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A conquista inédita de Etiene Medeiros e o significado dela para a natação feminina

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Crédito: CBDA

Quando se posicionou para a largada na principal raia da piscina – a temida raia 4, que somente os primeiros lugares ocupam -, Etiene Medeiros mantinha seu olhar calmo e concentrado. Virou para o lado e viu a chinesa Yanhui Fui, sua principal rival, sussurrar um “Good Luck” (boa sorte, na tradução simples) segundos antes de cair na água. Os segundos seguintes, aliás, colocariam o nome dela para sempre na história da natação brasileira.

Foram 27 segundos e 14 centésimos cravados que levaram Etiene a tocar a parede do outro lado da piscina e garantir o ouro inédito nos 50m costa do Mundial de Natação em piscina longa em Budapeste. O tempo foi um centésimo (isto é, 10 MILISEGUNDOS) suficiente para ficar à frente da chinesa, que ficou com a prata.

Aos 26 anos, Etiene foi de novo a primeira. Primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro em um Mundial de piscina longa. Já havia sido a primeira a conquistar um pódio na mesma competição, com a prata que veio em 2015 na mesma prova. Foi antes a primeira a conquistar um ouro em Mundial de piscina curta (foram 3, dois em Doha-2014 e um em Windsor-2016), a primeira a conquistar um ouro em Pan-Americanos (100m costa em Toronto-2015). Etiene gosta de ser primeira – e, acima de tudo, gosta de ser primeiro lugar.

“Estou mais madura. Mesmo não nadando outras provas antes, eu consegui nadar bem. Sinto que estou mesmo mais madura, aprendendo a transformar o que não foi bom em aprendizado. Hoje vibro mais essa medalha do que a do início que ganhei, porque eu sei o peso dela”, disse ela ao site da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos).

O caminho de Etiene Medeiros até o topo teve várias curvas, principalmente no início do caminho. Ela fazia ballet  e jogava basquete, mas uma asma na infância a levou à piscina e foi lá que ela achou sua melhor braçada rumo ao sucesso. Já aos 17 anos, ela conquistou o ouro no Mundial Junior nos 50m costa e mostrou que estava vindo para fazer história na natação feminina.

Agora, no Mundial de Budapeste, ela tinha o desafio de superar uma certa frustração na Olimpíada do Rio. Grande esperança de medalha – e de quebrar um tabu de pódios da natação feminina brasileira nos Jogos -, ela ficou em oitavo na final dos 50m livre e não conseguiu o feito. Além disso, chegou à competição já para estrear em sua melhor prova e, na semifinal, classificou em primeiro lugar – o que sempre deixa uma pressão maior para a prova final. Mas nada seria capaz de intimidá-la – e, desta vez, Etiene foi, nadou, e venceu.

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Satiro Sodré / SSpress

“Pela primeira vez eu balizei na raia quatro em um Mundial e sempre tem aquela tensão, mas querendo ou não conta a minha experiência. Antes de entrar pra TV, a chinesa virou pra trás e me desejou boa prova. Ela nunca fez isso. Quando eu entrei o pessoal que autoriza a nossa entrada brincou com isso e eu ri. Isso até ajudou a entrar  mais relaxada”, contou.

“Na prova de 50m tudo pode acontecer. Qualquer coisa te leva pra trás, mas deu certo. Primeiro ouro em piscina longa… Muita coisa a gente tem que aprender. Precisamos aprender a ser mais unidos, a querer que o outro vença. Fora d’água também faz a diferença.”

Determinada

Quem já conviveu e conhece Etiene a descreve como uma mulher, acima de tudo, determinada. A ex-nadadora Flavia Delaroli – que também tinha como especialidade as provas rápidas e conquistou um histórico oitavo lugar nos 50m livre na Olimpíada de 2000 – conta que a agora medalhista de ouro “tem gosto” por ser a primeira em tudo – e que faz por merecer suas conquistas.

“Acho que a Etiene é uma pessoa extremamente, ao mesmo tempo que tranquila, relaxada no sentido de convivencia. Ela tem um gênio forte e é muito determinada. Ela adora ser a primeira em tudo, acho que é mais do que merecido conseguir esse primeiro tambem”, disse às dibradoras.

“Passar pela semifinal com primeiro tempo já é uma super pressão, você vira foco e pessoa a ser batida. É dificil se bancar desde o início como favorita. E você vê que ela conseguiu bancar muito bem isso e para conseguir é muito psicológico, porque a diferença entre elas (Etiene e a chinesa) ali é mínima.”

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Crédito: CBDA

A conquista não veio à toa, ela vem acompanhada de mudanças na natação brasileira e, especialmente, de uma atenção maior à natação feminina. Trabalhos específicos, respeitando os ciclos do corpo da mulher, prestando a atenção nas minúcias, fazem a diferença no resultado final – é o que Delaroli acredita.

“O trabalho dela com o técnico Vanzella é uma parceria que tem dado muito certo. Os dois valorizaram muito as particularidades dela, trabalharam em cima dos pontos fortes e fracos e trabalharam em cima disso de uma forma muito pontual. É uma mulher, o corpo fiunciona diferente, tem ciclos e fases, eles são muito minuciosos nesses detalhes. E também a parte mental, sempre estar muito em cima do treinamento psicológico, meditação, uma coisa que realmente fecha todo trabalho pra ela concretizar num momento desse.”

Significado

Mas uma medalha de ouro assim – a primeira de uma mulher em uma competição importantíssima para a natação – não é apenas um souvenir para colocar no quadro e guardar para a posteridade. Ela tem um significado muito maior, que pode ter um legado eterno para as novas gerações.

“Os mundiais de longa têm uma representatividade maior pra natação. Porque a Olimpiada é em piscina longa. E muitas nao conseguem o memso  ali. A importância vai além do sigfnificado de uma competição. Ela mais uma vez tá quebrando barreiras, ela ignorou o fato de que isso nunca foi feito, foi lá e fez”, disse Delaroli.

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Crédito: CBDA

“Isso é muito importante para as meninas e as esportistas no Brasil. São coisas que viram barreiras psicológicas isso, de ‘isso nunca foi feito, como eu vou fazer?’. Ela foi a primeira várias vezes já, agora a medalha de ouro tao sonhada.”

Acima de tudo, é importante ressaltar o momento da natação brasileira. As mudanças na gestão da CBDA, que finalmente acabou com a era de Coracy Nunes – acusado de corrupção, está em prisão domiciliar -, têm surtido um efeito também nos resultados do Brasil nesse Mundial. Entre as mulheres, Ana Marcela conquistou três medalhas (um ouro na maratona aquática de 25km e dois brozes nos 5km e 10 km), e agora Etiene veio garantir mais uma conquista.

“Acho que agora é um momento grande de transição para a natação brasileira, toda essa competição está sendo a afirmação de que a natação não morreu, está mais viva do que nunca e que vai persistir. Agora com essa renovação, com essa vontade, interação dos atletas que nunca teve antes, está mostrando para os atletas: vamos participar, prezar pela política da natação porque vale a pena, pode crescer muito mais se for assim”, pontuou Delaroli.

“Para a natação feminina, a Etiene representa isso, o lado  que era mais fraco da corda, o feminino, que sempre ficava de lado, começou a ter apoio maior, ter médico específico, ginecologista, o olhar feminino. Acho que ela representa essa força de que vale a pena investir na mulher. As meninas vão vislumbrar isso: eu posso chegar ali, eu também sou incrivel. Com trabalho bem feito, dá para fazer muito melhor e essa nova geração que vai ser turbinada com esse resultado dela.”

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