Futebol Feminino

A cerveja, a arquibancada e o alambrado: final da Copa do Brasil foi o futebol por essência

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Não é raro ouvir por aí que futebol feminino é chato. E eu até respeito essa opinião, mas depois de uma noite como a de ontem (quinta-feira, final da Copa do Brasil entre Audax Corinthians e São José), preciso dar um conselho aos que pensam dessa maneira: (não, não é para usarem filtro solar – apesar de que, dependendo do horário, é bom também) experimentem ir a um jogo de futebol feminino.

Não digo isso só pela evolução do jogo – ainda que muitos dos críticos nunca sequer tenham visto uma partida recente e continuem dizendo que “é lento”, que “tem lances bizarros” talvez por um puro preconceito (ou por não estarem assistindo também aos jogos ruins das Séries A e B do Brasileiro, que não são poucos).

Digo pela experiência mesmo, que eu poderia apostar, será muito diferente da vivida na maioria dos jogos de futebol masculino (especialmente se você é torcedor de um time grande, de primeira divisão e com arena nova no pedaço).

Tudo começou no fim da tarde desta quinta-feira quando partimos para Osasco de carona com a capita Juliana Cabral (prata com a seleção em 2004) e com a jornalista ídola Lu Castro. Entramos no estádio José Liberatti por volta de 19h, faltando 30 minutos para o apito inicial e aproveitamos para fazer uma “boquinha” na cantina.

E nela, pasmem, cachorro-quente, hambúrguer, misto, tudo a um preço camarada – o que me lembrou a tortura de ir ao Morumbi com fome e gastar uma fortuna naquele kit Habibs que tem tudo menos esfiha, risos.

Optamos por um tradicional – e, para a nossa surpresa, “saudável”, já que era assado – Fofura e, pasmem mais ainda! Cerveja! Sim, vende cerveja no estádio na final da Copa do Brasil feminina. Obrigada, deusAS do futebol. Aliás, esse combo nos custou 8 reais – achei justo.

fofura

Uma olhadinha ao lado da cantina e, de repente, quem estava lá? Ele mesmo, o Velho Vamp. Tomando a sua gelada, trocando uma ideia com os amigos…dono do Audax, ele estava ali prestigiando a final de seus dois clubes que agora são um só – no feminino, o Audax fez uma parceria com o Corinthians que começou neste ano e parece que terá futuro.

As pessoas iam chegando, entrando e se acomodando onde achassem melhor. Não havia catracas, nem revista (lógico que isso seria impossível no contexto atual do futebol masculino, mas não deixa de ser agradável poder entrar no estádio sem ser esmagado do lado de fora pela “organização” da polícia).

Tinha torcida organizada também. A Estopim da Fiel foi com sua bateria e embalou o time da casa durante os 90 minutos. Não houve confrontos com PMs – aliás, nem vi a PM lá. Vi muitas crianças, vi muitas mulheres, muitos homens, pessoas de todas as idades.

O jogo

A chuva que castigou a cidade durante a tarde deixou o campo molhado, pesado, escorregadio. Dava para ver que a cada chute na bola, a água espirrava e a lama subia. Mas o Audax Corinthians parecia conhecer mesmo seu campo, tanto no seco quanto no molhado, e começou o jogo sufocando as adversárias do São José.

O excesso de água dificultava um pouco o toque de bola dos dois lados, mas se não ia pelo chão, ia pelo ar: o Corinthians aproveitou cruzamento, e Pardal abriu o placar de cabeça.

Como o jogo de ida, em São José, havia terminado empatado em 2 a 2, a vantagem corintiana aumentava ainda mais logo no início do primeiro tempo.

A etapa terminou sem que o time comandado por Emily Lima se mostrasse capaz de reagir. Mas, nos 45 minutos finais, o jogo ficaria bem mais emocionante.

gol

A artilheira Chú aproveitou uma bobeada da zaga e ampliou para o time da casa. Mas logo em seguida, o São José conseguiu diminuir, depois de cobrança de falta – na confusão da pequena área, Raquelzinha empurrou para o fundo das redes.

Esse placar deixava ainda tudo em aberto, já que se o São José fizesse mais um, levaria o jogo para os pênaltis.

Mas foi aí que a genialidade do time comandado por Arthur Elias fez a diferença. Nenê deu belo passe em profundidade do lado direito para Grazi, que cruzou na medida para a habilidosa Gabi Nunes chutar para o gol. 3 a 1 e fatura liquidada em Osasco – com muita categoria, diga-se de passagem.

A Festa

Quando o apito final aconteceu, a comemoração teve um só destino: o alambrado. As jogadoras saíram correndo na direção da torcida e escalaram as grades para comemorar com ela. Do outro lado, o movimento de torcedores e torcedoras foi o mesmo. O arame que antes dividia o campo da arquibancada, agora servia para unir os dois em um só som:

“Salve o Corinthians, o Campeão dos Campeões. Eternamente, dentro dos nossos corações…”

Que festa! Nessas horas que a gente percebe que futebol é mesmo um só. Não existe feminino, masculino, profissional, várzea, não existe categoria. Existe o esporte que une os corações de crianças, adultos e idosos num só ritmo, num só sentimento, na vontade de extravasar a comemoração de um título, independente se o gol foi de barriga ou se saiu de uma jogada “tiki taka”.

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O mais legal de tudo foi andar pelo estádio na comemoração e, na própria arquibancada ou no campo, encontrar ídolos de todas as gerações. Ali na frente da cantina, quem comemorava a conquista era ninguém menos que Wladimir, o lendário lateral-esquerdo do Corinthians das décadas de 1970 e 1980, líder da histórica Democracia Corintiana. Um dos maiores jogadores da história do clube paulista estava ali para prestigiar o futebol das mulheres – e foi pé quente, presenciando o título inédito delas.

Além dele e de Vampeta, Juliana Cabral, a capitã da primeira prata olímpica, parte da história seleção feminina de 2004 – e nossa carona! -, também estava ali, na arquibancada, acompanhando o jogo e tirando fotos com tantas meninas aspirantes a jogadoras que vieram tietá-la.

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Um pouco mais à frente, já no gramado, encontramos Aline Pellegrino, a capitã do vice-mundial em 2007 e da segunda prata olímpica em 2008. Outra que fez história pela seleção logo ali, ao alcance de quem quisesse conversar, tietar…

O campo virou uma festa só, com torcedores, jogadoras, comissão técnica, jornalistas…e claro, tantas meninas que abraçavam as campeãs sonhando um dia poderem estar ali, fazendo o mesmo que elas, com a medalha no peito.

Eu saí do jogo com a certeza de que não existe “futebol chato”. Futebol é simplesmente futebol – e, para quem gosta, será sempre uma experiência inesquecível.

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