de buscar o espaço e o reconhecimento que a modalidade – e essas mulheres – merecem.

 

 

2 Comments

  1. Renata,
    Muito obrigada por essa matéria tão especial!!! Também sounds uma entre as muitas atletas desvalorizadas no Brasil. Sou da época de Fanta, Roseli, Elaine, Sissi, Pretinha e tantas outras esquecidas pelo tempo. Eu praticava Atletismo, era corredora de longa distância, mas Tb fui preparadora física e massagista do Futebol
    Feminino em BH. Como as meninas dizem bem, as coisas, o desrespeito, os absurdos que ouvíamos dentro do campo eram de doer, mas isso só nos fortaleciam. Como muitos atletas, deixei o Brasil por falta de oportunidades e aqui nos EUA encontrei o apoio que nunca tive no meu próprio país. Já fui chamada de antipatriota por decidir viver aqui e não mais no Brasil. Essas coisas ainda machucam, pois só nós sabemos das lutas que passamos pra chegar onde chegamos. Parabéns pela matéria linda e por trazer de volta memórias de um tempo difícil, mas tão gostoso e que infelizmente não volta mais.
    Um super abraço e muito sucesso.

  2. Eu também joguei futebol na mesma época das meninas acima. E sei o quanto era dificil não ter dinheiro pra ir ao treino que dirá aos jogos .Mas já passou, e sim tenho muita esperança de tempos melhores no futebol feminino. Obs:Á julgar pelo público lá em Manaus. VAMO que VAMOS

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