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A estreia da 1ª mulher a comentar arbitragem na TV: “Somos capazes de ir muito longe”

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Foi lá na hoje longínqua década de 1970 que o futebol brasileiro teve sua primeira árbitrA. A mulher que desafiou a proibição do futebol feminino por aqui e decidiu encontrar alguma forma na Fifa de poder participar desse esporte – Lea Campos, uma figura admirável, a primeira mulher a apitar jogos de futebol no Brasil.

Lea certamente abriu caminho para que muitas outras mulheres viessem depois dela. Mas infelizmente, quatro décadas depois, nem tanta coisa mudou. No quadro de arbitragem da CBF, nem 7% dos 215 árbitros são mulheres. Entre assistentes, a situação melhora um pouco – elas são 58 de 311, ainda abaixo dos 20%.

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Lea Campos foi pioneiras entre as mulheres brasileiras na arbitragem

Mas recentemente, é possível dizer que ganhamos uma luz no fim do túnel para essa questão. Nadine Bastos, que era considerada uma das melhores assistentes do país, aposentou-se dos gramados neste mês e estreou em uma nova e promissora função: ela será comentarista de arbitragem do canal Fox Sports.

Não me lembro de ter visto outra mulher desempenhar um papel semelhante na TV brasileira. Apesar de elas estarem cada vez mais conquistando espaço no jornalismo esportivo, ainda é muito difícil ver mulheres ocupando o posto de comentaristas, dando opinião, discorrendo sobre tática, estratégia de jogo, dizendo o que um time deve ou deveria ter feito.

Que dirá, então, de opinar sobre o pênalti, o impedimento não marcado, o cartão mal aplicado? Está aí uma coisa inédita na TV brasileira. Vê-las ocupando um espaço nessa alçada é algo raro – afinal, ainda é tão comum ver pessoas se esquecendo das conquistas históricas, que começaram com Lea Campos e outras pioneiras, e fazendo a pergunta mais óbvia (e mais ignorante, talvez): mas mulher sabe a regra do impedimento?

Me arrisco a dizer que, assim como a regra é clara para Arnaldo Cezar Coelho, ela também o é para Nadine Bastos e para todas as mulheres que gostam e acompanham o esporte. E mulheres como Nadine – e Ana Paula Oliveira, e Silvia Regina, e Renata Ruel, e tantas outras que se dedicaram ou se dedicam à arbitragem no Brasil – não só sabem a regra do impedimento, como conhecem profundamente também todas as outras 16 que fazem parte do futebol.

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Ana Paula Oliveira foi a primeira mulher a fazer parte do quadro de arbitragem de uma final de Copa do Brasil, em 2006

Em sua despedida dos gramados, após apitar o amistoso da seleção brasileira de futebol feminino contra a Bolívia no início do mês, Nadine fez questão de ressaltar o potencial das mulheres nesse esporte.

“Eu acredito que as mulheres têm muito a se dedicar no futebol e têm um caminho muito bonito pela frente. Quero continuar incentivando o futebol feminino, assim como a arbitragem feminina. Nós somos capazes de ir muito longe”, afirmou, emocionada.

Como comentarista da Fox, a agora ex-assistente poderá inspirar muitas outras mulheres a quererem apostar em uma carreira na arbitragem. Apenas o fato de ela estar ali já mostra a outras tantas que sonham em trabalhar com o futebol que esse caminho é possível – e já não é mais uma utopia ou uma missão fora-da-lei como foi nas décadas de 1960 e 1970 para Léa Campos.

“A questão da cultura da mulher no futebol hoje está sendo mais aceita. Cada vez mais mulheres estão procurando o futebol. No começo, era um pouco mais difícil, mas acho que as pessoas estão começando a entender a importância da mulher nessa área”, afirmou Nadine em sua estreia na Fox Sports.

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Nadine foi considerada uma das melhores assistentes do Brasil

Assédio e preconceito

Apesar de os tempos terem evoluído um pouco, a presença da mulher na arbitragem brasileira ainda é raridade. O preconceito e o assédio sofrido dentro e fora de campo tornam o caminho delas ainda mais tortuoso para conquistar esse espaço.

A primeira vez que uma mulher fez parte do quadro de arbitragem de uma final de Copa do Brasil, por exemplo, foi em 2006, com Ana Paula Oliveira. Um jogo entre Flamengo e Vasco, um dos maiores clássicos do Brasil.

Mas desde então, 10 anos se passaram até que isso pudesse acontecer de novo. Foi no ano passado, justamente com Nadine Bastos como assistente, que a Copa do Brasil teve de novo uma mulher fazendo parte da arbitragem em uma decisão. O jogo foi entre Grêmio e Atlético-MG, com o time gaúcho sagrando-se campeão.

O fato foi tratado com mais naturalidade e teve menos repercussão do que aquele em 2006. Mas ainda não é possível dizer que seja exatamente “normal” ver uma mulher na arbitragem de um jogo de tamanha importância. Infelizmente, o caso ainda é exceção, e não regra.

E isso acontece muito por causa do preconceito que acompanha a mulher na arbitragem – independente da qualidade, da competência, ela é sempre criticada primeiro pelo seu gênero.

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Ainda é raro ver mulheres na arbitragem no Brasil

“Ela é muito bonita, aquelas coisas todas, mas tem que bandeirar melhor”, disse Muricy Ramalho sobre a assistente Fernanda Colombo, quando era técnico do São Paulo em 2014.

“A gente pega essa bandeira, bonitinha, que estava ali no canto. Os caras gritam no ouvido dela e como ela não tem preparo, levanta a bandeira, porque fica apavorada. Se é bonitinha, que vá posar para a Playboy, não trabalhar com futebol”, disse o então diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Matos, em 2014 sobre a mesma Fernanda Colombo.

Reclamações sobre arbitragem são comuns no futebol – e, claro, existem árbitros bons e ruins. Mas isso independe de gênero. Se um árbitro(a) ou assistente erra, ele deve ser criticado pelo seu  erro, não por ser “bonitinha” ou por ser “mulher”. É esse tipo de visão que afasta mulheres da arbitragem e que dificulta ainda mais o caminho delas para chegar a participar de uma final de campeonato, por exemplo.

“A procura das meninas quando entram no curso é somente a assistência. São raras as exceções que querem ser árbitras centrais. E isso acontece porque elas não são vistas”, afirmo ao site Superesportes Simone Silva, ex-árbitra, que hoje atua como instrutora da Escola de Arbitragem da Federação de Futebol do Rio de Janeiro.

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O assédio dentro de campo também é comum ainda e, muitas vezes, passa despercebido pelas próprias mulheres, que consideram aquele um comportamento “comum”.

No Campeonato Catarinense, em 2014, ao ser expulso da partida, o técnico do Juventus, Celso Teixeira, chegou a dizer à bandeirinha Maíra Labes: “Vou sair, sua gostosa”. Ela considerou o comportamento como “normal de jogo”.

Mas alguns casos recentes mostram como as coisas estão mudando. Em um jogo da Série A2 do Campeonato Paulista entre Atlético de Sorocaba e Votuporanguense no ano passado, o jogador Janílson, do time de Votuporanga, acabou expulso pelo árbitro Rodrigo Gomes Paes Domingues depois de ter feito comentários machistas para a bandeirinha Marcia Bezerra Lopes Caetano.

O lateral já tinha levado o amarelo quando se voltou para a bandeira e disse que “futebol é para homem, não para mulher” e depois a mandou “para cozinha lavar louça” – o juiz viu, deu o segundo amarelo, expulsou o jogador e relatou o fato na súmula.

A presença de Nadine agora na TV pode ser considerada uma outra evolução nessa área. Quanto mais mulheres ocuparem esses espaços – na arbitragem, nos comentários, no esporte, em geral -, mais elas irão inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo. E menor será a diferença entre o número de homens e mulheres no quadro de árbitros da CBF. 

Como bem disse Nadine, nós somos capazes de ir muito longe. E quem duvidar, a gente ~dibra.

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